
O traçado saiu da impressora e parece um emaranhado de picos. A boa notícia: ler um ECG veterinário não exige talento especial, exige método. Seguindo sempre os mesmos 6 passos, na mesma ordem, você dificilmente deixa passar uma arritmia importante.
Antes dos 6 passos: o papel e a derivação
O ECG registra a soma vetorial da atividade elétrica do coração. Cada onda tem origem no potencial de ação cardíaco: P = despolarização atrial, QRS = despolarização ventricular, T = repolarização ventricular.
A derivação II (braço direito para membro pélvico esquerdo) é a mais usada para ritmo e medidas, porque fica alinhada com o eixo normal do coração e gera ondas positivas e visíveis.
| Velocidade do papel | 1 quadradinho (1 mm) | 5 quadradinhos (5 mm) | Uso típico |
|---|---|---|---|
| 25 mm/s | 0,04 s | 0,20 s | Avaliar ritmo em traçados mais longos |
| 50 mm/s | 0,02 s | 0,10 s | Medir ondas e intervalos (complexos ficam mais largos) |
Na vertical, com calibração padrão, 10 mm = 1 mV, ou seja, cada quadradinho vale 0,1 mV. Sempre confirme a calibração no traçado antes de medir amplitudes.

Os 6 passos da leitura
- 11. Frequência cardíaca
Conte os complexos QRS em um trecho conhecido e multiplique. Está adequada para a espécie, o porte e o contexto?
- 22. Ritmo
Os intervalos R-R são regulares, regularmente irregulares ou totalmente irregulares?
- 33. Onda P e relação P-QRS
Há onda P? Toda P é seguida de QRS? Todo QRS é precedido de P? O intervalo PR é constante?
- 44. Intervalos e medidas
Meça duração e amplitude de P, PR, QRS e QT na derivação II e compare com os valores da espécie.
- 55. Eixo elétrico médio
Estime a direção da despolarização ventricular a partir das derivações I e aVF ou da derivação isoelétrica.
- 66. Morfologia e conclusão
Avalie forma do QRS, segmento ST e onda T. Feche com um diagnóstico de ritmo e as alterações associadas.
Passo 1: frequência
- A 25 mm/s, 150 mm correspondem a 6 segundos: conte os QRS nesse trecho e multiplique por 10.
- A 50 mm/s, 150 mm correspondem a 3 segundos: conte e multiplique por 20.
- Para ritmos regulares: FC ≈ 1.500 ÷ distância R-R em mm (a 25 mm/s) ou 3.000 ÷ R-R em mm (a 50 mm/s).
Como referência didática e aproximada: cães adultos em consultório costumam ficar entre 70 e 160 bpm (raças toy e filhotes mais altos; raças gigantes mais baixos) e gatos entre 140 e 240 bpm. Os valores variam conforme a fonte, o estresse e o ambiente.
Passos 2 e 3: ritmo e relação P-QRS
Esses dois passos resolvem a maioria das arritmias. A pergunta-mestra é: de onde vem o impulso e ele está chegando aos ventrículos? Uma onda P positiva na derivação II, seguida de QRS com PR constante, indica origem sinusal.
Passo 4: intervalos e medidas
| Parâmetro (derivação II) | Cão (aproximado) | Gato (aproximado) |
|---|---|---|
| Duração de P | até 0,04 s (raças gigantes até 0,05 s) | até 0,04 s |
| Amplitude de P | até 0,4 mV | até 0,2 mV |
| Intervalo PR | 0,06 a 0,13 s | 0,05 a 0,09 s |
| Duração do QRS | até 0,05 s (raças grandes até 0,06 s) | até 0,04 s |
| Amplitude de R | até 2,5 a 3,0 mV conforme o porte | até 0,9 mV |
| Intervalo QT | 0,15 a 0,25 s | 0,12 a 0,18 s |
Esses valores são baseados nas tabelas clássicas e variam entre referências. P alargada sugere aumento atrial esquerdo; P alta sugere aumento atrial direito; R alta e QRS largo podem sugerir aumento ventricular esquerdo — mas o ECG é pouco sensível para tamanho de câmaras. Para isso, o exame de escolha é o ecocardiograma.
Passo 5: eixo elétrico
O eixo médio do QRS no plano frontal é, de forma aproximada, de +40° a +100° no cão, enquanto no gato o intervalo considerado normal é mais amplo. Um jeito rápido: se o QRS é positivo em I e em aVF, o eixo está entre 0° e +90° (normal). Desvio para a direita sugere sobrecarga do ventrículo direito ou bloqueio de ramo direito; desvio para a esquerda pode sugerir bloqueio fascicular anterior esquerdo (comum em gatos com CMH) ou aumento do ventrículo esquerdo.
Passo 6: morfologia
QRS largo e bizarro indica condução anormal (origem ventricular ou bloqueio de ramo). Alterações de ST e T podem refletir hipóxia miocárdica, distúrbios eletrolíticos ou efeito de fármacos. Fique atento a artefatos: tremor, ronronar, movimento respiratório e interferência elétrica imitam arritmias.
As arritmias clássicas
Arritmia sinusal respiratória
FC acelera na inspiração e desacelera na expiração, com P e QRS normais. É fisiológica em cães e reflete tônus vagal alto. Muitas vezes vem acompanhada de marcapasso migratório (variação da amplitude da P). Em gatos no consultório é pouco vista, pois o estresse eleva o tônus simpático. Entenda o porquê no artigo sobre o sistema nervoso autônomo.
Bloqueios atrioventriculares
| Tipo | Achado no ECG | Comentário |
|---|---|---|
| 1º grau | PR prolongado, toda P conduz | Pode ser vagal ou por fármacos |
| 2º grau Mobitz I | PR alonga progressivamente até uma P não conduzir | Frequentemente vagal em cães |
| 2º grau Mobitz II | PR constante e ondas P que de repente não conduzem | Mais sugestivo de doença do sistema de condução |
| 3º grau (total) | P e QRS dissociados; ritmo de escape lento | Escape ventricular com QRS largo; costuma exigir marcapasso |
Complexos prematuros ventriculares (CPV)
Surgem antes do esperado, são largos e bizarros, não têm P relacionada e a onda T costuma ter polaridade oposta ao QRS. Muitas vezes há uma pausa compensatória. Causas: cardiomiopatia (Dobermann, Boxer), mas também doenças extracardíacas como massas esplênicas, dilatação-vólvulo gástrica, trauma, dor, hipoxemia e distúrbios eletrolíticos. Sequências de três ou mais CPV caracterizam taquicardia ventricular.
Fibrilação atrial
Ritmo irregularmente irregular, sem ondas P (a linha de base pode ser ondulada) e QRS geralmente de morfologia normal, muitas vezes com frequência alta. Em cães, aparece em raças gigantes e secundariamente a grande aumento atrial (doença valvar avançada, CMD).
Arritmia sinusal respiratória
- Irregularidade acompanha a respiração
- Onda P presente antes de todo QRS
- Tônus vagal alto
- Normal em cães
Fibrilação atrial
- Irregularidade sem padrão
- Sem onda P identificável
- Geralmente frequência alta
- Sugere doença atrial importante
Hipercalemia no gato obstruído
Na obstrução uretral felina, o K⁺ sobe porque o animal não consegue eliminá-lo pela urina. O ECG acompanha a gravidade, de forma aproximada:
- Ondas T altas e apiculadas e QT encurtado;
- Achatamento e desaparecimento da onda P (parada atrial);
- Bradicardia, PR prolongado e QRS alargado;
- Padrão sinusoidal, fibrilação ventricular ou assistolia.
A correlação entre o nível de K⁺ e o traçado não é perfeita: acidose, hipocalcemia e hipotermia agravam o quadro. Para a gasometria e o equilíbrio ácido-base, veja a hemogasometria passo a passo.
Revise em 1 minuto
Em um traçado a 25 mm/s, você conta 12 complexos QRS em 150 mm. A frequência estimada é:
A 25 mm/s, 150 mm equivalem a 6 segundos. 12 × 10 = 120 bpm.
Ritmo irregular, sem ondas P identificáveis, QRS de morfologia normal e frequência alta. O diagnóstico mais provável é:
Irregularidade sem padrão e ausência de P com QRS estreito são típicas de fibrilação atrial.
Ondas P regulares, QRS largos e lentos sem relação com as P. Trata-se de:
A dissociação completa entre P e QRS, com escape ventricular lento de QRS largo, define o bloqueio AV total.
Gato macho obstruído, bradicárdico, sem onda P e com T apiculada. A principal suspeita é:
A hipercalemia por obstrução uretral causa T apiculada, perda da P e bradicardia, podendo evoluir para assistolia.
No próximo passo da trilha, entenda como o corpo controla a pressão arterial e o barorreflexo.
Referências
- Tilley, L. P. Essentials of Canine and Feline Electrocardiography. 3. ed. Philadelphia: Lea & Febiger, 1992.
- Ware, W. A. Medicina Cardiovascular de Pequenos Animais. São Paulo: MedVet, 2015.
- Nelson, R. W.; Couto, C. G. Medicina Interna de Pequenos Animais. 6. ed. Rio de Janeiro: Guanabara Koogan, 2023.
- Ettinger, S. J.; Feldman, E. C.; Côté, E. Textbook of Veterinary Internal Medicine. 8. ed. St. Louis: Elsevier, 2017.
Conteúdo educativo. Valores de referência variam entre laboratórios, equipamentos e literatura — sempre confira os intervalos do seu laboratório e a bibliografia oficial antes de aplicar na rotina.


