ECG veterinário: como ler o eletrocardiograma em 6 passos

Aprenda a ler o ECG veterinário em 6 passos: frequência, ritmo, onda P, intervalos, eixo e morfologia, com arritmias clássicas de cães e gatos.

Por Equipe AjudaVet··7 min de leitura
Ilustração de um cão em decúbito lateral direito com eletrodos nos membros e uma fita de eletrocardiograma ao lado, observado por um gato

O traçado saiu da impressora e parece um emaranhado de picos. A boa notícia: ler um ECG veterinário não exige talento especial, exige método. Seguindo sempre os mesmos 6 passos, na mesma ordem, você dificilmente deixa passar uma arritmia importante.

Antes dos 6 passos: o papel e a derivação

O ECG registra a soma vetorial da atividade elétrica do coração. Cada onda tem origem no potencial de ação cardíaco: P = despolarização atrial, QRS = despolarização ventricular, T = repolarização ventricular.

A derivação II (braço direito para membro pélvico esquerdo) é a mais usada para ritmo e medidas, porque fica alinhada com o eixo normal do coração e gera ondas positivas e visíveis.

Velocidade do papel 1 quadradinho (1 mm) 5 quadradinhos (5 mm) Uso típico
25 mm/s 0,04 s 0,20 s Avaliar ritmo em traçados mais longos
50 mm/s 0,02 s 0,10 s Medir ondas e intervalos (complexos ficam mais largos)

Na vertical, com calibração padrão, 10 mm = 1 mV, ou seja, cada quadradinho vale 0,1 mV. Sempre confirme a calibração no traçado antes de medir amplitudes.

Fita de ECG sob uma lupa cercada por seis ícones em sequência: cronômetro, metrônomo, onda, régua, bússola e olho
A leitura segue sempre a mesma ordem: frequência, ritmo, onda P, intervalos, eixo e morfologia.

Os 6 passos da leitura

Sistemática de leitura do ECG
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    1. Frequência cardíaca

    Conte os complexos QRS em um trecho conhecido e multiplique. Está adequada para a espécie, o porte e o contexto?

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    2. Ritmo

    Os intervalos R-R são regulares, regularmente irregulares ou totalmente irregulares?

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    3. Onda P e relação P-QRS

    Há onda P? Toda P é seguida de QRS? Todo QRS é precedido de P? O intervalo PR é constante?

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    4. Intervalos e medidas

    Meça duração e amplitude de P, PR, QRS e QT na derivação II e compare com os valores da espécie.

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    5. Eixo elétrico médio

    Estime a direção da despolarização ventricular a partir das derivações I e aVF ou da derivação isoelétrica.

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    6. Morfologia e conclusão

    Avalie forma do QRS, segmento ST e onda T. Feche com um diagnóstico de ritmo e as alterações associadas.

Passo 1: frequência

  • A 25 mm/s, 150 mm correspondem a 6 segundos: conte os QRS nesse trecho e multiplique por 10.
  • A 50 mm/s, 150 mm correspondem a 3 segundos: conte e multiplique por 20.
  • Para ritmos regulares: FC ≈ 1.500 ÷ distância R-R em mm (a 25 mm/s) ou 3.000 ÷ R-R em mm (a 50 mm/s).

Como referência didática e aproximada: cães adultos em consultório costumam ficar entre 70 e 160 bpm (raças toy e filhotes mais altos; raças gigantes mais baixos) e gatos entre 140 e 240 bpm. Os valores variam conforme a fonte, o estresse e o ambiente.

Passos 2 e 3: ritmo e relação P-QRS

Esses dois passos resolvem a maioria das arritmias. A pergunta-mestra é: de onde vem o impulso e ele está chegando aos ventrículos? Uma onda P positiva na derivação II, seguida de QRS com PR constante, indica origem sinusal.

Passo 4: intervalos e medidas

Parâmetro (derivação II) Cão (aproximado) Gato (aproximado)
Duração de P até 0,04 s (raças gigantes até 0,05 s) até 0,04 s
Amplitude de P até 0,4 mV até 0,2 mV
Intervalo PR 0,06 a 0,13 s 0,05 a 0,09 s
Duração do QRS até 0,05 s (raças grandes até 0,06 s) até 0,04 s
Amplitude de R até 2,5 a 3,0 mV conforme o porte até 0,9 mV
Intervalo QT 0,15 a 0,25 s 0,12 a 0,18 s

Esses valores são baseados nas tabelas clássicas e variam entre referências. P alargada sugere aumento atrial esquerdo; P alta sugere aumento atrial direito; R alta e QRS largo podem sugerir aumento ventricular esquerdo — mas o ECG é pouco sensível para tamanho de câmaras. Para isso, o exame de escolha é o ecocardiograma.

Passo 5: eixo elétrico

O eixo médio do QRS no plano frontal é, de forma aproximada, de +40° a +100° no cão, enquanto no gato o intervalo considerado normal é mais amplo. Um jeito rápido: se o QRS é positivo em I e em aVF, o eixo está entre 0° e +90° (normal). Desvio para a direita sugere sobrecarga do ventrículo direito ou bloqueio de ramo direito; desvio para a esquerda pode sugerir bloqueio fascicular anterior esquerdo (comum em gatos com CMH) ou aumento do ventrículo esquerdo.

Passo 6: morfologia

QRS largo e bizarro indica condução anormal (origem ventricular ou bloqueio de ramo). Alterações de ST e T podem refletir hipóxia miocárdica, distúrbios eletrolíticos ou efeito de fármacos. Fique atento a artefatos: tremor, ronronar, movimento respiratório e interferência elétrica imitam arritmias.

As arritmias clássicas

Arritmia sinusal respiratória

FC acelera na inspiração e desacelera na expiração, com P e QRS normais. É fisiológica em cães e reflete tônus vagal alto. Muitas vezes vem acompanhada de marcapasso migratório (variação da amplitude da P). Em gatos no consultório é pouco vista, pois o estresse eleva o tônus simpático. Entenda o porquê no artigo sobre o sistema nervoso autônomo.

Bloqueios atrioventriculares

Tipo Achado no ECG Comentário
1º grau PR prolongado, toda P conduz Pode ser vagal ou por fármacos
2º grau Mobitz I PR alonga progressivamente até uma P não conduzir Frequentemente vagal em cães
2º grau Mobitz II PR constante e ondas P que de repente não conduzem Mais sugestivo de doença do sistema de condução
3º grau (total) P e QRS dissociados; ritmo de escape lento Escape ventricular com QRS largo; costuma exigir marcapasso

Complexos prematuros ventriculares (CPV)

Surgem antes do esperado, são largos e bizarros, não têm P relacionada e a onda T costuma ter polaridade oposta ao QRS. Muitas vezes há uma pausa compensatória. Causas: cardiomiopatia (Dobermann, Boxer), mas também doenças extracardíacas como massas esplênicas, dilatação-vólvulo gástrica, trauma, dor, hipoxemia e distúrbios eletrolíticos. Sequências de três ou mais CPV caracterizam taquicardia ventricular.

Fibrilação atrial

Ritmo irregularmente irregular, sem ondas P (a linha de base pode ser ondulada) e QRS geralmente de morfologia normal, muitas vezes com frequência alta. Em cães, aparece em raças gigantes e secundariamente a grande aumento atrial (doença valvar avançada, CMD).

Arritmia sinusal respiratória

  • Irregularidade acompanha a respiração
  • Onda P presente antes de todo QRS
  • Tônus vagal alto
  • Normal em cães

Fibrilação atrial

  • Irregularidade sem padrão
  • Sem onda P identificável
  • Geralmente frequência alta
  • Sugere doença atrial importante

Hipercalemia no gato obstruído

Na obstrução uretral felina, o K⁺ sobe porque o animal não consegue eliminá-lo pela urina. O ECG acompanha a gravidade, de forma aproximada:

  1. Ondas T altas e apiculadas e QT encurtado;
  2. Achatamento e desaparecimento da onda P (parada atrial);
  3. Bradicardia, PR prolongado e QRS alargado;
  4. Padrão sinusoidal, fibrilação ventricular ou assistolia.

A correlação entre o nível de K⁺ e o traçado não é perfeita: acidose, hipocalcemia e hipotermia agravam o quadro. Para a gasometria e o equilíbrio ácido-base, veja a hemogasometria passo a passo.

Revise em 1 minuto

Flashcards de revisão clique para virar
Teste seu conhecimento0/4
  1. Em um traçado a 25 mm/s, você conta 12 complexos QRS em 150 mm. A frequência estimada é:

  2. Ritmo irregular, sem ondas P identificáveis, QRS de morfologia normal e frequência alta. O diagnóstico mais provável é:

  3. Ondas P regulares, QRS largos e lentos sem relação com as P. Trata-se de:

  4. Gato macho obstruído, bradicárdico, sem onda P e com T apiculada. A principal suspeita é:

No próximo passo da trilha, entenda como o corpo controla a pressão arterial e o barorreflexo.

Referências

  1. Tilley, L. P. Essentials of Canine and Feline Electrocardiography. 3. ed. Philadelphia: Lea & Febiger, 1992.
  2. Ware, W. A. Medicina Cardiovascular de Pequenos Animais. São Paulo: MedVet, 2015.
  3. Nelson, R. W.; Couto, C. G. Medicina Interna de Pequenos Animais. 6. ed. Rio de Janeiro: Guanabara Koogan, 2023.
  4. Ettinger, S. J.; Feldman, E. C.; Côté, E. Textbook of Veterinary Internal Medicine. 8. ed. St. Louis: Elsevier, 2017.

Conteúdo educativo. Valores de referência variam entre laboratórios, equipamentos e literatura — sempre confira os intervalos do seu laboratório e a bibliografia oficial antes de aplicar na rotina.

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