Insuficiência cardíaca congestiva: a fisiologia por trás do edema

Insuficiência cardíaca congestiva em cães e gatos: forças de Starling, edema pulmonar, ascite, ativação neuro-humoral, DVMM, CMH e alvos dos fármacos.

Por Equipe AjudaVet··6 min de leitura
Ilustração de um poodle idoso dormindo em casa, com sobreposição translúcida do tórax mostrando coração aumentado e pulmões

Um Poodle idoso com sopro há anos começa a respirar rápido durante o sono. Um gato jovem, sem sopro nenhum, chega com dispneia e efusão pleural. Ambos têm insuficiência cardíaca congestiva (ICC), e nos dois casos o que ameaça a vida não é o coração “fraco”, mas o líquido que se acumula onde não deveria. Entender por quê é o que dá sentido a cada fármaco da prescrição.

As forças de Starling: de onde vem o líquido

Em todo capilar, há um cabo de guerra:

  • Pressão hidrostática capilar — empurra líquido para fora;
  • Pressão oncótica plasmática (principalmente albumina) — puxa líquido para dentro;
  • Permeabilidade da parede e drenagem linfática — determinam quanto do filtrado fica acumulado.

Filtração ≈ Kf × [(Pc − Pi) − σ × (πc − πi)]

Normalmente filtra-se um pouco mais do que se reabsorve, e os linfáticos removem o excesso. Na ICC, a pressão hidrostática capilar sobe porque o sangue “represa” atrás de um coração que não consegue esvaziar ou encher adequadamente. Quando a filtração supera a capacidade linfática, surge o edema.

Compare com outras causas de edema: hipoalbuminemia (queda da oncótica) e vasculite (aumento da permeabilidade). O mecanismo é diferente, e o tratamento também.

Capilar com setas empurrando líquido para o tecido, proteínas puxando de volta e um vaso linfático drenando o excesso
Na ICC, o represamento venoso eleva a pressão hidrostática capilar; quando a filtração supera a drenagem linfática, surge o edema.

Esquerda ou direita: onde o líquido aparece

ICC esquerda

  • Aumento da pressão no átrio esquerdo e nas veias pulmonares
  • Edema pulmonar: taquipneia, dispneia, crepitação
  • Em cães: padrão intersticial a alveolar, frequentemente peri-hilar e caudodorsal
  • Em gatos: edema de distribuição variável e, com frequência, efusão pleural

ICC direita

  • Aumento da pressão no átrio direito e nas veias sistêmicas
  • Ascite (especialmente em cães) e efusão pleural
  • Distensão jugular, refluxo hepatojugular e hepatomegalia
  • Causas: hipertensão pulmonar, dirofilariose, doença tricúspide, efusão pericárdica

Por que gatos com insuficiência esquerda fazem efusão pleural? Em gatos, parte da drenagem venosa da pleura visceral segue para as veias pulmonares; com a pressão venosa pulmonar elevada, a pleura também extravasa. Na radiografia, avalie silhueta cardíaca, átrio esquerdo, vasos pulmonares e padrão pulmonar — revise a sistemática em como ler radiografia.

A ativação neuro-humoral: a compensação que vira problema

Quando o débito cai, o organismo “entende” que há pouco volume circulante e reage como se estivesse hemorrágico. Os mesmos sistemas descritos em pressão arterial e barorreflexo entram em ação:

O ciclo vicioso da insuficiência cardíaca
  1. 1
    Débito cardíaco cai

    Por regurgitação valvar, perda de contratilidade ou falha de relaxamento.

  2. 2
    Barorreceptores e rins detectam baixa perfusão

    O simpático aumenta e a renina é liberada.

  3. 3
    SRAA, simpático e ADH ativados

    Vasoconstrição, retenção de sódio e água, taquicardia.

  4. 4
    Benefício inicial

    Mais pré-carga e mais pressão mantêm a perfusão por algum tempo (Frank-Starling).

  5. 5
    Prejuízo crônico

    Volume em excesso eleva pressões venosas; vasoconstrição aumenta a pós-carga; aldosterona e angiotensina II promovem fibrose e remodelamento. A congestão aparece.

Os peptídeos natriuréticos tentam contrapor esse processo e, na prática, o NT-proBNP é usado como biomarcador de distensão miocárdica. Para a relação entre volume e força de contração, veja pré-carga, pós-carga e contratilidade.

As duas doenças que você mais vai ver

Doença valvar mixomatosa mitral (DVMM) no cão

A doença cardíaca adquirida mais comum em cães, sobretudo de raças pequenas (Cavalier King Charles Spaniel, Poodle, Chihuahua, Dachshund, entre outras) e idosos. A valva degenera, deixa de fechar bem e o sangue regurgita para o átrio esquerdo a cada sístole.

O átrio esquerdo recebe sobrecarga de volume, dilata e, quando a pressão sobe demais, surge o edema pulmonar. O consenso do ACVIM estadia a doença:

Estágio Situação
A Raça predisposta, sem doença detectável
B1 Sopro, sem remodelamento significativo
B2 Sopro com aumento atrial e ventricular esquerdo relevante, sem sinais clínicos
C Sinais clínicos de ICC atuais ou prévios
D ICC refratária ao tratamento padrão

A tosse desses cães pode vir do edema, mas também da compressão do brônquio principal esquerdo pelo átrio aumentado ou de doença de vias aéreas concomitante.

Cardiomiopatia hipertrófica (CMH) no gato

A cardiopatia mais comum em gatos. O ventrículo esquerdo fica espesso, relaxa mal e se torna pouco complacente: é uma doença diastólica. Para encher, ele exige pressões altas, que se transmitem ao átrio esquerdo, que dilata.

Pontos que diferenciam a CMH felina:

  • Muitos gatos não têm sopro; alguns têm ritmo de galope ou arritmia;
  • Gatos com ICC raramente tossem: o sinal é taquipneia e dispneia;
  • Átrio esquerdo grande favorece estase e tromboembolismo arterial, classicamente na trifurcação aórtica, com paresia aguda e dolorosa dos membros pélvicos;
  • Estresse, fluidoterapia e corticoides podem precipitar descompensação em gatos com doença oculta.

Fármacos e seus alvos

O objetivo aqui é ligar cada classe ao mecanismo. Escolha, combinação e dose são decisões clínicas individualizadas.

Classe Exemplos Alvo fisiológico
Diuréticos de alça furosemida, torasemida Inibem o cotransportador Na⁺-K⁺-2Cl⁻ na alça de Henle: reduzem volume e pressões de enchimento
Inodilatador pimobendan Sensibiliza a troponina ao Ca²⁺ e inibe a fosfodiesterase 3: mais contratilidade e vasodilatação
Inibidores da ECA benazepril, enalapril Reduzem a angiotensina II: menos vasoconstrição e retenção de sódio
Antagonistas da aldosterona espironolactona Bloqueiam a aldosterona: natriurese e possível efeito antifibrótico
Antitrombóticos clopidogrel Inibem a agregação plaquetária; usados em gatos com risco de tromboembolismo

Na emergência, a prioridade é aliviar a congestão: oxigênio, diurético e toracocentese quando há efusão pleural significativa. Em gatos com obstrução dinâmica da via de saída do ventrículo esquerdo, o uso de inotrópicos é mais controverso e merece avaliação ecocardiográfica.

Monitoramento em casa: a frequência respiratória em repouso

A frequência respiratória em repouso ou dormindo é simples, barata e muito sensível. O tutor conta os movimentos torácicos por 30 segundos e multiplica por 2, com o animal dormindo ou tranquilo, em ambiente fresco.

  • Em geral, valores abaixo de 30 movimentos por minuto em repouso são esperados em cães e gatos com doença cardíaca compensada;
  • Aumentos persistentes acima desse patamar, ou um aumento progressivo em relação ao basal do próprio animal, sugerem congestão iniciando e justificam contato com o veterinário.

Revise em 1 minuto

Flashcards de revisão clique para virar
Teste seu conhecimento0/4
  1. Um cão com DVMM apresenta edema pulmonar. O mecanismo principal é:

  2. Qual achado é mais típico de ICC direita?

  3. Sobre a cardiomiopatia hipertrófica felina, é correto afirmar:

  4. A espironolactona atua na ICC principalmente por:

Fechou a trilha cardiovascular? Volte ao começo e revise o ciclo cardíaco com outros olhos.

Referências

  1. Ware, W. A. Medicina Cardiovascular de Pequenos Animais. São Paulo: MedVet, 2015.
  2. Nelson, R. W.; Couto, C. G. Medicina Interna de Pequenos Animais. 6. ed. Rio de Janeiro: Guanabara Koogan, 2023.
  3. Ettinger, S. J.; Feldman, E. C.; Côté, E. Textbook of Veterinary Internal Medicine. 8. ed. St. Louis: Elsevier, 2017.
  4. Klein, B. G. Cunningham — Tratado de Fisiologia Veterinária. 6. ed. Rio de Janeiro: Elsevier, 2021.
  5. Guyton, A. C.; Hall, J. E. Tratado de Fisiologia Médica. 14. ed. Rio de Janeiro: Elsevier, 2021.

Conteúdo educativo. Valores de referência variam entre laboratórios, equipamentos e literatura — sempre confira os intervalos do seu laboratório e a bibliografia oficial antes de aplicar na rotina.

Continue estudando