
Um cão chega com ureia e creatinina altas e você precisa decidir: é desidratação ou é rim? A resposta muitas vezes está num exame barato e rápido: a densidade urinária. Para interpretá-la de verdade, você precisa entender como o rim concentra a urina, e é isso que este artigo explica, do néfron ao refratômetro.
O caminho do filtrado: o que cada segmento do néfron faz
O filtrado glomerular sai da cápsula de Bowman com osmolalidade praticamente igual à do plasma (em torno de 300 mOsm/kg). A partir daí, cada segmento tem uma função:
| Segmento | O que acontece | Efeito na osmolalidade do fluido tubular |
|---|---|---|
| Túbulo contorcido proximal | Reabsorve a maior parte (aproximadamente 2/3) do sódio e da água, glicose e aminoácidos | Continua isosmótico |
| Ramo descendente fino da alça | Permeável à água, pouco permeável a solutos | Fica cada vez mais concentrado |
| Ramo ascendente espesso | Transporte ativo de Na, K e Cl (cotransportador NKCC2), impermeável à água | Fica diluído (“segmento diluidor”) |
| Túbulo distal e ducto coletor | Ajuste fino; permeabilidade à água depende do ADH | Concentra (com ADH) ou permanece diluído (sem ADH) |
A ideia central: o rim separa sal de água. O ramo ascendente joga sal no interstício sem deixar a água acompanhar. Isso faz duas coisas ao mesmo tempo: dilui o fluido tubular e torna a medula salgada.

Multiplicador contracorrente: como a medula fica “salgada”
Imagine dois tubos lado a lado com fluxos em sentidos opostos (por isso “contracorrente”). No ramo ascendente espesso, a bomba de sal cria uma diferença de osmolalidade com o interstício a cada nível. O ramo descendente, permeável à água, perde água para esse interstício e chega mais concentrado à curvatura da alça. Como o fluido continua andando, essa pequena diferença em cada ponto é multiplicada ao longo do comprimento da alça, gerando um gradiente que vai de cerca de 300 mOsm/kg no córtex até várias vezes esse valor na medula interna.
Duas peças completam o sistema:
- Vasa recta (trocador contracorrente): os capilares da medula também descem e sobem em alça, com fluxo lento. O sangue ganha soluto ao descer e devolve ao subir, nutrindo a medula sem “lavar” o gradiente.
- Reciclagem da ureia: na presença de ADH, o ducto coletor medular interno fica permeável à ureia (transportadores UT-A). A ureia se acumula no interstício da medula interna e responde por boa parte da osmolalidade ali. Por isso dietas muito pobres em proteína ou doença hepática grave (menos ureia) podem reduzir a capacidade de concentração.
ADH e aquaporina-2: o interruptor final
O ADH (vasopressina) é produzido no hipotálamo e liberado pela neuro-hipófise quando a osmolalidade plasmática sobe (osmorreceptores) ou quando há hipovolemia/hipotensão importante.
- 1Estímulo
Aumento da osmolalidade plasmática ou queda significativa do volume circulante.
- 2Liberação de ADH
A neuro-hipófise libera vasopressina na circulação.
- 3Receptor V2
O ADH se liga ao receptor V2 na membrana basolateral das células principais do ducto coletor, ativando a via do AMPc.
- 4Aquaporina-2
Vesículas com aquaporina-2 são inseridas na membrana apical; a água entra na célula e sai pelas aquaporinas 3 e 4 basolaterais.
- 5Urina concentrada
A água segue o gradiente medular, e a urina se aproxima da osmolalidade do interstício.
Sem ADH (ou sem resposta a ele), o ducto coletor fica impermeável à água, e o fluido diluído que saiu do ramo ascendente é eliminado assim mesmo: urina diluída e em grande volume.
Densidade urinária: lendo o trabalho do rim
A densidade urinária (DU) é uma estimativa prática da concentração de solutos na urina. Como referência, o filtrado glomerular (e o plasma) corresponde a uma DU de aproximadamente 1.008 a 1.012.
| Faixa (aproximada) | Nome | O que significa |
|---|---|---|
| Abaixo de 1.008 | Hipostenúria | O rim diluiu ativamente; os túbulos trabalham, mas falta ADH ou resposta a ele |
| 1.008 a 1.012 | Isostenúria | Urina com a osmolalidade do filtrado; o rim não concentrou nem diluiu |
| 1.013 até cerca de 1.030 (cão) ou 1.035 (gato) | Concentração “mínima” | Concentra um pouco, mas pode ser inadequado se o animal estiver desidratado ou azotêmico |
| Acima de cerca de 1.030 (cão) ou 1.035 (gato) | Concentração adequada | Capacidade de concentração preservada |
Esses cortes são didáticos e aproximados; variam entre autores e laboratórios. Um animal saudável e bem hidratado pode ter qualquer densidade. O valor ganha significado quando você o cruza com o estado de hidratação e a bioquímica.
Azotemia pré-renal versus renal
Sugere azotemia pré-renal
- DU acima de cerca de 1.030 (cão) ou 1.035 (gato)
- Rim respondendo à hipovolemia com ADH
- Desidratação, choque, insuficiência cardíaca
- Azotemia tende a melhorar rápido com fluidoterapia
Sugere azotemia renal
- DU abaixo desses valores, muitas vezes isostenúrica
- Perda de néfrons funcionais
- Doença renal crônica ou lesão renal aguda
- Azotemia persiste após reidratação
Por que 2/3 e 3/4?
O rim tem grande reserva funcional. Com cerca de 2/3 dos néfrons comprometidos, os néfrons restantes recebem mais carga de soluto por unidade (diurese osmótica) e o gradiente medular fica prejudicado: a capacidade de concentrar se perde primeiro. A TFG só cai o suficiente para elevar ureia e creatinina quando cerca de 3/4 dos néfrons estão perdidos. Na prática, poliúria com isostenúria pode anteceder a azotemia na doença renal crônica, principalmente em cães.
Poliúria e polidipsia: raciocínio guiado pela densidade
Em cães, considera-se polidipsia uma ingestão de água acima de aproximadamente 100 mL/kg/dia. Antes de tudo, confirme que existe PU/PD (meça a ingestão em casa). Depois, deixe a DU guiar:
- Hipostenúria: pense em falta de ADH ou bloqueio da sua ação: diabetes insipidus, polidipsia psicogênica, hiperadrenocorticismo, piometra, hipercalcemia, doença hepática.
- Isostenúria ou concentração mínima: inclua doença renal (dosar ureia, creatinina, SDMA), além das causas acima.
- Glicosúria: diurese osmótica (diabetes mellitus, glicosúria renal). Glicose e proteína elevam a DU sem refletir a capacidade real de concentração.
Diabetes insipidus central versus nefrogênico
| Central | Nefrogênico | |
|---|---|---|
| Problema | Falta de produção ou liberação de ADH | Rim não responde ao ADH |
| DU típica | Hipostenúria, muitas vezes bem baixa | Hipostenúria |
| Resposta à desmopressina (análogo do ADH) | Concentra a urina | Pouca ou nenhuma resposta |
| Causas | Idiopático, trauma, neoplasia hipofisária | Congênito (raro) ou adquirido: hipercalcemia, hipocalemia, piometra, pielonefrite, hiperadrenocorticismo |
O teste de privação hídrica só deve ser feito após excluir causas mais comuns e nunca em pacientes desidratados ou azotêmicos, pelo risco de desidratação grave. A lavagem medular causada pela poliúria prolongada pode reduzir a resposta mesmo em animais com DI central, o que confunde a interpretação.
Refratômetro: como medir direito
- Use o refratômetro, não a tira reagente: o campo de densidade da tira não é confiável em cães e gatos.
- Calibre com água destilada em 1.000 antes de usar, à temperatura ambiente.
- Prefira refratômetros veterinários, com escala específica para gatos; a escala de cão/humano tende a superestimar levemente a DU felina.
- Em urina turva, leia o sobrenadante após centrifugação.
- Colete antes de fluidoterapia ou diuréticos; a primeira urina da manhã costuma mostrar a melhor capacidade de concentração.
- Lembre que glicose, proteína e contrastes radiográficos aumentam a leitura.
Revise em 1 minuto
Um cão desidratado tem creatinina elevada e DU de 1.045. A interpretação mais provável é:
Urina bem concentrada mostra que os rins respondem ao ADH e têm néfrons suficientes: a causa mais provável é a hipoperfusão (pré-renal).
Uma DU de 1.004 indica que:
Hipostenúria exige túbulos capazes de reabsorver soluto sem água; o problema costuma ser falta de ADH ou de resposta a ele.
Qual estrutura cria o gradiente osmótico da medula renal?
O ramo ascendente espesso bombeia NaCl para o interstício sem água, e o arranjo em contracorrente multiplica essa diferença ao longo da alça.
Um cão com PU/PD e hipostenúria passa a concentrar a urina após receber desmopressina. Isso favorece:
Se o rim responde ao análogo do ADH, o defeito está na produção ou liberação do hormônio, ou seja, diabetes insipidus central.
Referências
- Klein, B. G. Cunningham — Tratado de Fisiologia Veterinária. 6. ed. Rio de Janeiro: Elsevier, 2021.
- DiBartola, S. P. Fluid, Electrolyte, and Acid-Base Disorders in Small Animal Practice. 4. ed. St. Louis: Elsevier Saunders, 2012.
- Thrall, M. A. et al. Hematologia e Bioquímica Clínica Veterinária. 2. ed. São Paulo: Roca, 2015.
- Stockham, S. L.; Scott, M. A. Fundamentals of Veterinary Clinical Pathology. 2. ed. Ames: Blackwell Publishing, 2008.
Conteúdo educativo. Valores de referência variam entre laboratórios, equipamentos e literatura — sempre confira os intervalos do seu laboratório e a bibliografia oficial antes de aplicar na rotina.


