Pressão arterial e barorreflexo: controle, aferição e hipertensão em cães e gatos

Pressão arterial explicada: barorreflexo, SRAA e ADH, como aferir em cães e gatos, hipertensão com lesão de órgão-alvo e hipotensão anestésica.

Por Equipe AjudaVet··7 min de leitura
Ilustração de um gato idoso tranquilo com manguito no membro anterior durante a aferição da pressão arterial com Doppler

Um gato idoso chega com cegueira súbita e pupilas dilatadas. Um cão anestesiado tem a pressão caindo no meio da cirurgia. Dois cenários opostos, uma mesma fisiologia: a pressão arterial e os sistemas que a regulam. Entender o barorreflexo, o SRAA e o ADH é o que permite raciocinar sobre hipertensão e hipotensão em vez de só reagir a números.

A equação e os números da pressão

PA = DC × RVP, e DC = FC × volume sistólico

Ou seja, a pressão sobe se o coração bombear mais ou se os vasos resistirem mais. A resistência depende sobretudo do raio das arteríolas: pela lei de Poiseuille, ela varia com a quarta potência do raio — um pequeno grau de vasoconstrição tem grande efeito. Os determinantes do débito estão detalhados no artigo sobre pré-carga, pós-carga e contratilidade.

Três números importam:

  • Pressão sistólica (PAS): pico durante a ejeção.
  • Pressão diastólica (PAD): menor valor, durante a diástole.
  • Pressão arterial média (PAM): a pressão que efetivamente perfunde os órgãos. Aproximadamente PAD + 1/3 × (PAS − PAD).
Diagrama em ciclo mostrando sensores na carótida e no arco aórtico enviando sinais ao tronco encefálico, que ajusta coração e arteríolas
No barorreflexo, sensores de estiramento na carótida e no arco aórtico informam o bulbo, que ajusta frequência, contratilidade e tônus vascular em segundos.

Barorreflexo: o controle de segundos

Os barorreceptores são terminações nervosas sensíveis ao estiramento da parede arterial, localizadas no seio carotídeo (aferência pelo nervo glossofaríngeo, IX) e no arco aórtico (aferência pelo vago, X). Eles enviam informação ao núcleo do trato solitário, no bulbo.

O barorreflexo quando a pressão cai
  1. 1
    Queda da PA

    Hemorragia, vasodilatação ou mudança brusca de posição reduzem o estiramento das artérias.

  2. 2
    Menos disparos dos barorreceptores

    O seio carotídeo e o arco aórtico reduzem a frequência de potenciais de ação.

  3. 3
    O bulbo interpreta

    Menos inibição do centro vasomotor: o tônus simpático sobe e o vagal cai.

  4. 4
    Resposta efetora

    Taquicardia, aumento da contratilidade, vasoconstrição arteriolar e venoconstrição (mais retorno venoso).

  5. 5
    PA volta para perto do normal

    Em segundos. Quando a PA sobe, ocorre o inverso: bradicardia reflexa e vasodilatação.

O barorreflexo é rápido, mas se adapta: em hipertensão crônica, ele é “reprogramado” para defender um valor mais alto. Por isso, sozinho, ele não controla a pressão a longo prazo. Os detalhes dos receptores α e β estão no artigo do sistema nervoso autônomo.

SRAA e ADH: o controle de horas a dias

Sistema renina-angiotensina-aldosterona

A renina é liberada pelas células justaglomerulares do rim quando há queda da pressão de perfusão renal, menos NaCl chegando à mácula densa ou estímulo simpático β1.

Renina converte angiotensinogênio em angiotensina I; a enzima conversora de angiotensina (ECA), abundante nos pulmões, forma a angiotensina II, que:

  • causa vasoconstrição arteriolar potente;
  • estimula a aldosterona (retenção de Na⁺ e água, perda de K⁺);
  • estimula sede e liberação de ADH;
  • facilita o simpático e promove remodelamento e fibrose cardiovascular e renal.

Hormônio antidiurético (ADH, vasopressina)

Liberado pela neuro-hipófise principalmente por aumento da osmolalidade, mas também por queda importante de volume ou pressão. Age em receptores V2 (aquaporinas no ducto coletor, retendo água) e V1 (vasoconstrição). Veja como isso se reflete na urina em densidade urinária.

Do outro lado, os peptídeos natriuréticos (ANP e BNP), liberados quando átrios e ventrículos são distendidos, promovem natriurese e vasodilatação, contrapondo o SRAA.

Como aferir a pressão em cães e gatos

Doppler

  • Mede, na prática, a pressão sistólica
  • Funciona bem em gatos e animais pequenos
  • Mais tolerante a arritmias e taquicardia
  • Depende da experiência do operador

Oscilométrico

  • Fornece PAS, PAD e PAM
  • Automático, menos dependente do operador
  • Pode falhar em animais muito pequenos, agitados ou arrítmicos
  • Prefira aparelhos validados para a espécie

O padrão-ouro é a medida invasiva (cateter arterial), usada principalmente em anestesia e terapia intensiva. Para medidas não invasivas confiáveis, siga um protocolo:

  • Ambiente calmo, longe de outros animais, com aclimatação de alguns minutos e, se possível, o tutor presente;
  • Medir antes de outros procedimentos estressantes;
  • Manguito com largura de aproximadamente 30 a 40% da circunferência do membro ou da cauda (manguito estreito superestima; largo subestima);
  • Manter o mesmo membro, posição e operador; descartar a primeira leitura e fazer a média de 5 a 7 leituras consistentes;
  • Registrar tamanho do manguito, local e posição.

A hipertensão situacional (efeito do jaleco branco) é real em cães e gatos e pode elevar bastante a PAS. Um valor alto isolado, sem lesão de órgão-alvo, deve ser confirmado em outra ocasião.

Hipertensão sistêmica e lesão de órgão-alvo

Pelo consenso do ACVIM (2018), a classificação pela PAS é aproximadamente:

Categoria PAS (mmHg) Risco de lesão de órgão-alvo
Normotenso abaixo de 140 Mínimo
Pré-hipertenso 140 a 159 Baixo
Hipertenso 160 a 179 Moderado
Gravemente hipertenso 180 ou mais Alto

Em ambas as espécies, a maior parte dos casos é secundária: doença renal crônica (a mais comum), hipertireoidismo e hiperaldosteronismo em gatos; hiperadrenocorticismo, diabetes mellitus e feocromocitoma em cães. A relação com o rim é bidirecional — veja o estadiamento IRIS da DRC, que também subestadia pela pressão.

Órgão-alvo O que acontece Como aparece
Olho Retinopatia e coroidopatia hipertensiva Hemorragia retiniana, descolamento de retina, cegueira súbita (especialmente em gatos)
Rim Lesão glomerular por hiperfiltração Proteinúria e progressão da DRC
Coração Aumento da pós-carga Hipertrofia concêntrica do VE, sopro, ritmo de galope
Cérebro Edema e hemorragias Alteração de comportamento, convulsões, sinais vestibulares

O tratamento mira a causa de base e a redução gradual da PA. Entre as classes usadas estão os bloqueadores de canais de cálcio (como a anlodipina, muito usada em gatos) e os inibidores do SRAA (inibidores da ECA e bloqueadores do receptor de angiotensina, como a telmisartana), especialmente quando há proteinúria.

Hipotensão anestésica

Durante a anestesia, considera-se de forma geral hipotensão uma PAM abaixo de aproximadamente 60 mmHg ou PAS abaixo de cerca de 80 a 90 mmHg. Abaixo disso, a autorregulação de órgãos como rim e cérebro fica comprometida.

Mecanismo Exemplos
Vasodilatação (↓ RVP) Anestésicos inalatórios, propofol, acepromazina (bloqueio α1)
Depressão miocárdica (↓ contratilidade) Inalatórios em plano profundo
Hipovolemia (↓ pré-carga) Desidratação prévia, hemorragia cirúrgica
Bradicardia (↓ FC) Opioides, estímulo vagal, α2-agonistas

A abordagem segue a equação: reduzir o anestésico se o plano estiver profundo, corrigir volume se houver hipovolemia, tratar bradicardia quando for a causa e, se necessário, usar inotrópicos ou vasopressores. Atenção a uma exceção: os α2-agonistas causam hipertensão inicial com bradicardia reflexa (barorreflexo em ação), situação em que o uso rotineiro de anticolinérgico é discutível.

Revise em 1 minuto

Flashcards de revisão clique para virar
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  1. Após uma hemorragia aguda, a resposta imediata do barorreflexo é:

  2. Um manguito muito estreito para o membro tende a:

  3. Gato de 14 anos com cegueira súbita e hemorragias retinianas. O próximo exame mais importante é:

  4. A acepromazina contribui para hipotensão anestésica principalmente por:

No próximo passo da trilha, veja o que acontece quando a compensação falha: insuficiência cardíaca congestiva.

Referências

  1. Klein, B. G. Cunningham — Tratado de Fisiologia Veterinária. 6. ed. Rio de Janeiro: Elsevier, 2021.
  2. Guyton, A. C.; Hall, J. E. Tratado de Fisiologia Médica. 14. ed. Rio de Janeiro: Elsevier, 2021.
  3. Nelson, R. W.; Couto, C. G. Medicina Interna de Pequenos Animais. 6. ed. Rio de Janeiro: Guanabara Koogan, 2023.
  4. Ettinger, S. J.; Feldman, E. C.; Côté, E. Textbook of Veterinary Internal Medicine. 8. ed. St. Louis: Elsevier, 2017.
  5. Grimm, K. A. et al. Lumb & Jones Anestesiologia e Analgesia em Veterinária. 5. ed. Rio de Janeiro: Roca, 2017.

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