Débito cardíaco: pré-carga, pós-carga e contratilidade na prática

Débito cardíaco sem decoreba: frequência, volume sistólico, Frank-Starling, pós-carga, inotropismo e lusitropismo aplicados a fluidoterapia, choque e CMD.

Por Equipe AjudaVet··6 min de leitura
Ilustração de um coração como bomba ligado aos vasos, com bolsa de fluido ao lado e um cão de raça grande deitado na mesa de atendimento

Um cão chega em choque e você abre o fluido. Outro, com cardiomiopatia, recebe o mesmo volume e entra em edema pulmonar. A diferença entre os dois está em três palavras: pré-carga, pós-carga e contratilidade. Elas definem o débito cardíaco e explicam quase toda decisão hemodinâmica da rotina.

A equação que organiza tudo

DC = FC × VS, em que VS = volume diastólico final (VDF) − volume sistólico final (VSF)

Parece simples, mas cada termo tem limites. A frequência aumenta o DC só até certo ponto: em taquicardias muito rápidas, a diástole encurta mais que a sístole, o ventrículo enche menos e o VS despenca. Por isso uma taquiarritmia sustentada pode, por si só, causar baixo débito.

O VS é onde moram os três determinantes. Pense no ventrículo como um arqueiro:

  • Pré-carga = o quanto a corda é puxada antes do disparo;
  • Contratilidade = a força do arco;
  • Pós-carga = o vento contra a flecha.

Para relembrar as fases de enchimento e ejeção, revise o ciclo cardíaco.

Pré-carga e a lei de Frank-Starling

Pré-carga é o grau de estiramento das fibras ventriculares no fim da diástole. Na prática, usamos o VDF (ou, indiretamente, pressões de enchimento) como estimativa.

Por que mais estiramento gera mais força? Dois motivos principais:

  1. O sarcômero se aproxima do comprimento ótimo de sobreposição entre actina e miosina.
  2. O estiramento aumenta a sensibilidade da troponina ao cálcio.

Essa é a lei de Frank-Starling: dentro dos limites fisiológicos, o coração ejeta o que recebe. É o mecanismo que equilibra os débitos dos ventrículos direito e esquerdo batimento a batimento.

Aumenta a pré-carga Reduz a pré-carga
Expansão de volume (fluidos, retenção renal de Na⁺ e água) Hipovolemia (hemorragia, desidratação)
Venoconstrição (simpático) Venodilatação (anestésicos, sepse)
Contração atrial eficaz Perda da contração atrial (fibrilação atrial)
Bradicardia (mais tempo de enchimento) Taquicardia (menos tempo de enchimento)
— Tamponamento cardíaco, ventrículo rígido

A curva de Frank-Starling não sobe para sempre. Em um coração saudável, ela chega a um platô; em um coração doente, ela é mais baixa e mais achatada. Nesse platô, mais volume não aumenta o VS, só aumenta as pressões de enchimento — e pressão venosa alta leva à congestão.

Metáfora do arqueiro: quanto mais a corda é puxada, mais longe vai a flecha, ao lado de um ventrículo que se enche mais e contrai com mais força
Na lei de Frank-Starling, a pré-carga é a corda puxada, a contratilidade é a força do arco e a pós-carga é o vento contra a flecha.

Pós-carga: contra o que o ventrículo ejeta

Pós-carga é a carga que o ventrículo enfrenta durante a ejeção. A forma mais precisa de pensá-la é a tensão na parede ventricular (lei de Laplace):

Tensão de parede ∝ (pressão × raio) ÷ espessura da parede

Na prática clínica, ela é influenciada por:

  • Resistência vascular sistêmica e pressão arterial (ventrículo esquerdo) — veja o artigo sobre pressão arterial e barorreflexo;
  • Resistência vascular pulmonar (ventrículo direito; hipertensão pulmonar, dirofilariose);
  • Estenoses de via de saída (estenose subaórtica, estenose pulmonar);
  • Dilatação ventricular: o raio maior aumenta a tensão de parede.

Pós-carga alta reduz o VS e aumenta o consumo de oxigênio do miocárdio. A resposta crônica a pressão elevada é a hipertrofia concêntrica: parede mais espessa para reduzir a tensão (Laplace de novo).

Contratilidade e lusitropismo

Contratilidade (inotropismo) é a força de contração independente da pré e pós-carga. Ela depende da quantidade de Ca²⁺ disponível e da sensibilidade das proteínas contráteis a ele.

Lusitropismo é a capacidade de relaxar. O relaxamento é ativo e gasta energia: a bomba SERCA recaptura o Ca²⁺ para o retículo sarcoplasmático. O simpático, via β1 e AMPc, fosforila o fosfolambam e acelera esse processo.

Inotropismo positivo

  • Estimulação simpática β1
  • Catecolaminas como dobutamina
  • Pimobendan: sensibiliza a troponina ao Ca²⁺ e inibe a fosfodiesterase 3
  • Aumento da frequência (efeito escada, discreto)

Inotropismo negativo

  • β-bloqueadores e bloqueadores de canais de Ca²⁺
  • Anestésicos inalatórios e alguns injetáveis
  • Hipoxemia, acidose grave, sepse
  • Perda de miócitos (cardiomiopatia dilatada, miocardite)

Quando o lusitropismo falha, o ventrículo fica “duro”: precisa de pressões maiores para receber o mesmo volume. É o que acontece na cardiomiopatia hipertrófica felina — o problema principal é a diástole, e não a força.

Aplicação 1: fluidoterapia e choque

O conceito-chave é a responsividade a fluidos: o paciente aumenta o VS ao receber volume? Isso só acontece se ele estiver na parte ascendente da curva de Frank-Starling.

Tipo de choque Determinante principal afetado Lógica do tratamento
Hipovolêmico Pré-carga baixa Repor volume
Distributivo (sepse, anafilaxia) Pós-carga baixa (vasodilatação) e pré-carga relativa Volume com cautela e vasopressores
Cardiogênico Contratilidade (ou ritmo) Inotrópicos, controle de arritmia; fluido pode piorar
Obstrutivo (tamponamento, TEP) Enchimento impedido Remover a obstrução (pericardiocentese)
Raciocínio antes de cada bolus
  1. 1
    Há sinais de baixa perfusão?

    Taquicardia, mucosas pálidas, TPC prolongado, extremidades frias, pulso fraco, lactato alto.

  2. 2
    O paciente tem motivo para estar hipovolêmico?

    Perdas, hemorragia, vômito, diarreia, poliúria sem reposição.

  3. 3
    Há sinais de doença cardíaca ou congestão?

    Sopro, galope, arritmia, crepitação, aumento da frequência respiratória. Se sim, pense em choque cardiogênico.

  4. 4
    Faça um bolus pequeno e reavalie

    Melhoraram frequência, pulso e perfusão? Então havia reserva de pré-carga. Não melhorou ou piorou a respiração? Pare e reavalie.

Aplicação 2: cardiomiopatia dilatada

Na cardiomiopatia dilatada (CMD), comum em cães de raças grandes como Dobermann e Dogue Alemão, o problema é a contratilidade. O ventrículo esvazia mal, o VSF aumenta e a fração de encurtamento cai no ecocardiograma.

O organismo compensa com retenção de volume (aumentando a pré-carga para usar Frank-Starling) e vasoconstrição (para manter a pressão). Mas o coração já está numa curva achatada: o volume extra quase não aumenta o VS, só eleva pressões de enchimento. E a dilatação aumenta o raio, ou seja, aumenta a pós-carga. É um ciclo vicioso que leva à insuficiência cardíaca congestiva.

Por isso, a lógica do tratamento da CMD combina inotrópico (como o pimobendan), redução de congestão (diuréticos) e modulação neuro-humoral, além do controle de arritmias, frequentes nessa doença.

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  1. Um cão com taquicardia supraventricular muito rápida apresenta sinais de baixo débito. O principal mecanismo é:

  2. Qual alteração reduz a pré-carga?

  3. Na cardiomiopatia hipertrófica felina, o mecanismo central de disfunção é:

  4. Um paciente em choque cardiogênico por CMD recebe bolus de fluido e piora a respiração. A explicação é:

No próximo passo da trilha, aprenda a ler o traçado elétrico: ECG veterinário em 6 passos.

Referências

  1. Klein, B. G. Cunningham — Tratado de Fisiologia Veterinária. 6. ed. Rio de Janeiro: Elsevier, 2021.
  2. Guyton, A. C.; Hall, J. E. Tratado de Fisiologia Médica. 14. ed. Rio de Janeiro: Elsevier, 2021.
  3. Ware, W. A. Medicina Cardiovascular de Pequenos Animais. São Paulo: MedVet, 2015.
  4. DiBartola, S. P. Fluid, Electrolyte, and Acid-Base Disorders in Small Animal Practice. 4. ed. St. Louis: Elsevier Saunders, 2012.
  5. Nelson, R. W.; Couto, C. G. Medicina Interna de Pequenos Animais. 6. ed. Rio de Janeiro: Guanabara Koogan, 2023.

Conteúdo educativo. Valores de referência variam entre laboratórios, equipamentos e literatura — sempre confira os intervalos do seu laboratório e a bibliografia oficial antes de aplicar na rotina.

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