Dor profunda e graduação da doença do disco intervertebral

Doença do disco intervertebral em cães: Hansen tipo I x II, graus 1 a 5, como testar a dor profunda corretamente e o que esperar do prognóstico.

Por Equipe AjudaVet··6 min de leitura
Ilustração de um dachshund deitado em leito clínico com a região da coluna toracolombar destacada e um veterinário ao lado

Um Dachshund que pulou do sofá ontem hoje não move os membros pélvicos. O tutor pergunta: “ele vai voltar a andar?”. A resposta honesta depende, antes de tudo, de um único teste: a dor profunda. Na doença do disco intervertebral (DDIV), a graduação neurológica e a presença ou ausência de nocicepção profunda guiam a urgência, a escolha entre cirurgia e tratamento conservador e o prognóstico.

Hansen tipo I x tipo II

O disco intervertebral tem um centro gelatinoso, o núcleo pulposo, envolto pelo anel fibroso. Com a degeneração, o núcleo perde água e muda de composição, e o anel pode romper ou abaular.

Hansen tipo I (extrusão)

  • Degeneração condroide precoce do núcleo pulposo
  • Raças condrodistróficas: Dachshund, Buldogue Francês, Beagle, Shih Tzu, Lhasa Apso, Pequinês, Cocker
  • Em geral entre 3 e 7 anos
  • Início agudo, muitas vezes com dor intensa
  • Material extruído no canal, com compressão e contusão medular

Hansen tipo II (protrusão)

  • Degeneração fibroide, mais lenta
  • Cães não condrodistróficos de porte médio a grande, como Pastor Alemão e Labrador
  • Em geral cães mais velhos
  • Início crônico e progressivo, dor variável
  • Abaulamento do anel fibroso, compressão gradual

Existem ainda formas descritas mais recentemente, como a extrusão aguda de núcleo pulposo não compressiva (sem compressão relevante, com contusão medular), mas o raciocínio clássico de prova gira em torno de tipo I e tipo II. A região toracolombar (em torno de T11–L2 em condrodistróficos) e a cervical são as mais acometidas. A localização clínica segue a lógica de neurolocalização medular.

Comparação entre extrusão súbita do núcleo pulposo e protrusão lenta do anel fibroso comprimindo a medula
Na extrusão (Hansen tipo I) o núcleo é expulso de forma aguda; na protrusão (tipo II) o anel fibroso abaula lentamente.

A graduação clínica em 5 graus

A escala abaixo é a mais usada para DDIV toracolombar. Há variações entre autores (algumas começam no zero ou dividem o grau 4), então confira a escala usada no seu serviço.

Grau Quadro clínico O que ainda está preservado
1 Apenas dor toracolombar, sem déficits Tudo
2 Paraparesia ambulatória e ataxia Marcha, propriocepção parcialmente
3 Paraparesia não ambulatória Movimento voluntário, mas sem sustentar o peso
4 Paraplegia com dor profunda (com ou sem retenção urinária) Nocicepção profunda
5 Paraplegia sem dor profunda Nada abaixo da lesão, exceto os reflexos

A lógica por trás da escala está na anatomia das fibras: as de propriocepção são grossas e superficiais e se perdem primeiro; depois vem a motricidade voluntária, depois a dor superficial e, por último, a dor profunda, carregada por fibras finas, bilaterais e profundas na substância branca. Perder dor profunda significa que a lesão atingiu praticamente toda a espessura funcional da medula.

Como testar a dor profunda do jeito certo

Teste de nocicepção profunda
  1. 1
    Escolha o momento

    Faça no final do exame, com o animal acordado. Sedação e analgesia potente podem reduzir a resposta; registre o que o animal recebeu antes.

  2. 2
    Teste primeiro a dor superficial

    Pince a pele dos dígitos. Se houver resposta consciente, a dor profunda está presente e o teste profundo não é necessário.

  3. 3
    Aplique estímulo ósseo

    Com uma pinça hemostática, comprima firmemente a falange ou a base da unha, de forma gradual, até o periósteo.

  4. 4
    Observe a cabeça, não o membro

    Resposta positiva: virar a cabeça, vocalizar, tentar morder, dilatação pupilar, mudança de comportamento.

  5. 5
    Teste todos os dígitos e a cauda

    Dígitos medial e lateral de ambos os membros pélvicos e a cauda. A dor pode estar presente em apenas um ponto.

  6. 6
    Registre e repita

    Anote hora, local e resposta. Na dúvida, repita após alguns minutos ou peça que outro clínico avalie.

Prognóstico: cirúrgico x conservador

Os números variam bastante entre estudos, populações e tempo até o tratamento; use-os como ordem de grandeza, nunca como promessa ao tutor.

Grau Cirurgia (descompressão) Tratamento conservador
1–2 Recuperação alta, em geral acima de 90% Boa resposta em grande parte dos casos, mas com mais recidiva
3–4 Recuperação alta, em geral em torno de 85 a 95% Recuperação possível, mas mais lenta, menos previsível e com mais recidiva
5 Recuperação de deambulação em aproximadamente 50 a 60% Bem menor, com taxas muito variáveis entre estudos

Em termos gerais:

  • Em graus 1 e 2, o tratamento conservador (repouso estrito em gaiola, controle de dor e reavaliações) costuma ser uma opção razoável. Piora neurológica ou dor refratária mudam a indicação.
  • Em graus 3 a 5, a descompressão cirúrgica costuma ser recomendada, e no grau 5 ela é tratada como urgência: quanto mais tempo sem dor profunda, menores as chances.
  • A recuperação de um cão sem dor profunda que volta a andar pode levar semanas a meses, e alguns ficam com déficits residuais ou incontinência.
  • Alguns cães grau 5 que não recuperam a dor profunda desenvolvem uma marcha reflexa (“andar espinhal”), que não deve ser confundida com recuperação funcional.

Mielomalácia progressiva

Em uma parcela dos cães com lesão grave e perda de dor profunda (em geral relatada na faixa de aproximadamente 10%, com variação entre estudos), ocorre necrose hemorrágica da medula que avança cranial e caudalmente a partir do local da lesão.

Sinais de alerta, geralmente nos primeiros dias:

  • Corte do panículo subindo em direção cranial nos exames seriados.
  • Reflexos pélvicos que eram de NMS passando a NMI (perda do patelar e da retirada), com flacidez abdominal e do esfíncter.
  • Dor intensa difusa, febre, mal-estar.
  • Progressão para os membros torácicos e, por fim, paralisia dos músculos respiratórios.

Não há tratamento eficaz conhecido e o prognóstico é reservado a grave, em geral fatal. Por isso todo paciente grau 5 precisa de reavaliação neurológica seriada, e a possibilidade deve ser discutida com o tutor.

Revise em 1 minuto

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  1. Um Dachshund paraplégico flexiona o membro ao pinçamento do dígito, mas não demonstra nenhuma reação consciente. Ele é classificado como:

  2. Qual característica é mais típica da doença do disco Hansen tipo II?

  3. Por que a dor profunda é a última função perdida numa compressão medular?

  4. Um cão grau 5 tem, 48 horas depois, o corte do panículo mais cranial e reflexo patelar ausente, antes presente. A principal suspeita é:

Você chegou ao fim desta etapa da trilha do sistema nervoso. Se quiser revisar a base do raciocínio, volte para neurolocalização medular.

Referências

  1. Dewey, C. W.; da Costa, R. C. Neurologia Canina e Felina: Guia Prático. São Paulo: Guará, 2017.
  2. Fossum, T. W. Cirurgia de Pequenos Animais. 5. ed. Rio de Janeiro: Elsevier, 2021.
  3. Platt, S. R.; Olby, N. J. BSAVA Manual of Canine and Feline Neurology. 4. ed. Gloucester: BSAVA, 2013.
  4. de Lahunta, A.; Glass, E.; Kent, M. de Lahunta’s Veterinary Neuroanatomy and Clinical Neurology. 5. ed. St. Louis: Elsevier, 2021.
  5. Nelson, R. W.; Couto, C. G. Medicina Interna de Pequenos Animais. 6. ed. Rio de Janeiro: Guanabara Koogan, 2023.

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