
Você terminou o exame neurológico e tem uma lista de achados: reflexos, tônus, reações posturais, panículo, bexiga. E agora, onde está a lesão? A neurolocalização medular divide a medula em quatro regiões funcionais e transforma esses achados num endereço. Saber esse endereço define qual exame de imagem pedir, onde operar e quais diagnósticos diferenciais fazem sentido.
A lógica em uma frase
Cada par de membros é classificado como normal, NMS ou NMI, como você viu em neurônio motor superior x inferior. Os reflexos que sustentam essa classificação e como testá-los estão em exame neurológico: reflexos espinhais. A combinação dos dois pares aponta a região.
A tabela que você precisa saber
| Região | Membros torácicos | Membros pélvicos | Pistas adicionais |
|---|---|---|---|
| C1–C5 | NMS (paresia, reflexos normais ou aumentados) | NMS | Dor cervical; tetraparesia ou hemiparesia; pode haver comprometimento respiratório em lesões graves |
| C6–T2 | NMI (reflexos diminuídos, atrofia) | NMS | Marcha de passos curtos nos torácicos e longos nos pélvicos; possível síndrome de Horner; panículo ausente em um ou ambos os lados |
| T3–L3 | Normais | NMS | Dor toracolombar; corte do panículo; possível Schiff-Sherrington; bexiga de NMS |
| L4–S3 | Normais | NMI (patelar ou retirada diminuídos) | Perineal diminuído, cauda flácida, bexiga e esfíncter anal de NMI quando há envolvimento sacral |
Algumas observações:
- Em C1–C5, os torácicos às vezes parecem menos afetados que os pélvicos, porque as vias dos pélvicos são mais periféricas e longas. Isso não muda a localização.
- Em C6–T2, a síndrome de Horner (miose, ptose, protrusão da terceira pálpebra) aparece quando a lesão atinge os segmentos ou raízes de T1–T3, por onde sai a inervação simpática pré-ganglionar do olho.
- Em L4–S3, vale subdividir: L4–L6 compromete o patelar (femoral); L6–S1, a retirada (isquiático); S1–S3, o perineal, a bexiga e o esfíncter.

Schiff-Sherrington: o sinal que engana
Na substância cinzenta lombar existem neurônios chamados células limítrofes (aproximadamente entre L1 e L7, com maior concentração em torno de L2–L4). Seus axônios sobem pela medula e inibem os músculos extensores dos membros torácicos.
Numa lesão grave e aguda em T3–L3, essa inibição é interrompida. Resultado: os membros torácicos ficam em extensão rígida, enquanto os pélvicos estão paralisados.
Schiff-Sherrington (lesão T3–L3)
- Torácicos rígidos, mas com reações posturais normais
- Movimento voluntário preservado nos torácicos
- Reflexos torácicos normais
- Pélvicos com sinais de NMS e, em geral, paraplegia
Rigidez por lesão cervical ou encefálica
- Torácicos com déficits de reações posturais
- Movimento voluntário reduzido nos torácicos
- Pode haver alteração de estado mental (descerebração)
- Sinais de NMS nos quatro membros
O sinal indica uma lesão grave, mas não é sozinho um marcador de prognóstico ruim. O que define o prognóstico é a dor profunda nos pélvicos, assunto de dor profunda e doença do disco intervertebral.
O panículo como marcador de nível
Em lesões T3–L3, o reflexo cutâneo do tronco costuma estar ausente caudalmente à lesão e presente cranialmente. A lesão geralmente está 1 a 2 vértebras cranial ao ponto em que o reflexo reaparece. Não é perfeito (lesões parciais ou laterais podem não gerar corte), mas, quando presente, é um ótimo guia.
Na região C8–T1, o raciocínio muda: ali saem os neurônios motores do nervo torácico lateral. Uma lesão nesse ponto pode abolir o panículo de todo um lado, independentemente de onde você estimula.
A bexiga também localiza
| Tipo | Lesão | Como a bexiga fica |
|---|---|---|
| Bexiga de NMS | Cranial a S1 (C1–C5, C6–T2, T3–L3) | Cheia, difícil de esvaziar por compressão, esfíncter com tônus aumentado |
| Bexiga de NMI | S1–S3, raízes sacrais, cauda equina | Cheia, flácida e fácil de esvaziar, extravasamento de urina |
Em qualquer paciente paraplégico, avalie e esvazie a bexiga regularmente: retenção urinária e infecção são complicações comuns.
Casos curtos
- 1Dachshund, 5 anos, paraplégico
Torácicos normais; pélvicos com patelar +3 e retirada presente; panículo ausente caudal a L2; dor à palpação toracolombar. Localização: T3–L3, provavelmente em torno de T13–L1.
- 2Doberman, 8 anos, marcha de duas velocidades
Torácicos com passada curta e retirada diminuída; pélvicos atáxicos com passada longa e reflexos aumentados. Localização: C6–T2. Na raça, a espondilomielopatia cervical caudal entra no topo da lista.
- 3Gato após trauma na cauda
Torácicos e patelares normais; perineal ausente, cauda flácida, bexiga distendida e fácil de esvaziar. Localização: S1–S3 e segmentos caudais (lesão sacrocaudal).
- 4Cão com dor cervical intensa e tetraparesia
Quatro membros com reflexos normais a aumentados e déficits proprioceptivos; estado mental normal e nervos cranianos normais. Localização: C1–C5.
- 5Cão paraplégico com torácicos estendidos
Torácicos rígidos, mas com posicionamento proprioceptivo normal; pélvicos sem movimento e com reflexos presentes. Localização: T3–L3, com Schiff-Sherrington.
Revise em 1 minuto
Um cão apresenta membros torácicos com reflexo de retirada diminuído e atrofia, e membros pélvicos com reflexos aumentados. A localização é:
NMI nos torácicos aponta para a intumescência cervicotorácica; os pélvicos, caudais à lesão, mostram sinais de NMS.
Um cão paraplégico tem os membros torácicos estendidos e rígidos, mas com posicionamento proprioceptivo normal. A melhor interpretação é:
No Schiff-Sherrington, os torácicos estão rígidos mas funcionais (reações posturais e movimento voluntário preservados), e a lesão é toracolombar.
Torácicos normais, patelar ausente bilateral, retirada pélvica diminuída e perineal diminuído. A localização é:
Vários arcos reflexos pélvicos e sacrais estão comprometidos, indicando lesão difusa na intumescência lombossacra.
Em um paciente com lesão T3–L3, a bexiga tende a estar:
Lesões craniais a S1 geram bexiga de NMS: o arco sacral está íntegro, mas sem controle superior, e o esfíncter fica contraído.
No próximo passo da trilha, veja como a dor profunda define a gravidade e o prognóstico em dor profunda e graduação da doença do disco intervertebral.
Referências
- Dewey, C. W.; da Costa, R. C. Neurologia Canina e Felina: Guia Prático. São Paulo: Guará, 2017.
- de Lahunta, A.; Glass, E.; Kent, M. de Lahunta’s Veterinary Neuroanatomy and Clinical Neurology. 5. ed. St. Louis: Elsevier, 2021.
- Platt, S. R.; Olby, N. J. BSAVA Manual of Canine and Feline Neurology. 4. ed. Gloucester: BSAVA, 2013.
- Fossum, T. W. Cirurgia de Pequenos Animais. 5. ed. Rio de Janeiro: Elsevier, 2021.
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