
Dois cães chegam sem andar com os membros pélvicos. Num, o reflexo patelar está forte e as pernas ficam rígidas; no outro, o membro está mole e o reflexo não aparece. Os dois têm “paraparesia”, mas a lesão está em lugares completamente diferentes. A ferramenta que separa esses casos é a diferença entre neurônio motor superior x inferior (NMS x NMI), o alicerce de toda neurolocalização.
Quem é quem: a cadeia de comando
Pense numa empresa. O NMI é o funcionário que executa: seu corpo celular fica na substância cinzenta ventral da medula (ou nos núcleos dos nervos cranianos no tronco encefálico), e seu axônio sai pela raiz ventral, segue no nervo periférico e chega ao músculo. Sem ele, o músculo não recebe nenhum sinal. Ele é a via final comum: tudo o que o animal faz de movimento passa por ali.
O NMS é a gerência. Seus corpos celulares estão no córtex motor e no tronco encefálico, e os axônios descem pelos tratos da substância branca da medula. Ele faz duas coisas: inicia o movimento voluntário e inibe constantemente o NMI, impedindo que os reflexos e o tônus fiquem exagerados.
Na transmissão do sinal até o músculo, quem fala com a fibra muscular é sempre o NMI, por meio da acetilcolina, como visto em potencial de ação e sinapse.
Os sinais lado a lado
Lesão de NMS
- Paresia ou plegia com déficits proprioceptivos
- Reflexos espinhais normais ou aumentados
- Tônus muscular normal ou aumentado (espasticidade)
- Atrofia leve e tardia, por desuso
- Marcha com passada longa e rígida, ataxia
- Pode surgir reflexo extensor cruzado em lesões crônicas
Lesão de NMI
- Paresia ou plegia, muitas vezes com fraqueza marcante
- Reflexos espinhais diminuídos ou ausentes
- Tônus diminuído (hipotonia, flacidez)
- Atrofia neurogênica precoce e intensa
- Marcha com passada curta, dificuldade de sustentar o peso
- Pode haver fasciculações (raras em pequenos animais)
Detalhes importantes:
- A atrofia neurogênica começa a ficar evidente em aproximadamente 1 a 2 semanas após a perda da inervação. A atrofia por desuso da lesão de NMS é bem mais lenta e discreta.
- Propriocepção pode estar alterada nos dois tipos de lesão, porque as vias sensitivas correm próximas às motoras. Ela ajuda a confirmar que o problema é neurológico, mas não separa NMS de NMI.
- O reflexo extensor cruzado (o membro oposto estende quando você provoca a retirada de um membro) indica perda da inibição do NMS. É um sinal de lesão de NMS, mas não de gravidade.

Por que o reflexo é a chave
Todo reflexo espinhal é um arco: receptor, nervo sensitivo, segmento medular, NMI e músculo. O NMS não faz parte do arco; ele só modula de cima.
| Onde está a lesão | O arco reflexo | O que você observa |
|---|---|---|
| No NMI do membro (segmento, raiz, nervo) | Interrompido | Reflexo diminuído ou ausente |
| Cranial ao segmento do reflexo (vias do NMS) | Íntegro, mas sem freio | Reflexo normal ou aumentado |
| Caudal ao segmento do reflexo | Íntegro e com freio | Reflexo normal |
Isso explica uma confusão comum: um cão com hérnia de disco toracolombar pode estar paraplégico e ainda assim ter reflexo patelar exagerado. Ele não está “melhor” por ter reflexo; o reflexo só mostra que o arco lombar está íntegro e que a lesão está acima dele.
Aplicando na localização
A medula tem duas regiões onde os NMI dos membros se concentram: as intumescências. A cervicotorácica (C6–T2) dá origem aos nervos dos membros torácicos; a lombossacra (L4–S3), aos dos membros pélvicos, períneo e bexiga.
- 1Confirme que é neurológico
Déficits proprioceptivos e de reações posturais indicam doença neurológica, e não apenas ortopédica.
- 2Classifique cada par de membros
Torácicos e pélvicos separadamente: são NMS (reflexos normais ou aumentados) ou NMI (reflexos diminuídos ou ausentes)?
- 3Combine os achados
NMI em um par de membros aponta para a intumescência correspondente; NMS indica lesão cranial a ela.
- 4Refine com outros marcadores
Reflexo cutâneo do tronco, dor à palpação da coluna, função vesical e nervos cranianos estreitam a região.
Exemplos rápidos:
- Torácicos NMI + pélvicos NMS: lesão em C6–T2.
- Torácicos normais + pélvicos NMS: lesão em T3–L3, o local mais frequente da hérnia de disco toracolombar.
- Torácicos normais + pélvicos NMI: lesão em L4–S3.
- Os quatro membros NMS: lesão em C1–C5 (ou encefálica, se houver alteração de estado mental ou de nervos cranianos).
Essa tabela completa, com sinais extras de cada segmento, está em neurolocalização medular.
Revise em 1 minuto
Um cão não ambulatório com membros pélvicos rígidos e reflexo patelar aumentado bilateralmente, com membros torácicos normais. A lesão é:
Sinais de NMS apenas nos pélvicos, com torácicos normais, localizam entre T3 e L3, cranial à intumescência lombossacra.
Qual achado é típico de lesão de neurônio motor inferior?
A perda da inervação leva a atrofia neurogênica precoce e intensa. As outras opções são sinais de NMS.
Por que uma lesão de NMS deixa os reflexos aumentados?
O arco reflexo está íntegro; sem a modulação inibitória descendente, a resposta fica exagerada.
Um gato com fraqueza flácida nos quatro membros, reflexos diminuídos em todos e sem dor na coluna. A principal hipótese de localização é:
Sinais de NMI generalizados sugerem polineuropatia, polirradiculoneurite ou doença da junção neuromuscular (como o botulismo), e não uma lesão medular focal.
No próximo passo da trilha, aprenda a examinar cada reflexo na ordem certa em exame neurológico: reflexos espinhais passo a passo.
Referências
- Dewey, C. W.; da Costa, R. C. Neurologia Canina e Felina: Guia Prático. São Paulo: Guará, 2017.
- de Lahunta, A.; Glass, E.; Kent, M. de Lahunta’s Veterinary Neuroanatomy and Clinical Neurology. 5. ed. St. Louis: Elsevier, 2021.
- Platt, S. R.; Olby, N. J. BSAVA Manual of Canine and Feline Neurology. 4. ed. Gloucester: BSAVA, 2013.
- Nelson, R. W.; Couto, C. G. Medicina Interna de Pequenos Animais. 6. ed. Rio de Janeiro: Guanabara Koogan, 2023.
Conteúdo educativo. Valores de referência variam entre laboratórios, equipamentos e literatura — sempre confira os intervalos do seu laboratório e a bibliografia oficial antes de aplicar na rotina.


