
Um Poodle idoso com sopro há anos começa a respirar rápido durante o sono. Um gato jovem, sem sopro nenhum, chega com dispneia e efusão pleural. Ambos têm insuficiência cardíaca congestiva (ICC), e nos dois casos o que ameaça a vida não é o coração “fraco”, mas o líquido que se acumula onde não deveria. Entender por quê é o que dá sentido a cada fármaco da prescrição.
As forças de Starling: de onde vem o líquido
Em todo capilar, há um cabo de guerra:
- Pressão hidrostática capilar — empurra líquido para fora;
- Pressão oncótica plasmática (principalmente albumina) — puxa líquido para dentro;
- Permeabilidade da parede e drenagem linfática — determinam quanto do filtrado fica acumulado.
Filtração ≈ Kf × [(Pc − Pi) − σ × (πc − πi)]
Normalmente filtra-se um pouco mais do que se reabsorve, e os linfáticos removem o excesso. Na ICC, a pressão hidrostática capilar sobe porque o sangue “represa” atrás de um coração que não consegue esvaziar ou encher adequadamente. Quando a filtração supera a capacidade linfática, surge o edema.
Compare com outras causas de edema: hipoalbuminemia (queda da oncótica) e vasculite (aumento da permeabilidade). O mecanismo é diferente, e o tratamento também.

Esquerda ou direita: onde o líquido aparece
ICC esquerda
- Aumento da pressão no átrio esquerdo e nas veias pulmonares
- Edema pulmonar: taquipneia, dispneia, crepitação
- Em cães: padrão intersticial a alveolar, frequentemente peri-hilar e caudodorsal
- Em gatos: edema de distribuição variável e, com frequência, efusão pleural
ICC direita
- Aumento da pressão no átrio direito e nas veias sistêmicas
- Ascite (especialmente em cães) e efusão pleural
- Distensão jugular, refluxo hepatojugular e hepatomegalia
- Causas: hipertensão pulmonar, dirofilariose, doença tricúspide, efusão pericárdica
Por que gatos com insuficiência esquerda fazem efusão pleural? Em gatos, parte da drenagem venosa da pleura visceral segue para as veias pulmonares; com a pressão venosa pulmonar elevada, a pleura também extravasa. Na radiografia, avalie silhueta cardíaca, átrio esquerdo, vasos pulmonares e padrão pulmonar — revise a sistemática em como ler radiografia.
A ativação neuro-humoral: a compensação que vira problema
Quando o débito cai, o organismo “entende” que há pouco volume circulante e reage como se estivesse hemorrágico. Os mesmos sistemas descritos em pressão arterial e barorreflexo entram em ação:
- 1Débito cardíaco cai
Por regurgitação valvar, perda de contratilidade ou falha de relaxamento.
- 2Barorreceptores e rins detectam baixa perfusão
O simpático aumenta e a renina é liberada.
- 3SRAA, simpático e ADH ativados
Vasoconstrição, retenção de sódio e água, taquicardia.
- 4Benefício inicial
Mais pré-carga e mais pressão mantêm a perfusão por algum tempo (Frank-Starling).
- 5Prejuízo crônico
Volume em excesso eleva pressões venosas; vasoconstrição aumenta a pós-carga; aldosterona e angiotensina II promovem fibrose e remodelamento. A congestão aparece.
Os peptídeos natriuréticos tentam contrapor esse processo e, na prática, o NT-proBNP é usado como biomarcador de distensão miocárdica. Para a relação entre volume e força de contração, veja pré-carga, pós-carga e contratilidade.
As duas doenças que você mais vai ver
Doença valvar mixomatosa mitral (DVMM) no cão
A doença cardíaca adquirida mais comum em cães, sobretudo de raças pequenas (Cavalier King Charles Spaniel, Poodle, Chihuahua, Dachshund, entre outras) e idosos. A valva degenera, deixa de fechar bem e o sangue regurgita para o átrio esquerdo a cada sístole.
O átrio esquerdo recebe sobrecarga de volume, dilata e, quando a pressão sobe demais, surge o edema pulmonar. O consenso do ACVIM estadia a doença:
| Estágio | Situação |
|---|---|
| A | Raça predisposta, sem doença detectável |
| B1 | Sopro, sem remodelamento significativo |
| B2 | Sopro com aumento atrial e ventricular esquerdo relevante, sem sinais clínicos |
| C | Sinais clínicos de ICC atuais ou prévios |
| D | ICC refratária ao tratamento padrão |
A tosse desses cães pode vir do edema, mas também da compressão do brônquio principal esquerdo pelo átrio aumentado ou de doença de vias aéreas concomitante.
Cardiomiopatia hipertrófica (CMH) no gato
A cardiopatia mais comum em gatos. O ventrículo esquerdo fica espesso, relaxa mal e se torna pouco complacente: é uma doença diastólica. Para encher, ele exige pressões altas, que se transmitem ao átrio esquerdo, que dilata.
Pontos que diferenciam a CMH felina:
- Muitos gatos não têm sopro; alguns têm ritmo de galope ou arritmia;
- Gatos com ICC raramente tossem: o sinal é taquipneia e dispneia;
- Átrio esquerdo grande favorece estase e tromboembolismo arterial, classicamente na trifurcação aórtica, com paresia aguda e dolorosa dos membros pélvicos;
- Estresse, fluidoterapia e corticoides podem precipitar descompensação em gatos com doença oculta.
Fármacos e seus alvos
O objetivo aqui é ligar cada classe ao mecanismo. Escolha, combinação e dose são decisões clínicas individualizadas.
| Classe | Exemplos | Alvo fisiológico |
|---|---|---|
| Diuréticos de alça | furosemida, torasemida | Inibem o cotransportador Na⁺-K⁺-2Cl⁻ na alça de Henle: reduzem volume e pressões de enchimento |
| Inodilatador | pimobendan | Sensibiliza a troponina ao Ca²⁺ e inibe a fosfodiesterase 3: mais contratilidade e vasodilatação |
| Inibidores da ECA | benazepril, enalapril | Reduzem a angiotensina II: menos vasoconstrição e retenção de sódio |
| Antagonistas da aldosterona | espironolactona | Bloqueiam a aldosterona: natriurese e possível efeito antifibrótico |
| Antitrombóticos | clopidogrel | Inibem a agregação plaquetária; usados em gatos com risco de tromboembolismo |
Na emergência, a prioridade é aliviar a congestão: oxigênio, diurético e toracocentese quando há efusão pleural significativa. Em gatos com obstrução dinâmica da via de saída do ventrículo esquerdo, o uso de inotrópicos é mais controverso e merece avaliação ecocardiográfica.
Monitoramento em casa: a frequência respiratória em repouso
A frequência respiratória em repouso ou dormindo é simples, barata e muito sensível. O tutor conta os movimentos torácicos por 30 segundos e multiplica por 2, com o animal dormindo ou tranquilo, em ambiente fresco.
- Em geral, valores abaixo de 30 movimentos por minuto em repouso são esperados em cães e gatos com doença cardíaca compensada;
- Aumentos persistentes acima desse patamar, ou um aumento progressivo em relação ao basal do próprio animal, sugerem congestão iniciando e justificam contato com o veterinário.
Revise em 1 minuto
Um cão com DVMM apresenta edema pulmonar. O mecanismo principal é:
A regurgitação mitral eleva a pressão no átrio esquerdo e nas veias pulmonares, aumentando a filtração capilar.
Qual achado é mais típico de ICC direita?
A congestão venosa sistêmica causa ascite, hepatomegalia e distensão jugular.
Sobre a cardiomiopatia hipertrófica felina, é correto afirmar:
O ventrículo espesso relaxa mal. Muitos gatos não têm sopro, raramente tossem e podem ter tromboembolismo arterial.
A espironolactona atua na ICC principalmente por:
Ela bloqueia o receptor mineralocorticoide, promovendo natriurese e reduzindo efeitos fibróticos da aldosterona.
Fechou a trilha cardiovascular? Volte ao começo e revise o ciclo cardíaco com outros olhos.
Referências
- Ware, W. A. Medicina Cardiovascular de Pequenos Animais. São Paulo: MedVet, 2015.
- Nelson, R. W.; Couto, C. G. Medicina Interna de Pequenos Animais. 6. ed. Rio de Janeiro: Guanabara Koogan, 2023.
- Ettinger, S. J.; Feldman, E. C.; Côté, E. Textbook of Veterinary Internal Medicine. 8. ed. St. Louis: Elsevier, 2017.
- Klein, B. G. Cunningham — Tratado de Fisiologia Veterinária. 6. ed. Rio de Janeiro: Elsevier, 2021.
- Guyton, A. C.; Hall, J. E. Tratado de Fisiologia Médica. 14. ed. Rio de Janeiro: Elsevier, 2021.
Conteúdo educativo. Valores de referência variam entre laboratórios, equipamentos e literatura — sempre confira os intervalos do seu laboratório e a bibliografia oficial antes de aplicar na rotina.


