Potencial de ação cardíaco: miocárdio e nó sinoatrial sem decoreba

Entenda o potencial de ação cardíaco: fases 0 a 4 do miócito, canais de Na, Ca e K, corrente funny do nó sinoatrial, antiarrítmicos e hipercalemia.

Por Equipe AjudaVet··7 min de leitura
Ilustração de um coração estilizado com faíscas elétricas percorrendo o sistema de condução, ao lado de um cão tranquilo

Por que um gato obstruído com potássio alto pode morrer de parada cardíaca? Por que a lidocaína controla uma taquicardia ventricular e a atropina acelera o coração? Todas essas respostas moram no mesmo lugar: o potencial de ação cardíaco. Entender quais canais abrem em cada fase transforma decoreba de farmacologia e de ECG em raciocínio.

O ponto de partida: o potencial de repouso

Toda célula excitável vive de gradientes iônicos mantidos pela bomba Na⁺/K⁺-ATPase: muito K⁺ dentro, muito Na⁺ e Ca²⁺ fora. Em repouso, o miócito ventricular é muito permeável ao potássio (pelos canais retificadores de entrada, IK1), então seu potencial fica perto do equilíbrio do K⁺: aproximadamente −85 a −90 mV.

Guarde: o potencial de repouso depende principalmente do potássio extracelular. Mudou o K⁺ do plasma, mudou a excitabilidade do coração.

As fases 0 a 4 do miócito de trabalho

Potencial de ação do miócito ventricular
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    Fase 0 — despolarização rápida

    Ao atingir o limiar, canais de Na⁺ dependentes de voltagem abrem em massa. O Na⁺ entra e a membrana sobe para valores positivos em milissegundos. É essa velocidade que garante condução rápida.

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    Fase 1 — repolarização inicial

    Os canais de Na⁺ se inativam e uma corrente transitória de saída de K⁺ (Ito) produz um pequeno entalhe.

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    Fase 2 — platô

    Canais de Ca²⁺ do tipo L deixam o cálcio entrar, equilibrando a saída de K⁺. Esse Ca²⁺ dispara a liberação de mais cálcio do retículo sarcoplasmático: é o acoplamento excitação-contração.

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    Fase 3 — repolarização

    Os canais de Ca²⁺ fecham e os retificadores tardios de K⁺ (IKr e IKs) dominam. O K⁺ sai e a célula volta ao repouso.

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    Fase 4 — repouso

    No miócito de trabalho, o potencial fica estável graças ao IK1, esperando o próximo estímulo vindo do sistema de condução.

O platô é a grande diferença em relação ao neurônio, cujo potencial de ação dura cerca de 1 ms. O do miócito ventricular dura centenas de milissegundos (varia com a espécie e com a frequência). Isso tem uma consequência mecânica genial: durante quase toda a contração, a célula está refratária.

Período refratário: por que o coração não entra em tétano

  • Período refratário absoluto: da fase 0 até boa parte da fase 3. Os canais de Na⁺ estão inativados e nenhum estímulo gera novo potencial.
  • Período refratário relativo: final da fase 3. Um estímulo mais forte que o normal consegue disparar um potencial, geralmente mais lento e mais arritmogênico.

Como o período refratário dura quase tanto quanto a contração, o músculo cardíaco relaxa antes de poder ser reestimulado. O ventrículo precisa relaxar para encher — tétano seria incompatível com bombear sangue. Para ver como isso se encaixa nas valvas e bulhas, revise o ciclo cardíaco.

Comparação entre o potencial de ação do miócito, com subida rápida e platô, e o potencial do nó sinoatrial, com rampa lenta de despolarização
O miócito de trabalho tem subida rápida por sódio e um longo platô de cálcio; o nó sinoatrial não tem repouso estável e sobe sozinho pela corrente funny.

O nó sinoatrial e o potencial de marcapasso

As células do nó sinoatrial (SA) são diferentes: têm poucos canais IK1 e, por isso, não têm repouso estável. O potencial mais negativo que atingem (potencial diastólico máximo) fica em torno de −60 mV, e dali a membrana começa a subir sozinha.

Miócito de trabalho

  • Repouso estável, perto de −90 mV
  • Fase 0 rápida, por canais de Na⁺
  • Platô evidente (Ca²⁺ tipo L)
  • Não dispara sozinho em condições normais
  • Condução rápida

Célula do nó sinoatrial

  • Sem repouso: fase 4 com despolarização diastólica lenta
  • Fase 0 lenta, por canais de Ca²⁺ tipo L
  • Sem platô definido; fases 1 e 2 pouco distintas
  • Automatismo: dispara sozinho
  • Condução lenta (o mesmo vale para o nó AV)

A corrente funny (If)

O nome vem do comportamento “esquisito”: os canais HCN abrem quando a membrana hiperpolariza (o contrário da maioria dos canais) e deixam entrar principalmente Na⁺. Essa entrada lenta empurra a membrana para cima durante a fase 4. Perto do fim da rampa, canais de Ca²⁺ tipo T e depois tipo L completam o caminho até o limiar e geram a fase 0. A repolarização, como sempre, fica por conta do K⁺.

A inclinação da fase 4 define a frequência: rampa mais íngreme = limiar atingido mais cedo = mais batimentos por minuto. Os canais HCN são modulados pelo AMPc, e é aí que o sistema nervoso autônomo entra.

Hierarquia dos marcapassos

O nó SA tem a rampa mais rápida e “comanda” o coração. Se ele falha, assumem marcapassos mais lentos: a junção AV e, por último, as fibras de Purkinje, que geram ritmos de escape ventriculares bem lentos. Esse conceito é essencial para entender o bloqueio AV total no ECG veterinário.

Simpático e vago: o controle da frequência

Estímulo Receptor Mecanismo iônico Efeito na fase 4 Resultado
Simpático (noradrenalina) β1 ↑ AMPc → ↑ If e ↑ corrente de Ca²⁺ tipo L Rampa mais íngreme ↑ frequência, ↑ velocidade no nó AV
Vago (acetilcolina) M2 ↓ AMPc → ↓ If; abre canais de K⁺ ativados por ACh Potencial mais negativo e rampa mais lenta ↓ frequência, ↓ condução AV

Por isso a atropina (antagonista muscarínico) aumenta a frequência ao retirar o freio vagal, e os β-bloqueadores a reduzem. Em cães saudáveis, o tônus vagal é alto em repouso, o que explica a arritmia sinusal respiratória. Quer revisar os receptores? Veja o artigo sobre o sistema nervoso autônomo.

Aplicação clínica 1: antiarrítmicos por classe

A classificação de Vaughan Williams é, na essência, um mapa das fases do potencial de ação. Aqui o objetivo é entender o alvo, não prescrever.

Classe Alvo Fase afetada Exemplos Ideia central
I Canais de Na⁺ Fase 0 lidocaína, procainamida, mexiletina Reduz a velocidade de despolarização em tecido ventricular
II Receptores β Fase 4 do nó SA e condução no nó AV atenolol, propranolol Tira o “acelerador” simpático
III Canais de K⁺ Fase 3 sotalol, amiodarona Prolonga repolarização e período refratário
IV Canais de Ca²⁺ tipo L Fase 0 dos nós; platô diltiazem, verapamil Retarda a condução no nó AV

Uma consequência prática: como os nós SA e AV dependem de Ca²⁺, bloqueadores de cálcio e β-bloqueadores são usados para controlar a frequência em arritmias supraventriculares (como a fibrilação atrial), enquanto bloqueadores de Na⁺ como a lidocaína atuam melhor em arritmias ventriculares. Escolha, combinação e dose dependem do paciente e de avaliação cardiológica.

Aplicação clínica 2: hipercalemia e excitabilidade

Na hipercalemia, o gradiente de K⁺ diminui e o potencial de repouso fica menos negativo (mais perto do limiar). No início, a excitabilidade pode até aumentar discretamente. Mas uma membrana parcialmente despolarizada mantém parte dos canais de Na⁺ inativados. Resultado: fase 0 mais lenta, condução mais lenta e, com K⁺ muito alto, perda de excitabilidade.

Ao mesmo tempo, a condutância ao K⁺ aumenta e a repolarização acelera. No ECG isso aparece como:

  • Ondas T altas e apiculadas (repolarização rápida);
  • Onda P achatada ou ausente (o miocárdio atrial é especialmente sensível);
  • Bradicardia e QRS alargado;
  • Nos casos extremos, padrão sinusoidal, fibrilação ventricular ou assistolia.

O gluconato de cálcio é usado na emergência porque eleva o limiar de disparo, restaurando a distância entre repouso e limiar — protege o coração, mas não reduz o potássio. A redução vem de outras medidas (insulina com glicose, correção da causa). Para correlacionar com gasometria e eletrólitos, veja a hemogasometria passo a passo.

Revise em 1 minuto

Flashcards de revisão clique para virar
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  1. A fase 0 das células do nó sinoatrial depende principalmente de:

  2. A noradrenalina aumenta a frequência cardíaca principalmente porque:

  3. Um fármaco que prolonga a fase 3 e o período refratário, por bloqueio de canais de K⁺, pertence à classe:

  4. Na hipercalemia grave, a perda de excitabilidade miocárdica ocorre porque:

No próximo passo da trilha, veja como a eletricidade vira bomba mecânica no ciclo cardíaco.

Referências

  1. Klein, B. G. Cunningham — Tratado de Fisiologia Veterinária. 6. ed. Rio de Janeiro: Elsevier, 2021.
  2. Reece, W. O. Dukes — Fisiologia dos Animais Domésticos. 13. ed. Rio de Janeiro: Guanabara Koogan, 2017.
  3. Guyton, A. C.; Hall, J. E. Tratado de Fisiologia Médica. 14. ed. Rio de Janeiro: Elsevier, 2021.
  4. Ware, W. A. Medicina Cardiovascular de Pequenos Animais. São Paulo: MedVet, 2015.

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