Como o rim concentra a urina (e o que a densidade urinária revela)

Alça de Henle, contracorrente, ADH e aquaporinas explicados de forma simples, e como usar a densidade urinária para interpretar azotemia e poliúria.

Por Equipe AjudaVet··8 min de leitura
Ilustração de um rim com néfron, gotas de água, refratômetro e tubo de urina

Um cão chega com ureia e creatinina altas e você precisa decidir: é desidratação ou é rim? A resposta muitas vezes está num exame barato e rápido: a densidade urinária. Para interpretá-la de verdade, você precisa entender como o rim concentra a urina, e é isso que este artigo explica, do néfron ao refratômetro.

O caminho do filtrado: o que cada segmento do néfron faz

O filtrado glomerular sai da cápsula de Bowman com osmolalidade praticamente igual à do plasma (em torno de 300 mOsm/kg). A partir daí, cada segmento tem uma função:

Segmento O que acontece Efeito na osmolalidade do fluido tubular
Túbulo contorcido proximal Reabsorve a maior parte (aproximadamente 2/3) do sódio e da água, glicose e aminoácidos Continua isosmótico
Ramo descendente fino da alça Permeável à água, pouco permeável a solutos Fica cada vez mais concentrado
Ramo ascendente espesso Transporte ativo de Na, K e Cl (cotransportador NKCC2), impermeável à água Fica diluído (“segmento diluidor”)
Túbulo distal e ducto coletor Ajuste fino; permeabilidade à água depende do ADH Concentra (com ADH) ou permanece diluído (sem ADH)

A ideia central: o rim separa sal de água. O ramo ascendente joga sal no interstício sem deixar a água acompanhar. Isso faz duas coisas ao mesmo tempo: dilui o fluido tubular e torna a medula salgada.

Néfron com a alça de Henle descendo da cortical para a medular, onde o interstício é cada vez mais concentrado
A alça de Henle cria um gradiente osmótico crescente na medular; o ADH abre canais de água no ducto coletor para aproveitá-lo.

Multiplicador contracorrente: como a medula fica “salgada”

Imagine dois tubos lado a lado com fluxos em sentidos opostos (por isso “contracorrente”). No ramo ascendente espesso, a bomba de sal cria uma diferença de osmolalidade com o interstício a cada nível. O ramo descendente, permeável à água, perde água para esse interstício e chega mais concentrado à curvatura da alça. Como o fluido continua andando, essa pequena diferença em cada ponto é multiplicada ao longo do comprimento da alça, gerando um gradiente que vai de cerca de 300 mOsm/kg no córtex até várias vezes esse valor na medula interna.

Duas peças completam o sistema:

  • Vasa recta (trocador contracorrente): os capilares da medula também descem e sobem em alça, com fluxo lento. O sangue ganha soluto ao descer e devolve ao subir, nutrindo a medula sem “lavar” o gradiente.
  • Reciclagem da ureia: na presença de ADH, o ducto coletor medular interno fica permeável à ureia (transportadores UT-A). A ureia se acumula no interstício da medula interna e responde por boa parte da osmolalidade ali. Por isso dietas muito pobres em proteína ou doença hepática grave (menos ureia) podem reduzir a capacidade de concentração.

ADH e aquaporina-2: o interruptor final

O ADH (vasopressina) é produzido no hipotálamo e liberado pela neuro-hipófise quando a osmolalidade plasmática sobe (osmorreceptores) ou quando há hipovolemia/hipotensão importante.

Do estímulo à urina concentrada
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    Estímulo

    Aumento da osmolalidade plasmática ou queda significativa do volume circulante.

  2. 2
    Liberação de ADH

    A neuro-hipófise libera vasopressina na circulação.

  3. 3
    Receptor V2

    O ADH se liga ao receptor V2 na membrana basolateral das células principais do ducto coletor, ativando a via do AMPc.

  4. 4
    Aquaporina-2

    Vesículas com aquaporina-2 são inseridas na membrana apical; a água entra na célula e sai pelas aquaporinas 3 e 4 basolaterais.

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    Urina concentrada

    A água segue o gradiente medular, e a urina se aproxima da osmolalidade do interstício.

Sem ADH (ou sem resposta a ele), o ducto coletor fica impermeável à água, e o fluido diluído que saiu do ramo ascendente é eliminado assim mesmo: urina diluída e em grande volume.

Densidade urinária: lendo o trabalho do rim

A densidade urinária (DU) é uma estimativa prática da concentração de solutos na urina. Como referência, o filtrado glomerular (e o plasma) corresponde a uma DU de aproximadamente 1.008 a 1.012.

Faixa (aproximada) Nome O que significa
Abaixo de 1.008 Hipostenúria O rim diluiu ativamente; os túbulos trabalham, mas falta ADH ou resposta a ele
1.008 a 1.012 Isostenúria Urina com a osmolalidade do filtrado; o rim não concentrou nem diluiu
1.013 até cerca de 1.030 (cão) ou 1.035 (gato) Concentração “mínima” Concentra um pouco, mas pode ser inadequado se o animal estiver desidratado ou azotêmico
Acima de cerca de 1.030 (cão) ou 1.035 (gato) Concentração adequada Capacidade de concentração preservada

Esses cortes são didáticos e aproximados; variam entre autores e laboratórios. Um animal saudável e bem hidratado pode ter qualquer densidade. O valor ganha significado quando você o cruza com o estado de hidratação e a bioquímica.

Azotemia pré-renal versus renal

Sugere azotemia pré-renal

  • DU acima de cerca de 1.030 (cão) ou 1.035 (gato)
  • Rim respondendo à hipovolemia com ADH
  • Desidratação, choque, insuficiência cardíaca
  • Azotemia tende a melhorar rápido com fluidoterapia

Sugere azotemia renal

  • DU abaixo desses valores, muitas vezes isostenúrica
  • Perda de néfrons funcionais
  • Doença renal crônica ou lesão renal aguda
  • Azotemia persiste após reidratação

Por que 2/3 e 3/4?

O rim tem grande reserva funcional. Com cerca de 2/3 dos néfrons comprometidos, os néfrons restantes recebem mais carga de soluto por unidade (diurese osmótica) e o gradiente medular fica prejudicado: a capacidade de concentrar se perde primeiro. A TFG só cai o suficiente para elevar ureia e creatinina quando cerca de 3/4 dos néfrons estão perdidos. Na prática, poliúria com isostenúria pode anteceder a azotemia na doença renal crônica, principalmente em cães.

Poliúria e polidipsia: raciocínio guiado pela densidade

Em cães, considera-se polidipsia uma ingestão de água acima de aproximadamente 100 mL/kg/dia. Antes de tudo, confirme que existe PU/PD (meça a ingestão em casa). Depois, deixe a DU guiar:

  • Hipostenúria: pense em falta de ADH ou bloqueio da sua ação: diabetes insipidus, polidipsia psicogênica, hiperadrenocorticismo, piometra, hipercalcemia, doença hepática.
  • Isostenúria ou concentração mínima: inclua doença renal (dosar ureia, creatinina, SDMA), além das causas acima.
  • Glicosúria: diurese osmótica (diabetes mellitus, glicosúria renal). Glicose e proteína elevam a DU sem refletir a capacidade real de concentração.

Diabetes insipidus central versus nefrogênico

Central Nefrogênico
Problema Falta de produção ou liberação de ADH Rim não responde ao ADH
DU típica Hipostenúria, muitas vezes bem baixa Hipostenúria
Resposta à desmopressina (análogo do ADH) Concentra a urina Pouca ou nenhuma resposta
Causas Idiopático, trauma, neoplasia hipofisária Congênito (raro) ou adquirido: hipercalcemia, hipocalemia, piometra, pielonefrite, hiperadrenocorticismo

O teste de privação hídrica só deve ser feito após excluir causas mais comuns e nunca em pacientes desidratados ou azotêmicos, pelo risco de desidratação grave. A lavagem medular causada pela poliúria prolongada pode reduzir a resposta mesmo em animais com DI central, o que confunde a interpretação.

Refratômetro: como medir direito

  • Use o refratômetro, não a tira reagente: o campo de densidade da tira não é confiável em cães e gatos.
  • Calibre com água destilada em 1.000 antes de usar, à temperatura ambiente.
  • Prefira refratômetros veterinários, com escala específica para gatos; a escala de cão/humano tende a superestimar levemente a DU felina.
  • Em urina turva, leia o sobrenadante após centrifugação.
  • Colete antes de fluidoterapia ou diuréticos; a primeira urina da manhã costuma mostrar a melhor capacidade de concentração.
  • Lembre que glicose, proteína e contrastes radiográficos aumentam a leitura.

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  1. Um cão desidratado tem creatinina elevada e DU de 1.045. A interpretação mais provável é:

  2. Uma DU de 1.004 indica que:

  3. Qual estrutura cria o gradiente osmótico da medula renal?

  4. Um cão com PU/PD e hipostenúria passa a concentrar a urina após receber desmopressina. Isso favorece:

Referências

  1. Klein, B. G. Cunningham — Tratado de Fisiologia Veterinária. 6. ed. Rio de Janeiro: Elsevier, 2021.
  2. DiBartola, S. P. Fluid, Electrolyte, and Acid-Base Disorders in Small Animal Practice. 4. ed. St. Louis: Elsevier Saunders, 2012.
  3. Thrall, M. A. et al. Hematologia e Bioquímica Clínica Veterinária. 2. ed. São Paulo: Roca, 2015.
  4. Stockham, S. L.; Scott, M. A. Fundamentals of Veterinary Clinical Pathology. 2. ed. Ames: Blackwell Publishing, 2008.

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