
Um gato idoso chega com cegueira súbita e pupilas dilatadas. Um cão anestesiado tem a pressão caindo no meio da cirurgia. Dois cenários opostos, uma mesma fisiologia: a pressão arterial e os sistemas que a regulam. Entender o barorreflexo, o SRAA e o ADH é o que permite raciocinar sobre hipertensão e hipotensão em vez de só reagir a números.
A equação e os números da pressão
PA = DC × RVP, e DC = FC × volume sistólico
Ou seja, a pressão sobe se o coração bombear mais ou se os vasos resistirem mais. A resistência depende sobretudo do raio das arteríolas: pela lei de Poiseuille, ela varia com a quarta potência do raio — um pequeno grau de vasoconstrição tem grande efeito. Os determinantes do débito estão detalhados no artigo sobre pré-carga, pós-carga e contratilidade.
Três números importam:
- Pressão sistólica (PAS): pico durante a ejeção.
- Pressão diastólica (PAD): menor valor, durante a diástole.
- Pressão arterial média (PAM): a pressão que efetivamente perfunde os órgãos. Aproximadamente PAD + 1/3 × (PAS − PAD).

Barorreflexo: o controle de segundos
Os barorreceptores são terminações nervosas sensíveis ao estiramento da parede arterial, localizadas no seio carotídeo (aferência pelo nervo glossofaríngeo, IX) e no arco aórtico (aferência pelo vago, X). Eles enviam informação ao núcleo do trato solitário, no bulbo.
- 1Queda da PA
Hemorragia, vasodilatação ou mudança brusca de posição reduzem o estiramento das artérias.
- 2Menos disparos dos barorreceptores
O seio carotídeo e o arco aórtico reduzem a frequência de potenciais de ação.
- 3O bulbo interpreta
Menos inibição do centro vasomotor: o tônus simpático sobe e o vagal cai.
- 4Resposta efetora
Taquicardia, aumento da contratilidade, vasoconstrição arteriolar e venoconstrição (mais retorno venoso).
- 5PA volta para perto do normal
Em segundos. Quando a PA sobe, ocorre o inverso: bradicardia reflexa e vasodilatação.
O barorreflexo é rápido, mas se adapta: em hipertensão crônica, ele é “reprogramado” para defender um valor mais alto. Por isso, sozinho, ele não controla a pressão a longo prazo. Os detalhes dos receptores α e β estão no artigo do sistema nervoso autônomo.
SRAA e ADH: o controle de horas a dias
Sistema renina-angiotensina-aldosterona
A renina é liberada pelas células justaglomerulares do rim quando há queda da pressão de perfusão renal, menos NaCl chegando à mácula densa ou estímulo simpático β1.
Renina converte angiotensinogênio em angiotensina I; a enzima conversora de angiotensina (ECA), abundante nos pulmões, forma a angiotensina II, que:
- causa vasoconstrição arteriolar potente;
- estimula a aldosterona (retenção de Na⁺ e água, perda de K⁺);
- estimula sede e liberação de ADH;
- facilita o simpático e promove remodelamento e fibrose cardiovascular e renal.
Hormônio antidiurético (ADH, vasopressina)
Liberado pela neuro-hipófise principalmente por aumento da osmolalidade, mas também por queda importante de volume ou pressão. Age em receptores V2 (aquaporinas no ducto coletor, retendo água) e V1 (vasoconstrição). Veja como isso se reflete na urina em densidade urinária.
Do outro lado, os peptídeos natriuréticos (ANP e BNP), liberados quando átrios e ventrículos são distendidos, promovem natriurese e vasodilatação, contrapondo o SRAA.
Como aferir a pressão em cães e gatos
Doppler
- Mede, na prática, a pressão sistólica
- Funciona bem em gatos e animais pequenos
- Mais tolerante a arritmias e taquicardia
- Depende da experiência do operador
Oscilométrico
- Fornece PAS, PAD e PAM
- Automático, menos dependente do operador
- Pode falhar em animais muito pequenos, agitados ou arrítmicos
- Prefira aparelhos validados para a espécie
O padrão-ouro é a medida invasiva (cateter arterial), usada principalmente em anestesia e terapia intensiva. Para medidas não invasivas confiáveis, siga um protocolo:
- Ambiente calmo, longe de outros animais, com aclimatação de alguns minutos e, se possível, o tutor presente;
- Medir antes de outros procedimentos estressantes;
- Manguito com largura de aproximadamente 30 a 40% da circunferência do membro ou da cauda (manguito estreito superestima; largo subestima);
- Manter o mesmo membro, posição e operador; descartar a primeira leitura e fazer a média de 5 a 7 leituras consistentes;
- Registrar tamanho do manguito, local e posição.
A hipertensão situacional (efeito do jaleco branco) é real em cães e gatos e pode elevar bastante a PAS. Um valor alto isolado, sem lesão de órgão-alvo, deve ser confirmado em outra ocasião.
Hipertensão sistêmica e lesão de órgão-alvo
Pelo consenso do ACVIM (2018), a classificação pela PAS é aproximadamente:
| Categoria | PAS (mmHg) | Risco de lesão de órgão-alvo |
|---|---|---|
| Normotenso | abaixo de 140 | Mínimo |
| Pré-hipertenso | 140 a 159 | Baixo |
| Hipertenso | 160 a 179 | Moderado |
| Gravemente hipertenso | 180 ou mais | Alto |
Em ambas as espécies, a maior parte dos casos é secundária: doença renal crônica (a mais comum), hipertireoidismo e hiperaldosteronismo em gatos; hiperadrenocorticismo, diabetes mellitus e feocromocitoma em cães. A relação com o rim é bidirecional — veja o estadiamento IRIS da DRC, que também subestadia pela pressão.
| Órgão-alvo | O que acontece | Como aparece |
|---|---|---|
| Olho | Retinopatia e coroidopatia hipertensiva | Hemorragia retiniana, descolamento de retina, cegueira súbita (especialmente em gatos) |
| Rim | Lesão glomerular por hiperfiltração | Proteinúria e progressão da DRC |
| Coração | Aumento da pós-carga | Hipertrofia concêntrica do VE, sopro, ritmo de galope |
| Cérebro | Edema e hemorragias | Alteração de comportamento, convulsões, sinais vestibulares |
O tratamento mira a causa de base e a redução gradual da PA. Entre as classes usadas estão os bloqueadores de canais de cálcio (como a anlodipina, muito usada em gatos) e os inibidores do SRAA (inibidores da ECA e bloqueadores do receptor de angiotensina, como a telmisartana), especialmente quando há proteinúria.
Hipotensão anestésica
Durante a anestesia, considera-se de forma geral hipotensão uma PAM abaixo de aproximadamente 60 mmHg ou PAS abaixo de cerca de 80 a 90 mmHg. Abaixo disso, a autorregulação de órgãos como rim e cérebro fica comprometida.
| Mecanismo | Exemplos |
|---|---|
| Vasodilatação (↓ RVP) | Anestésicos inalatórios, propofol, acepromazina (bloqueio α1) |
| Depressão miocárdica (↓ contratilidade) | Inalatórios em plano profundo |
| Hipovolemia (↓ pré-carga) | Desidratação prévia, hemorragia cirúrgica |
| Bradicardia (↓ FC) | Opioides, estímulo vagal, α2-agonistas |
A abordagem segue a equação: reduzir o anestésico se o plano estiver profundo, corrigir volume se houver hipovolemia, tratar bradicardia quando for a causa e, se necessário, usar inotrópicos ou vasopressores. Atenção a uma exceção: os α2-agonistas causam hipertensão inicial com bradicardia reflexa (barorreflexo em ação), situação em que o uso rotineiro de anticolinérgico é discutível.
Revise em 1 minuto
Após uma hemorragia aguda, a resposta imediata do barorreflexo é:
Com menos estiramento, os barorreceptores disparam menos; o simpático aumenta e o vago diminui, elevando FC, contratilidade e RVP.
Um manguito muito estreito para o membro tende a:
O manguito estreito precisa de mais pressão para ocluir a artéria, gerando valores falsamente altos.
Gato de 14 anos com cegueira súbita e hemorragias retinianas. O próximo exame mais importante é:
Retinopatia hipertensiva é lesão de órgão-alvo clássica em gatos; a investigação de DRC e hipertireoidismo vem em seguida.
A acepromazina contribui para hipotensão anestésica principalmente por:
O bloqueio α1-adrenérgico reduz o tônus vascular e a RVP, baixando a pressão.
No próximo passo da trilha, veja o que acontece quando a compensação falha: insuficiência cardíaca congestiva.
Referências
- Klein, B. G. Cunningham — Tratado de Fisiologia Veterinária. 6. ed. Rio de Janeiro: Elsevier, 2021.
- Guyton, A. C.; Hall, J. E. Tratado de Fisiologia Médica. 14. ed. Rio de Janeiro: Elsevier, 2021.
- Nelson, R. W.; Couto, C. G. Medicina Interna de Pequenos Animais. 6. ed. Rio de Janeiro: Guanabara Koogan, 2023.
- Ettinger, S. J.; Feldman, E. C.; Côté, E. Textbook of Veterinary Internal Medicine. 8. ed. St. Louis: Elsevier, 2017.
- Grimm, K. A. et al. Lumb & Jones Anestesiologia e Analgesia em Veterinária. 5. ed. Rio de Janeiro: Roca, 2017.
Conteúdo educativo. Valores de referência variam entre laboratórios, equipamentos e literatura — sempre confira os intervalos do seu laboratório e a bibliografia oficial antes de aplicar na rotina.


