
Você coloca o estetoscópio no tórax de um cão e escuta o clássico “tum-tá”. Mas o que exatamente faz cada som? Por que um sopro “entre o tum e o tá” significa uma coisa e um sopro depois do “tá” significa outra? Tudo isso sai de um único conceito: o ciclo cardíaco — a sequência de eventos elétricos, mecânicos e sonoros que se repete a cada batimento.
A regra de ouro: pressão manda nas valvas
Antes de decorar fases, guarde uma regra só: o sangue anda do lado de maior pressão para o de menor pressão, e as valvas são portas de mão única que obedecem a essa diferença.
- Valvas atrioventriculares (mitral à esquerda, tricúspide à direita): abrem quando a pressão do átrio supera a do ventrículo; fecham quando o ventrículo passa a ter pressão maior que o átrio.
- Valvas semilunares (aórtica e pulmonar): abrem quando a pressão do ventrículo supera a da artéria; fecham quando a pressão ventricular cai abaixo da arterial.
Pense no ventrículo como uma sala com uma porta de entrada (AV) e uma de saída (semilunar). No coração normal, as duas nunca ficam abertas juntas — e há dois momentos em que ambas estão fechadas: as fases isovolumétricas.

As fases do ciclo cardíaco, uma a uma
Vamos seguir o ventrículo esquerdo, começando no fim da diástole.
- 11. Sístole atrial
Após a onda P, os átrios contraem e empurram o último volume de sangue para o ventrículo. É o 'chute atrial': complementa o enchimento, que já ocorreu em grande parte de forma passiva.
- 22. Contração isovolumétrica
Logo após o QRS, o ventrículo começa a contrair. A pressão ventricular supera a atrial e a mitral fecha (B1). A aórtica ainda está fechada: a pressão sobe muito, mas o volume não muda.
- 33. Ejeção rápida
Quando a pressão do ventrículo supera a da aorta, a valva aórtica abre e a maior parte do volume sistólico sai rapidamente.
- 44. Ejeção lenta
O fluxo diminui à medida que o ventrículo começa a repolarizar (onda T). A pressão ventricular começa a cair.
- 55. Relaxamento isovolumétrico
A pressão ventricular cai abaixo da aórtica e a valva aórtica fecha (B2). A mitral ainda não abriu: a pressão despenca com volume constante.
- 66. Enchimento rápido
A pressão ventricular fica menor que a atrial, a mitral abre e o sangue acumulado no átrio entra de forma rápida e passiva. É o momento associado à B3.
- 77. Diástase
Fase de enchimento lento, com pressões de átrio e ventrículo quase iguais. É a fase que mais encurta quando a frequência cardíaca aumenta.
Em repouso, a maior parte do enchimento ventricular é passiva. A sístole atrial contribui com uma fração menor (em geral citada em torno de 20 a 30%), mas ganha importância na taquicardia e no ventrículo rígido.
Bulhas cardíacas: o som das valvas fechando
As bulhas não são o som das valvas “batendo” como portas, e sim das vibrações do sangue, das valvas e das paredes quando o fluxo é bruscamente interrompido.
| Bulha | Quando ocorre | Origem | Em cães e gatos |
|---|---|---|---|
| B1 (“tum”) | Início da sístole | Fechamento das valvas AV (mitral e tricúspide) | Normal, audível |
| B2 (“tá”) | Início da diástole | Fechamento das valvas semilunares (aórtica e pulmonar) | Normal, audível |
| B3 | Início da diástole, no enchimento rápido | Desaceleração brusca do sangue em ventrículo dilatado/sobrecarregado | Em geral anormal (galope) |
| B4 | Fim da diástole, na sístole atrial | Átrio contraindo contra ventrículo rígido | Em geral anormal (galope) |
Entre B1 e B2 está a sístole; entre B2 e a próxima B1 está a diástole. Em frequências normais, a diástole é mais longa, o que ajuda a identificar qual bulha é qual.
Em pessoas, especialmente jovens e atletas, uma B3 pode ser fisiológica. Já em cães e gatos, B3 ou B4 audíveis devem ser consideradas anormais até prova em contrário. Em grandes animais, como equinos, B3 e B4 podem ser detectadas em indivíduos saudáveis — mais um motivo para não transferir conceitos entre espécies sem cuidado.
ECG e ciclo mecânico: quem vem primeiro?
O evento elétrico sempre precede o mecânico. O ECG mostra a despolarização e a repolarização; a contração vem logo em seguida.
| Evento no ECG | O que representa | Evento mecânico correspondente |
|---|---|---|
| Onda P | Despolarização atrial | Sístole atrial (logo depois) |
| Intervalo PR | Condução pelo nó AV | Atraso que permite ao átrio terminar de encher o ventrículo |
| Complexo QRS | Despolarização ventricular | Início da contração isovolumétrica, B1 logo após |
| Segmento ST | Ventrículo despolarizado por completo | Ejeção |
| Onda T | Repolarização ventricular | Fim da ejeção; B2 por volta do final da onda T |
A repolarização atrial fica “escondida” no QRS. Distúrbios eletrolíticos como a hipercalemia alteram essas ondas — veja a hemogasometria passo a passo.
Diagrama de Wiggers em palavras
O diagrama de Wiggers empilha várias curvas no mesmo eixo de tempo. Ele mostra:
- Pressão aórtica — oscila entre diastólica e sistólica, com a incisura dicrótica quando a aórtica fecha.
- Pressão ventricular esquerda — baixa na diástole, sobe abruptamente na contração isovolumétrica, acompanha a aórtica na ejeção e despenca no relaxamento.
- Pressão atrial esquerda — ondas a (contração atrial), c (abaulamento da AV) e v (enchimento atrial com a AV fechada).
- Volume ventricular — máximo no fim da diástole, cai na ejeção, estável nas fases isovolumétricas.
Embaixo vêm o ECG e o fonocardiograma. O truque: onde as curvas de pressão se cruzam, uma valva abre ou fecha.
| Cruzamento de curvas | Evento valvar | Marca |
|---|---|---|
| Pressão ventricular passa a atrial (subindo) | Mitral fecha | B1 |
| Pressão ventricular passa a aórtica (subindo) | Aórtica abre | Início da ejeção |
| Pressão ventricular fica abaixo da aórtica | Aórtica fecha | B2, incisura dicrótica |
| Pressão ventricular fica abaixo da atrial | Mitral abre | Início do enchimento rápido |
Volumes: VDF, VSF, volume sistólico e fração de ejeção
Do ciclo cardíaco saem os volumes que você vai usar na ecocardiografia e na clínica:
- Volume diastólico final (VDF): volume no ventrículo ao fim da diástole, logo antes da contração. Reflete a pré-carga.
- Volume sistólico final (VSF): o que sobra no ventrículo ao fim da ejeção. O ventrículo nunca se esvazia por completo.
- Volume sistólico (VS): VS = VDF − VSF. É o volume ejetado a cada batimento.
- Fração de ejeção (FE): FE = VS ÷ VDF. Em animais saudáveis costuma ficar, de forma aproximada, acima de 50%, com variação por espécie, método e laboratório de ecocardiografia.
- Débito cardíaco: VS × frequência cardíaca.
No loop pressão-volume, esses valores formam um “retângulo” arredondado: os lados verticais são as fases isovolumétricas (pressão muda, volume não), o lado inferior é o enchimento e o superior é a ejeção. A largura do loop é o volume sistólico.
Sístole
- Começa com B1 (AV fecham)
- Contração isovolumétrica + ejeção rápida e lenta
- No ECG: do QRS até o fim da onda T
- Sopro aqui = sopro sistólico
- Volume cai do VDF até o VSF
Diástole
- Começa com B2 (semilunares fecham)
- Relaxamento isovolumétrico + enchimento rápido + diástase + sístole atrial
- Fase que mais encurta na taquicardia
- Sopro aqui = sopro diastólico
- Também é quando as coronárias do VE recebem mais fluxo
Relevância clínica: onde o ciclo aparece no paciente
Sopros sistólicos x diastólicos. Um sopro é o som de fluxo turbulento. Se ele ocorre entre B1 e B2, é sistólico — por exemplo, a regurgitação mitral na degeneração mixomatosa valvar em cães de raças pequenas, ou a estenose subaórtica e a estenose pulmonar. Se ocorre depois de B2, é diastólico — como na insuficiência aórtica, que é bem menos comum em cães e gatos. Há ainda sopros contínuos, como no ducto arterioso persistente, que atravessam B2.
Galope no gato com cardiomiopatia hipertrófica. Na cardiomiopatia hipertrófica felina, o ventrículo esquerdo fica espesso e rígido (disfunção diastólica). O átrio contrai com mais força para completar o enchimento, o que pode gerar B4; em frequências altas, B3 e B4 podem se fundir (galope de soma). Galope em gato justifica investigação cardiológica, mesmo sem sopro.
Taquicardia encurta a diástole. Quando a frequência aumenta, a sístole encurta pouco, mas a diástole encurta bastante — sobretudo a diástase. Resultado: menos enchimento (o VDF pode cair), mais dependência da contração atrial e menos perfusão coronariana do ventrículo esquerdo. Por isso perder o “chute atrial” (como na fibrilação atrial) pesa mais em corações rígidos.
Revise em 1 minuto
Um sopro auscultado entre B1 e B2 é classificado como:
Entre B1 (fechamento das AV) e B2 (fechamento das semilunares) está a sístole. Por isso o sopro é sistólico, como na regurgitação mitral.
Durante o relaxamento isovolumétrico do ventrículo esquerdo:
A aórtica acabou de fechar (B2) e a mitral ainda não abriu. Com as duas fechadas, a pressão cai sem mudança de volume.
Um gato com cardiomiopatia hipertrófica apresenta som extra no fim da diástole, logo antes de B1. A explicação mais provável é:
A B4 coincide com a sístole atrial, no fim da diástole. Ocorre quando o átrio contrai contra um ventrículo pouco complacente, típico da cardiomiopatia hipertrófica.
Um ventrículo tem VDF de 40 mL e VSF de 16 mL. Qual é a fração de ejeção aproximada?
VS = 40 − 16 = 24 mL. FE = 24 ÷ 40 = 0,6, ou seja, 60%.
Referências
- Klein, B. G. Cunningham — Tratado de Fisiologia Veterinária. 6. ed. Rio de Janeiro: Elsevier, 2021.
- Reece, W. O. Dukes — Fisiologia dos Animais Domésticos. 13. ed. Rio de Janeiro: Guanabara Koogan, 2017.
- Ware, W. A. Medicina Cardiovascular de Pequenos Animais. São Paulo: MedVet, 2015.
- Guyton, A. C.; Hall, J. E. Tratado de Fisiologia Médica. 14. ed. Rio de Janeiro: Elsevier, 2021.
Conteúdo educativo. Valores de referência variam entre laboratórios, equipamentos e literatura — sempre confira os intervalos do seu laboratório e a bibliografia oficial antes de aplicar na rotina.


