Neurônio motor superior x inferior: os sinais que localizam a lesão

Neurônio motor superior x inferior em cães e gatos: reflexos, tônus, atrofia e marcha que diferenciam NMS de NMI e guiam a neurolocalização.

Por Equipe AjudaVet··6 min de leitura
Ilustração de um cão e um gato em exame clínico, com a via nervosa do encéfalo até o músculo destacada acima deles

Dois cães chegam sem andar com os membros pélvicos. Num, o reflexo patelar está forte e as pernas ficam rígidas; no outro, o membro está mole e o reflexo não aparece. Os dois têm “paraparesia”, mas a lesão está em lugares completamente diferentes. A ferramenta que separa esses casos é a diferença entre neurônio motor superior x inferior (NMS x NMI), o alicerce de toda neurolocalização.

Quem é quem: a cadeia de comando

Pense numa empresa. O NMI é o funcionário que executa: seu corpo celular fica na substância cinzenta ventral da medula (ou nos núcleos dos nervos cranianos no tronco encefálico), e seu axônio sai pela raiz ventral, segue no nervo periférico e chega ao músculo. Sem ele, o músculo não recebe nenhum sinal. Ele é a via final comum: tudo o que o animal faz de movimento passa por ali.

O NMS é a gerência. Seus corpos celulares estão no córtex motor e no tronco encefálico, e os axônios descem pelos tratos da substância branca da medula. Ele faz duas coisas: inicia o movimento voluntário e inibe constantemente o NMI, impedindo que os reflexos e o tônus fiquem exagerados.

Na transmissão do sinal até o músculo, quem fala com a fibra muscular é sempre o NMI, por meio da acetilcolina, como visto em potencial de ação e sinapse.

Os sinais lado a lado

Lesão de NMS

  • Paresia ou plegia com déficits proprioceptivos
  • Reflexos espinhais normais ou aumentados
  • Tônus muscular normal ou aumentado (espasticidade)
  • Atrofia leve e tardia, por desuso
  • Marcha com passada longa e rígida, ataxia
  • Pode surgir reflexo extensor cruzado em lesões crônicas

Lesão de NMI

  • Paresia ou plegia, muitas vezes com fraqueza marcante
  • Reflexos espinhais diminuídos ou ausentes
  • Tônus diminuído (hipotonia, flacidez)
  • Atrofia neurogênica precoce e intensa
  • Marcha com passada curta, dificuldade de sustentar o peso
  • Pode haver fasciculações (raras em pequenos animais)

Detalhes importantes:

  • A atrofia neurogênica começa a ficar evidente em aproximadamente 1 a 2 semanas após a perda da inervação. A atrofia por desuso da lesão de NMS é bem mais lenta e discreta.
  • Propriocepção pode estar alterada nos dois tipos de lesão, porque as vias sensitivas correm próximas às motoras. Ela ajuda a confirmar que o problema é neurológico, mas não separa NMS de NMI.
  • O reflexo extensor cruzado (o membro oposto estende quando você provoca a retirada de um membro) indica perda da inibição do NMS. É um sinal de lesão de NMS, mas não de gravidade.
Comparação visual entre lesão no neurônio superior, com membro rígido, e lesão no neurônio inferior, com membro flácido e atrofiado
Lesão de NMS tira o freio: membro rígido e reflexos vivos. Lesão de NMI corta a via final: membro flácido, sem reflexo e com atrofia.

Por que o reflexo é a chave

Todo reflexo espinhal é um arco: receptor, nervo sensitivo, segmento medular, NMI e músculo. O NMS não faz parte do arco; ele só modula de cima.

Onde está a lesão O arco reflexo O que você observa
No NMI do membro (segmento, raiz, nervo) Interrompido Reflexo diminuído ou ausente
Cranial ao segmento do reflexo (vias do NMS) Íntegro, mas sem freio Reflexo normal ou aumentado
Caudal ao segmento do reflexo Íntegro e com freio Reflexo normal

Isso explica uma confusão comum: um cão com hérnia de disco toracolombar pode estar paraplégico e ainda assim ter reflexo patelar exagerado. Ele não está “melhor” por ter reflexo; o reflexo só mostra que o arco lombar está íntegro e que a lesão está acima dele.

Aplicando na localização

A medula tem duas regiões onde os NMI dos membros se concentram: as intumescências. A cervicotorácica (C6–T2) dá origem aos nervos dos membros torácicos; a lombossacra (L4–S3), aos dos membros pélvicos, períneo e bexiga.

Raciocínio de localização em 4 passos
  1. 1
    Confirme que é neurológico

    Déficits proprioceptivos e de reações posturais indicam doença neurológica, e não apenas ortopédica.

  2. 2
    Classifique cada par de membros

    Torácicos e pélvicos separadamente: são NMS (reflexos normais ou aumentados) ou NMI (reflexos diminuídos ou ausentes)?

  3. 3
    Combine os achados

    NMI em um par de membros aponta para a intumescência correspondente; NMS indica lesão cranial a ela.

  4. 4
    Refine com outros marcadores

    Reflexo cutâneo do tronco, dor à palpação da coluna, função vesical e nervos cranianos estreitam a região.

Exemplos rápidos:

  • Torácicos NMI + pélvicos NMS: lesão em C6–T2.
  • Torácicos normais + pélvicos NMS: lesão em T3–L3, o local mais frequente da hérnia de disco toracolombar.
  • Torácicos normais + pélvicos NMI: lesão em L4–S3.
  • Os quatro membros NMS: lesão em C1–C5 (ou encefálica, se houver alteração de estado mental ou de nervos cranianos).

Essa tabela completa, com sinais extras de cada segmento, está em neurolocalização medular.

Revise em 1 minuto

Flashcards de revisão clique para virar
Teste seu conhecimento0/4
  1. Um cão não ambulatório com membros pélvicos rígidos e reflexo patelar aumentado bilateralmente, com membros torácicos normais. A lesão é:

  2. Qual achado é típico de lesão de neurônio motor inferior?

  3. Por que uma lesão de NMS deixa os reflexos aumentados?

  4. Um gato com fraqueza flácida nos quatro membros, reflexos diminuídos em todos e sem dor na coluna. A principal hipótese de localização é:

No próximo passo da trilha, aprenda a examinar cada reflexo na ordem certa em exame neurológico: reflexos espinhais passo a passo.

Referências

  1. Dewey, C. W.; da Costa, R. C. Neurologia Canina e Felina: Guia Prático. São Paulo: Guará, 2017.
  2. de Lahunta, A.; Glass, E.; Kent, M. de Lahunta’s Veterinary Neuroanatomy and Clinical Neurology. 5. ed. St. Louis: Elsevier, 2021.
  3. Platt, S. R.; Olby, N. J. BSAVA Manual of Canine and Feline Neurology. 4. ed. Gloucester: BSAVA, 2013.
  4. Nelson, R. W.; Couto, C. G. Medicina Interna de Pequenos Animais. 6. ed. Rio de Janeiro: Guanabara Koogan, 2023.

Conteúdo educativo. Valores de referência variam entre laboratórios, equipamentos e literatura — sempre confira os intervalos do seu laboratório e a bibliografia oficial antes de aplicar na rotina.

Continue estudando