Fisiologia hepática e metabolismo da bilirrubina

Funções do fígado, o ciclo da bilirrubina e como diferenciar icterícia pré-hepática, hepática e pós-hepática em cães e gatos, com ácidos biliares.

Por Equipe AjudaVet··6 min de leitura
Ilustração de uma veterinária examinando um gato com mucosas amareladas, com um fígado estilizado ao fundo

O gato chega com as orelhas amareladas e o plasma do microhematócrito cor de laranja. Icterícia — mas de onde vem? Do sangue sendo destruído, do fígado doente ou da bile que não consegue sair? Para responder, você precisa conhecer a fisiologia hepática e o caminho completo do metabolismo da bilirrubina, do macrófago às fezes.

O fígado em cinco funções

O fígado recebe cerca de três quartos do seu sangue pela veia porta, vindo direto do intestino. Por isso ele é o primeiro “filtro” de tudo o que é absorvido.

Função Exemplos O que você vê quando falha
Síntese Albumina, maioria dos fatores de coagulação, colesterol, ureia Hipoalbuminemia, tempos de coagulação prolongados, ureia baixa
Metabolismo energético Glicogênio, gliconeogênese Hipoglicemia
Detoxificação Amônia convertida em ureia, biotransformação de fármacos Hiperamonemia, encefalopatia hepática
Armazenamento Glicogênio, vitaminas A, D e B12, ferro, cobre Deficiências; acúmulo de cobre em algumas raças
Excreção Bile, bilirrubina, ácidos biliares, colesterol Icterícia, ácidos biliares aumentados

O fígado tem enorme reserva funcional: a maioria dos testes de função só se altera quando boa parte do parênquima já foi perdida. As enzimas, por outro lado, indicam lesão ou colestase — veja o artigo sobre enzimas hepáticas ALT, FA e GGT.

O ciclo da bilirrubina passo a passo

Do heme às fezes
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    Hemácia senescente é fagocitada

    Macrófagos do baço, fígado e medula degradam a hemoglobina. O heme é aberto pela heme oxigenase, formando biliverdina, que é reduzida a bilirrubina.

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    Bilirrubina não conjugada no plasma

    Lipossolúvel, viaja ligada à albumina. Por estar ligada, não é filtrada pelo glomérulo: não aparece na urina.

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    Captação e conjugação no hepatócito

    O hepatócito capta a bilirrubina e a conjuga com ácido glicurônico (enzima UDP-glicuronosiltransferase). Agora ela é hidrossolúvel.

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    Excreção na bile

    A bilirrubina conjugada é secretada ativamente para os canalículos biliares. Essa etapa é a mais limitante do processo.

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    Intestino: urobilinogênio

    Bactérias intestinais convertem a bilirrubina em urobilinogênio. Parte é reabsorvida e volta ao fígado (ciclo êntero-hepático), parte sai na urina e o restante vira estercobilina, que dá cor às fezes.

Duas consequências práticas desse ciclo:

  • Se a bile não chega ao intestino (obstrução completa), não se forma estercobilina: as fezes ficam acólicas (claras, cor de massa de vidraceiro).
  • A bilirrubina conjugada que reflui para o sangue na colestase pode se ligar covalentemente à albumina, formando a bilirrubina delta. Ela permanece no sangue enquanto essa albumina circular, por isso a icterícia pode demorar a sumir mesmo depois de resolvida a causa.

Em termos didáticos, o plasma costuma parecer ictérico com bilirrubina acima de aproximadamente 1,5 mg/dL, e as mucosas e pele quando passa de cerca de 2 a 3 mg/dL. Os intervalos de referência variam por laboratório.

Ciclo da bilirrubina: hemácia degradada por macrófago, transporte ligado à albumina até o fígado, excreção na bile e transformação no intestino
A bilirrubina não conjugada sai do macrófago ligada à albumina, é conjugada no fígado, segue pela bile e vira urobilinogênio e estercobilina no intestino.

Icterícia pré-hepática, hepática e pós-hepática

A pergunta clínica é simples: a bilirrubina está sendo produzida demais, mal processada ou mal escoada?

Pré-hepática Hepática Pós-hepática
Mecanismo Hemólise: excesso de heme supera a capacidade de captação e conjugação Lesão do hepatócito ou colestase intra-hepática Obstrução do fluxo biliar extra-hepático
Exemplos AHIM, Babesia, Mycoplasma haemofelis, corpúsculos de Heinz Hepatite, lipidose hepática felina, toxinas, colangite Pancreatite com compressão do ducto, colelitíase, neoplasia, mucocele biliar
Hematócrito Anemia regenerativa, geralmente moderada a grave Normal ou anemia leve Normal ou anemia leve
Enzimas Normais ou ALT levemente aumentada (hipóxia) ALT aumentada; FA e GGT variáveis FA e GGT bem aumentadas, colesterol frequentemente alto
Fezes Normais ou mais escuras Normais Podem ficar acólicas se a obstrução for completa

O primeiro passo é sempre olhar o hematócrito: uma icterícia com Ht normal praticamente afasta hemólise como causa principal. Se houver anemia, classifique-a com o roteiro de anemia regenerativa x não regenerativa.

Bilirrubina não conjugada (indireta)

  • Lipossolúvel, ligada à albumina
  • Não passa para a urina
  • Aumenta primeiro na hemólise
  • Também sobe no jejum do equino

Bilirrubina conjugada (direta)

  • Hidrossolúvel, conjugada com ácido glicurônico
  • Pode ser filtrada e aparecer na urina
  • Predomina na colestase hepática ou pós-hepática
  • Pode formar bilirrubina delta (ligada à albumina)

Bilirrubinúria: cão macho x gato

Só a bilirrubina conjugada aparece na urina. Mas as espécies diferem muito:

  • No cão, o limiar renal para bilirrubina é baixo, e os túbulos renais conseguem conjugar uma pequena quantidade de bilirrubina. Por isso, traços a 1+ em urina concentrada podem ser normais, sobretudo em machos. Bilirrubinúria marcada, em urina diluída ou persistente merece investigação.
  • No gato, o limiar renal é bem mais alto. Qualquer bilirrubinúria é anormal e costuma preceder a hiperbilirrubinemia e a icterícia visível.

Sempre interprete a fita junto com a densidade urinária: o mesmo resultado tem pesos diferentes em urina concentrada e diluída (veja concentração urinária e densidade).

Ácidos biliares: o teste de função

Os ácidos biliares são sintetizados no fígado a partir do colesterol, conjugados (no gato, obrigatoriamente com taurina) e secretados na bile. Ficam armazenados na vesícula, são liberados após a refeição (estímulo da colecistocinina), ajudam a emulsificar gorduras e são reabsorvidos em grande parte no íleo. Voltam pela veia porta e o fígado saudável os recapta com muita eficiência — é a circulação êntero-hepática.

Por isso, ácidos biliares séricos aumentados indicam que algo falhou nesse circuito:

  • Disfunção do hepatócito: o fígado não recapta bem.
  • Desvio portossistêmico (shunt): o sangue portal “pula” o fígado e os ácidos biliares vão direto à circulação sistêmica.
  • Colestase: eles refluem para o sangue.

O teste é feito com amostras em jejum e cerca de 2 horas após a refeição. Ele é útil no paciente sem icterícia: se o animal já está ictérico por causa hepática ou pós-hepática, os ácidos biliares estarão altos de qualquer forma e o teste não acrescenta informação.

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  1. Por que a bilirrubina não conjugada não aparece na urina?

  2. Um cão ictérico tem hematócrito de 14%, policromasia intensa e enzimas hepáticas quase normais. A icterícia é mais provavelmente:

  3. Na urinálise de um gato, a fita mostra bilirrubina 1+. A interpretação correta é:

  4. Em qual paciente o teste de ácidos biliares pré e pós-prandial é MAIS útil?

No próximo passo da trilha, vamos ao vizinho do fígado: pâncreas exócrino e insuficiência pancreática exócrina.

Referências

  1. Klein, B. G. Cunningham — Tratado de Fisiologia Veterinária. 6. ed. Rio de Janeiro: Elsevier, 2021.
  2. Thrall, M. A. et al. Hematologia e Bioquímica Clínica Veterinária. 2. ed. Rio de Janeiro: Roca, 2015.
  3. Stockham, S. L.; Scott, M. A. Fundamentals of Veterinary Clinical Pathology. 2. ed. Ames: Blackwell, 2008.
  4. Nelson, R. W.; Couto, C. G. Medicina Interna de Pequenos Animais. 5. ed. Rio de Janeiro: Elsevier, 2015.

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