
O cão chega arrastando os membros pélvicos e a vontade é pegar o martelo e testar o patelar na hora. Calma. O exame neurológico tem uma ordem, e ela existe por um motivo: as etapas que causam desconforto vêm por último, e cada achado só faz sentido junto com os outros. Aqui você vai ver a sequência completa e, principalmente, como fazer e interpretar os reflexos espinhais sem cair nas armadilhas clássicas.
A ordem do exame
- 1Estado mental e comportamento
Alerta, deprimido, estuporoso ou comatoso? Comportamento adequado? Alterações apontam para encéfalo.
- 2Postura
Inclinação de cabeça, cifose, rigidez extensora, postura de Schiff-Sherrington, base ampla.
- 3Marcha
Paresia, ataxia, claudicação, passada curta ou longa. Se o animal anda, observe em piso não escorregadio.
- 4Reações posturais
Posicionamento proprioceptivo, saltitamento, carrinho de mão, posicionamento tátil. Detectam déficits sutis.
- 5Nervos cranianos
Ameaça, reflexo pupilar, palpebral, sensibilidade facial, posição dos olhos, deglutição.
- 6Reflexos espinhais e tônus
Com o animal em decúbito lateral e relaxado.
- 7Palpação e nocicepção
Palpação da coluna e teste de dor profunda ficam para o final, para não perder a colaboração do paciente.
As reações posturais são muito sensíveis: quase qualquer lesão neurológica entre o receptor proprioceptivo e o córtex pode alterá-las. Mas elas não localizam sozinhas. Quem localiza são os reflexos, combinados com a classificação em neurônio motor superior x inferior.
Como graduar um reflexo
A escala mais usada é simples:
| Grau | Significado |
|---|---|
| 0 | Ausente |
| +1 | Diminuído |
| +2 | Normal |
| +3 | Aumentado |
| +4 | Aumentado com clônus (contrações repetidas) |
Teste sempre com o animal em decúbito lateral, examinando o membro de cima, e depois vire o paciente. Compare os dois lados. Um animal relaxado vale mais do que qualquer martelo caro.

Os reflexos dos membros pélvicos
Reflexo patelar. Com o joelho levemente flexionado, percuta o ligamento patelar. Resposta normal: extensão do joelho. Testa o nervo femoral e os segmentos L4–L6. É o reflexo pélvico mais confiável.
Reflexo de retirada (flexor) pélvico. Pince suavemente a pele entre os dedos com o membro estendido. Resposta: flexão de quadril, joelho e tarso. Testa principalmente o nervo isquiático e os segmentos L6–S1 (alguns autores incluem S2). Avalie se todas as articulações flexionam: um quadril que flexiona com joelho e tarso parados pode indicar lesão isquiática com flexão de quadril mantida por outros músculos.
Os reflexos tibial cranial e gastrocnêmio existem, mas são menos confiáveis e variam entre animais normais. Use-os como complemento, nunca como base da localização.
Os reflexos dos membros torácicos
Reflexo de retirada torácico. Pince a pele dos dedos. Resposta: flexão de ombro, cotovelo e carpo. Envolve vários nervos (musculocutâneo, axilar, mediano, ulnar e radial) e os segmentos C6–T2. É o reflexo torácico mais útil.
Os reflexos bicipital (C6–C8) e tricipital (C7–T2) são difíceis de obter mesmo em cães normais. A ausência isolada deles tem pouco valor.
Reflexo perineal e reflexo cutâneo do tronco
Reflexo perineal. Toque ou pince levemente a pele do períneo. Resposta: contração do esfíncter anal e flexão da cauda. Testa o nervo pudendo e os segmentos S1–S3 (com os segmentos caudais para a cauda). Ausente junto com bexiga flácida e fácil de esvaziar: pense em lesão sacral ou de cauda equina.
Reflexo cutâneo do tronco (panículo). Belisque a pele de cada lado da coluna, de caudal para cranial, a partir da região lombar. Resposta: contração da pele do tronco. O estímulo entra na medula pelo segmento correspondente, sobe pela medula até C8–T1, de onde sai o nervo torácico lateral para o músculo cutâneo do tronco.
Armadilhas que confundem até quem já examinou muito
O que o reflexo de retirada É
- Um arco segmentar: pele, nervo, medula, músculo
- Funciona mesmo com a medula totalmente seccionada acima
- Avalia o NMI do membro
O que ele NÃO É
- Não prova que o animal sente dor
- Não substitui o teste de nocicepção consciente
- Não indica que a lesão é leve
Outras armadilhas frequentes:
- Pseudo-hiper-reflexia patelar. Numa lesão do nervo isquiático ou dos segmentos L6–S1, os músculos flexores que se opõem ao quadríceps perdem tônus, e o patelar parece aumentado sem lesão de NMS.
- Patelar diminuído no idoso. Cães idosos podem ter patelar reduzido bilateralmente sem doença neurológica relevante.
- Animal tenso ou com dor. Aumenta ou mascara reflexos. Repita com o paciente relaxado.
- Doença ortopédica. Ruptura de ligamento cruzado ou artrose podem limitar o movimento articular e imitar reflexo reduzido. Reações posturais normais, com claudicação, apontam para ortopedia.
- Choque espinhal. Logo após uma lesão grave e aguda, os reflexos caudais podem ficar temporariamente deprimidos. É reconhecido como menos frequente e mais curto em cães e gatos do que em humanos, mas vale lembrar antes de concluir “NMI”.
Revise em 1 minuto
Um cão tem reflexo patelar ausente bilateralmente, com retirada pélvica e perineal normais. A lesão provável envolve:
O patelar depende do nervo femoral e dos segmentos L4–L6. Como os outros reflexos pélvicos estão normais, a lesão é restrita a esse arco.
Um cão paraplégico retira o membro ao pinçamento do dígito, mas não vira a cabeça nem vocaliza. Isso indica:
A retirada é um reflexo segmentar. Percepção exige resposta comportamental consciente, como olhar, vocalizar ou tentar morder.
Por que uma lesão em C8–T1 pode abolir o reflexo cutâneo do tronco de um lado inteiro?
A via eferente do panículo sai dos segmentos C8–T1 pelo nervo torácico lateral; sem ela, não há contração, seja qual for o ponto estimulado.
Qual etapa deve ser feita por último no exame neurológico?
Etapas dolorosas no fim preservam a cooperação do animal e a qualidade das outras avaliações.
No próximo passo da trilha, junte todos esses achados em neurolocalização medular: C1–C5, C6–T2, T3–L3 e L4–S3.
Referências
- Dewey, C. W.; da Costa, R. C. Neurologia Canina e Felina: Guia Prático. São Paulo: Guará, 2017.
- de Lahunta, A.; Glass, E.; Kent, M. de Lahunta’s Veterinary Neuroanatomy and Clinical Neurology. 5. ed. St. Louis: Elsevier, 2021.
- Platt, S. R.; Olby, N. J. BSAVA Manual of Canine and Feline Neurology. 4. ed. Gloucester: BSAVA, 2013.
- Nelson, R. W.; Couto, C. G. Medicina Interna de Pequenos Animais. 6. ed. Rio de Janeiro: Guanabara Koogan, 2023.
Conteúdo educativo. Valores de referência variam entre laboratórios, equipamentos e literatura — sempre confira os intervalos do seu laboratório e a bibliografia oficial antes de aplicar na rotina.


