Hemogasometria passo a passo: como interpretar o equilíbrio ácido-base

Aprenda a interpretar a hemogasometria em cães e gatos: pH, PCO2, HCO3, compensação esperada e ânion gap, com casos clínicos resolvidos passo a passo.

Por Equipe AjudaVet··7 min de leitura
Ilustração de um hemogasômetro, seringa com sangue arterial e uma balança representando ácidos e bases

O resultado da hemogasometria sai da máquina com uma dúzia de números e você trava: por onde começar? A boa notícia é que a interpretação do equilíbrio ácido-base segue sempre a mesma sequência lógica. Depois que você treina o passo a passo, um paciente com vômito, um gato obstruído e um braquicefálico em crise viram problemas resolvíveis em poucos minutos.

Henderson-Hasselbalch sem medo

O principal tampão do líquido extracelular é o sistema bicarbonato/ácido carbônico. A equação de Henderson-Hasselbalch resume a relação:

pH = 6,1 + log [HCO3 ÷ (0,03 × PCO2)]

Você não precisa fazer contas na rotina. Precisa entender a ideia: o pH depende da razão HCO3/PCO2.

  • HCO3 cai (ou PCO2 sobe) → razão diminui → pH cai (acidemia).
  • HCO3 sobe (ou PCO2 cai) → razão aumenta → pH sobe (alcalemia).

Por isso o organismo compensa movendo o outro componente na mesma direção: se o HCO3 cai, o pulmão baixa a PCO2 (hiperventilação) para aproximar a razão do normal. A compensação respiratória começa em minutos a horas; a renal leva de 2 a 5 dias para se completar.

Balança com os pulmões eliminando CO2 de um lado e os rins retendo bicarbonato do outro
O pH depende do equilíbrio entre o componente respiratório (PCO2, pulmões) e o metabólico (HCO3, rins).

Os números da gasometria

Parâmetro O que representa Valor aproximado (cão, arterial)
pH Resultado final do equilíbrio 7,35 a 7,45
PCO2 Componente respiratório (ventilação) cerca de 32 a 44 mmHg
HCO3 Componente metabólico cerca de 18 a 24 mEq/L
BE (excesso de base) Componente metabólico; negativo = déficit de base cerca de −4 a +4 mEq/L
PaO2 Oxigenação (só arterial) cerca de 80 a 110 mmHg em ar ambiente

Valores didáticos e aproximados: variam com o laboratório, o equipamento e a altitude. Gatos tendem a ter PCO2 e HCO3 um pouco mais baixos que cães. No sangue venoso, o pH costuma ser levemente menor e a PCO2 alguns mmHg maior que no arterial.

Sangue arterial

  • Avalia ácido-base e oxigenação
  • PaO2 e SaO2 refletem a função pulmonar
  • Coleta mais difícil (artéria femoral ou podal dorsal)
  • Essencial em pacientes com dispneia ou sob ventilação

Sangue venoso

  • Ótimo para ácido-base e eletrólitos
  • PvO2 não avalia a função pulmonar
  • Coleta simples, ideal para triagem e monitoramento
  • PCO2 um pouco maior que a arterial

A sistemática em 5 passos

Interpretando a hemogasometria
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    1. Olhe o pH

    pH abaixo do intervalo de referência = acidemia; acima = alcalemia. pH normal não exclui distúrbio (pode haver distúrbio misto).

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    2. Encontre o distúrbio primário

    Qual componente explica o pH? Acidemia com HCO3 baixo = acidose metabólica; com PCO2 alta = acidose respiratória. Alcalemia com HCO3 alto = alcalose metabólica; com PCO2 baixa = alcalose respiratória.

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    3. Calcule a compensação esperada

    Use as regras de compensação. Se o valor medido estiver dentro do esperado, o distúrbio é simples; se estiver fora, há um segundo distúrbio associado.

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    4. Ânion gap na acidose metabólica

    Calcule (Na + K) menos (Cl + HCO3). Ânion gap alto indica ácidos não medidos; normal indica acidose hiperclorêmica.

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    5. Integre com a clínica

    Histórico, exame físico, eletrólitos, lactato, glicose, ureia e creatinina. A gasometria confirma hipóteses; não substitui o raciocínio clínico.

Regras de compensação (cão)

As regras abaixo vêm de estudos em cães, compilados por DiBartola. Calcule a variação em relação ao valor de referência do seu laboratório.

Distúrbio primário Compensação esperada (aproximada)
Acidose metabólica PCO2 cai cerca de 0,7 mmHg para cada 1 mEq/L de queda no HCO3
Alcalose metabólica PCO2 sobe cerca de 0,7 mmHg para cada 1 mEq/L de aumento no HCO3
Acidose respiratória aguda HCO3 sobe cerca de 0,15 mEq/L para cada 1 mmHg de aumento na PCO2
Acidose respiratória crônica HCO3 sobe cerca de 0,35 mEq/L para cada 1 mmHg de aumento na PCO2
Alcalose respiratória aguda HCO3 cai cerca de 0,25 mEq/L para cada 1 mmHg de queda na PCO2
Alcalose respiratória crônica HCO3 cai cerca de 0,55 mEq/L para cada 1 mmHg de queda na PCO2

Aceite uma pequena margem em torno do valor calculado (alguns mmHg ou mEq/L). Em gatos, a compensação é menos caracterizada: há evidências de que a resposta respiratória à acidose metabólica seja menos eficiente. Usar as regras caninas como aproximação é comum, mas interprete com cautela.

Ânion gap: o detetive da acidose metabólica

O plasma é eletricamente neutro. Os cátions e ânions que não medimos rotineiramente formam o ânion gap (AG):

AG = (Na + K) − (Cl + HCO3)

Em geral, o AG fica em torno de 12 a 24 mEq/L no cão e um pouco mais alto no gato, conforme o laboratório. Calcule rapidinho na calculadora de ânion gap.

AG aumentado

  • Lactato (hipoperfusão, choque, sepse)
  • Cetoacidose diabética
  • Uremia (fosfatos, sulfatos retidos)
  • Etilenoglicol (glicolato, oxalato)
  • Salicilatos e outras toxinas

AG normal (hiperclorêmica)

  • Diarreia (perda de HCO3)
  • Acidose tubular renal
  • Fluidoterapia agressiva com NaCl 0,9%
  • Inibidores da anidrase carbônica
  • Perda de HCO3 compensada por retenção de Cl

Casos resolvidos

Caso 1: cão com vômito persistente (corpo estranho gástrico)

pH 7,48 · PCO2 45 mmHg · HCO3 32 mEq/L · Na 145 · K 3,0 · Cl 95 mEq/L

  1. Alcalemia.
  2. HCO3 alto: alcalose metabólica primária.
  3. HCO3 subiu cerca de 10 mEq/L (referência 22) → PCO2 esperada sobe cerca de 7 mmHg (de 37 para aproximadamente 44). Medida 45: compensação adequada.
  4. Cloro baixo: alcalose metabólica hipoclorêmica, típica da perda de HCl do conteúdo gástrico, acompanhada de hipocalemia.

Caso 2: gato com obstrução uretral

pH 7,25 · PCO2 28 mmHg · HCO3 12 mEq/L · Na 150 · K 8,2 · Cl 115 mEq/L

  1. Acidemia.
  2. HCO3 baixo: acidose metabólica.
  3. Usando a regra canina como aproximação: queda de cerca de 8 mEq/L no HCO3 → PCO2 esperada cerca de 5 a 6 mmHg abaixo da referência felina. Medida coerente com compensação.
  4. AG = (150 + 8,2) − (115 + 12) = 31 mEq/L, aumentado: retenção de ânions (fosfato, ácidos urêmicos) pela azotemia pós-renal.
  5. Clínica: a hipercalemia é a ameaça imediata (risco de bradiarritmias). A acidemia piora a hipercalemia porque favorece a saída de K das células.

Caso 3: braquicefálico em crise respiratória aguda

pH 7,24 · PCO2 60 mmHg · HCO3 25 mEq/L · PaO2 65 mmHg (arterial)

  1. Acidemia.
  2. PCO2 alta: acidose respiratória (hipoventilação por obstrução de vias aéreas superiores).
  3. Aguda: PCO2 subiu cerca de 23 mmHg → HCO3 esperado sobe cerca de 3,5 mEq/L (de 22 para aproximadamente 25,5). Medido 25: acidose respiratória aguda simples.
  4. PaO2 baixa: hipoxemia, que só pôde ser avaliada porque a amostra é arterial.

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  1. Cão com pH 7,28, HCO3 14 mEq/L e PCO2 31 mmHg (referências: HCO3 22, PCO2 37). Qual a interpretação?

  2. Qual achado favorece acidose metabólica hiperclorêmica?

  3. Para avaliar se um paciente dispneico está oxigenando bem, você precisa de:

  4. Um cão com vômito intenso apresenta alcalemia, HCO3 alto e cloro baixo. O distúrbio mais provável é:

Referências

  1. DiBartola, S. P. Fluid, Electrolyte, and Acid-Base Disorders in Small Animal Practice. 4. ed. St. Louis: Elsevier Saunders, 2012.
  2. Klein, B. G. Cunningham — Tratado de Fisiologia Veterinária. 6. ed. Rio de Janeiro: Elsevier, 2021.
  3. Thrall, M. A. et al. Hematologia e Bioquímica Clínica Veterinária. 2. ed. São Paulo: Roca, 2015.
  4. Stockham, S. L.; Scott, M. A. Fundamentals of Veterinary Clinical Pathology. 2. ed. Ames: Blackwell Publishing, 2008.

Conteúdo educativo. Valores de referência variam entre laboratórios, equipamentos e literatura — sempre confira os intervalos do seu laboratório e a bibliografia oficial antes de aplicar na rotina.

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