Sistema nervoso autônomo: simpático x parassimpático sem confusão

Sistema nervoso autônomo explicado: simpático x parassimpático, neurotransmissores, receptores α e β, efeitos por órgão e aplicação em farmacologia veterinária.

Por Equipe AjudaVet··6 min de leitura
Ilustração de um cão dividido ao meio: um lado em alerta e correndo, o outro relaxado comendo e dormindo

Você aplica dexmedetomidina num cão para sedação e, minutos depois, a frequência cardíaca despenca. Em outro paciente, a atropina deixa as pupilas dilatadas e o coração acelerado. Os dois cenários se explicam pelo mesmo sistema: o sistema nervoso autônomo, que controla, sem que o animal perceba, coração, vasos, pupilas, glândulas e vísceras. Entender simpático x parassimpático é a base de metade da farmacologia que você vai usar na rotina.

Anatomia: de onde sai cada divisão

Os dois sistemas usam uma cadeia de dois neurônios entre o sistema nervoso central e o órgão: um pré-ganglionar (corpo no SNC) e um pós-ganglionar (corpo em um gânglio periférico). A diferença está em onde ficam esses gânglios.

Simpático

  • Origem toracolombar (aproximadamente segmentos torácicos e lombares craniais)
  • Gânglios perto da medula: cadeia paravertebral e gânglios pré-vertebrais
  • Pré-ganglionar curta, pós-ganglionar longa
  • Resposta difusa: um pré-ganglionar ativa muitos pós-ganglionares
  • Medula da adrenal funciona como um gânglio modificado e libera adrenalina no sangue

Parassimpático

  • Origem craniossacral: nervos cranianos III, VII, IX e X + medula sacral
  • Gânglios perto ou dentro do órgão
  • Pré-ganglionar longa, pós-ganglionar curta
  • Resposta mais localizada, órgão a órgão
  • O nervo vago (X) leva a maior parte das fibras para tórax e abdome

Uma analogia útil: o simpático é como um alarme de incêndio do prédio inteiro — dispara tudo de uma vez. O parassimpático é como o interruptor de cada sala — ajusta um cômodo por vez.

Medula espinhal de um cão com nervos simpáticos (toracolombares) e parassimpáticos (cranianos e sacrais) chegando aos órgãos
Simpático sai da medula toracolombar; parassimpático, do tronco encefálico e da região sacral.

Neurotransmissores e receptores

Aqui está o mapa que resolve a maior parte das questões de farmacologia autonômica.

Quem libera o quê, e onde
  1. 1
    Gânglio (simpático e parassimpático)

    O neurônio pré-ganglionar libera acetilcolina, que age em receptores nicotínicos do neurônio pós-ganglionar.

  2. 2
    Órgão-alvo parassimpático

    O pós-ganglionar libera acetilcolina, que age em receptores muscarínicos (por exemplo, M2 no coração e M3 em glândulas e músculo liso).

  3. 3
    Órgão-alvo simpático

    O pós-ganglionar libera noradrenalina, que age em receptores adrenérgicos α e β. Há exceções colinérgicas, como glândulas sudoríparas em algumas espécies.

  4. 4
    Medula da adrenal

    Recebe fibra pré-ganglionar (acetilcolina em receptor nicotínico) e libera na circulação principalmente adrenalina, além de noradrenalina.

Os receptores adrenérgicos que você precisa dominar:

Receptor Onde predomina Efeito principal
α1 Músculo liso vascular, músculo radial da íris, esfíncteres Vasoconstrição, midríase, contração de esfíncteres
α2 Terminais pré-sinápticos, SNC, alguns vasos e pâncreas Inibe a liberação de noradrenalina, sedação, analgesia, reduz secreção de insulina
β1 Coração, células justaglomerulares do rim Aumenta frequência e contratilidade; estimula liberação de renina
β2 Brônquios, vasos da musculatura esquelética, útero Broncodilatação, vasodilatação, relaxamento uterino

E os colinérgicos: nicotínicos nos gânglios autonômicos (e, de um subtipo diferente, na placa motora do músculo esquelético) e muscarínicos nos órgãos inervados pelo parassimpático.

Efeitos por órgão: a tabela que cai na prova

Órgão Simpático Parassimpático
Coração ↑ frequência e contratilidade (β1) ↓ frequência e condução AV (M2, via vago)
Vasos (pele e vísceras) Vasoconstrição (α1) Pouca inervação direta na maioria dos leitos
Brônquios Broncodilatação (β2, sobretudo pela adrenalina circulante) Broncoconstrição e ↑ secreção (M3)
Pupila Midríase (α1, músculo radial) Miose (M3, músculo esfíncter da pupila)
Glândulas salivares Saliva escassa e mais viscosa Saliva abundante e fluida
Trato gastrointestinal ↓ motilidade, contração de esfíncteres ↑ motilidade e secreções, relaxa esfíncteres
Bexiga Relaxa o detrusor (β), contrai o esfíncter interno (α1) Contrai o detrusor (micção)
Fígado Glicogenólise, ↑ glicemia Pouco efeito direto relevante

Repare no padrão: o simpático prepara para a ação (mais sangue para músculo e coração, vias aéreas abertas, pupila dilatada, digestão em pausa). O parassimpático conserva e digere. Na maioria dos órgãos os dois trabalham em equilíbrio, e o “tônus” dominante muda conforme a situação. Em repouso, por exemplo, o coração de cães costuma estar sob tônus vagal considerável — por isso a arritmia sinusal respiratória é comum e, em geral, normal nessa espécie.

Aplicação clínica e farmacológica

Atropina (antagonista muscarínico). Bloqueia a acetilcolina nos receptores muscarínicos. Resultado: taquicardia (remove o freio vagal), midríase, redução de secreções salivares e brônquicas e redução da motilidade intestinal. Usada, por exemplo, em bradicardias de origem vagal e como antídoto em intoxicações por organofosforados e carbamatos, que aumentam a acetilcolina disponível.

Adrenalina (agonista α e β). Age em praticamente todos os receptores adrenérgicos: β1 (coração mais rápido e forte), β2 (broncodilatação) e α1 (vasoconstrição, que sustenta a pressão arterial). Por isso é central na reanimação cardiopulmonar e na anafilaxia.

Xilazina e dexmedetomidina (agonistas α2). Estimulam receptores α2 no SNC, reduzindo a liberação de noradrenalina: sedação, analgesia e relaxamento muscular. A bradicardia típica tem dois componentes: a vasoconstrição periférica inicial (α2 vascular) eleva a pressão e desencadeia bradicardia reflexa via barorreceptores, e a redução central do tônus simpático mantém a frequência baixa. Outros efeitos conhecidos: hiperglicemia transitória (menos insulina), aumento da diurese e vômito, especialmente em gatos com xilazina. Os efeitos podem ser revertidos com um antagonista α2 (como o atipamezol).

Betabloqueadores (conceito). Bloqueiam receptores β. Os β1-seletivos atuam predominantemente no coração, reduzindo frequência e consumo de oxigênio do miocárdio. Os não seletivos também bloqueiam β2 e podem favorecer broncoconstrição — atenção em pacientes com doença de vias aéreas, como gatos com asma.

Reflexo vagal. Estímulos intensos como manipulação de vísceras, pressão sobre o globo ocular (reflexo oculocardíaco), intubação, vômito ou esforço para defecar podem aumentar o tônus vagal e causar bradicardia importante, às vezes com síncope. Raças braquicefálicas tendem a ter tônus vagal elevado.

Síndrome de Horner. É a perda da inervação simpática do olho. A via tem três neurônios: do encéfalo à medula torácica cranial, da medula ao gânglio cervical cranial (passando pelo tronco vagossimpático no pescoço) e daí ao olho, passando perto da orelha média. Sinais clássicos: miose, ptose palpebral, enoftalmia e protrusão da terceira pálpebra. Causas comuns incluem otite média-interna, traumas cervicais ou de plexo braquial e lesões torácicas; muitos casos em cães são idiopáticos. Testes farmacológicos com colírios simpatomiméticos ajudam a localizar a lesão, já que um olho com lesão pós-ganglionar costuma responder mais rapidamente (hipersensibilidade por denervação).

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  1. Qual neurotransmissor e receptor atuam na sinapse ganglionar do sistema simpático?

  2. Um cão sedado com dexmedetomidina apresenta bradicardia. O mecanismo mais aceito envolve:

  3. Um gato com otite média apresenta miose, ptose e protrusão da terceira pálpebra no mesmo lado. O diagnóstico mais provável é:

  4. Por que betabloqueadores não seletivos exigem cuidado em gatos asmáticos?

Referências

  1. Klein, B. G. Cunningham — Tratado de Fisiologia Veterinária. 6. ed. Rio de Janeiro: Elsevier, 2021.
  2. Reece, W. O. Dukes — Fisiologia dos Animais Domésticos. 13. ed. Rio de Janeiro: Guanabara Koogan, 2017.
  3. Spinosa, H. S.; Górniak, S. L.; Bernardi, M. M. Farmacologia Aplicada à Medicina Veterinária. 6. ed. Rio de Janeiro: Guanabara Koogan, 2017.
  4. Dewey, C. W.; da Costa, R. C. Neurologia Canina e Felina: Guia Prático. São Paulo: Guará, 2017.

Conteúdo educativo. Valores de referência variam entre laboratórios, equipamentos e literatura — sempre confira os intervalos do seu laboratório e a bibliografia oficial antes de aplicar na rotina.

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