
Um Pastor Alemão jovem come como nunca, mas emagrece a cada semana. As fezes são enormes, pastosas, amareladas e gordurosas. Ele não tem um problema de apetite — tem um problema de digestão. Esse é o retrato da insuficiência pancreática exócrina (IPE), e para entendê-la você precisa primeiro saber como o pâncreas exócrino trabalha.
O que o pâncreas exócrino secreta
As células acinares produzem as enzimas; as células ductais produzem um fluido rico em bicarbonato. Dois hormônios duodenais comandam o processo: a colecistocinina (CCK), liberada pela chegada de gordura e proteína, estimula as enzimas; a secretina, liberada pela chegada de ácido, estimula o bicarbonato.
| Secreção | Forma de saída | O que digere |
|---|---|---|
| Tripsinogênio, quimotripsinogênio | Zimogênio inativo | Proteínas |
| Pró-carboxipeptidases, pró-elastase | Zimogênio inativo | Proteínas e peptídeos |
| Pró-fosfolipase A2 | Zimogênio inativo | Fosfolipídios |
| Lipase (com a colipase) | Ativa (a colipase sai como pró-colipase) | Triglicerídeos |
| Amilase | Ativa | Amido |
| Bicarbonato | Fluido ductal | Neutraliza o ácido e cria o pH ideal para as enzimas |
| Fator intrínseco | Proteína secretada | Permite a absorção de cobalamina (vitamina B12) no íleo |
O fator intrínseco merece destaque: no gato, ele é produzido exclusivamente pelo pâncreas; no cão, o pâncreas é a principal fonte, com uma pequena contribuição gástrica. Por isso a deficiência de cobalamina é tão frequente na IPE.
Ativação em cascata e proteção contra autodigestão
- 1Zimogênios saem inativos
Armazenados em grânulos de zimogênio e secretados pelo ducto pancreático até o duodeno.
- 2Enteropeptidase ativa a tripsina
Essa enzima da borda em escova do duodeno (antigamente chamada enteroquinase) converte o tripsinogênio em tripsina.
- 3A tripsina ativa as demais
A tripsina ativa os outros zimogênios e mais tripsinogênio, numa cascata rápida, mas que só acontece na luz intestinal.
Como uma glândula cheia de proteases não se digere? Por várias barreiras ao mesmo tempo:
- Enzimas produzidas como zimogênios e guardadas em grânulos isolados do citoplasma.
- Inibidor pancreático da tripsina (inibidor secretório) dentro do ácino, que neutraliza pequenas quantidades de tripsina ativada por engano.
- Separação entre os grânulos de zimogênio e os lisossomos, cujas enzimas poderiam ativar o tripsinogênio.
- Fluxo contínuo pelo ducto, que leva as enzimas embora rapidamente.
- Antiproteases plasmáticas (alfa-1-antitripsina e alfa-2-macroglobulina), que capturam enzimas que escapam para o sangue.
Quando essas barreiras falham e a tripsina é ativada dentro do pâncreas, o resultado é a pancreatite: o órgão inflama e se autodigere.

Insuficiência pancreática exócrina: por que acontece
A IPE é uma síndrome de má digestão por falta de enzimas. Os sinais clínicos costumam aparecer só depois que a maior parte da capacidade secretora é perdida — algo em torno de 85 a 90%, pela grande reserva funcional da glândula.
As causas principais:
- Atrofia acinar pancreática: a causa mais comum em cães, clássica no Pastor Alemão (também descrita em Rough Collie e outras raças). Acredita-se que seja uma destruição imunomediada dos ácinos, com base hereditária, em geral em adultos jovens.
- Pancreatite crônica: destrói o tecido aos poucos, sendo a causa mais comum em gatos e em cães de meia-idade a idosos. Como as ilhotas também podem ser destruídas, alguns pacientes desenvolvem diabetes mellitus junto (veja diabetes mellitus em cães e gatos).
- Mais raras: neoplasia pancreática, hipoplasia congênita.
Sinais clínicos
- Fezes volumosas, pastosas, pálidas ou amareladas, com odor rançoso e aspecto gorduroso (esteatorreia).
- Polifagia intensa, às vezes com coprofagia ou ingestão de objetos.
- Perda de peso apesar do apetite, com perda de massa muscular.
- Pelame seco e opaco; borborigmos e flatulência.
- Em gatos, pelos da região perianal oleosos são uma pista útil.
Há também alterações secundárias: disbiose (crescimento bacteriano excessivo) e deficiência de cobalamina, que pioram a diarreia e a perda de peso.
Diagnóstico: TLI sérica
A TLI sérica (imunorreatividade semelhante à tripsina) mede o tripsinogênio e a tripsina que escapam normalmente do pâncreas para o sangue. Ela é espécie-específica e reflete a massa de tecido acinar funcional: menos ácinos, menos TLI.
- Coleta após jejum de cerca de 12 horas (a alimentação pode elevar discretamente o resultado).
- Em cães, como referência didática, valores menores ou iguais a aproximadamente 2,5 µg/L confirmam IPE, e valores intermediários devem ser repetidos depois de algumas semanas. No gato os pontos de corte são outros, com teste próprio para a espécie. Use sempre os valores do laboratório.
- A TLI pode ficar falsamente normal ou aumentada na doença renal (eliminação renal reduzida) e na pancreatite concomitante.
- Testes de atividade proteolítica nas fezes são menos confiáveis e foram em grande parte substituídos pela TLI.
Junto com a TLI, vale dosar cobalamina e folato: cobalamina baixa é comum e precisa ser corrigida, e folato alterado pode sugerir disbiose ou doença intestinal associada.
IPE
- Problema de falta de tecido acinar
- Sinais crônicos: fezes volumosas, polifagia, emagrecimento
- Exame de escolha: TLI sérica baixa
- Em geral sem dor abdominal ou vômito
- Tratamento de base: suplementação de enzimas com o alimento e de cobalamina quando deficiente
Pancreatite
- Problema de inflamação com ativação enzimática precoce
- Sinais agudos ou crônicos: vômito, anorexia, dor abdominal (no gato, muitas vezes sinais vagos)
- Exame de escolha: lipase pancreática específica (cPLI/fPLI) junto com a ultrassonografia
- TLI tem baixa sensibilidade para pancreatite
- Crises repetidas podem, com o tempo, levar à IPE
Revise em 1 minuto
Qual mecanismo NÃO faz parte da proteção do pâncreas contra a autodigestão?
A enteropeptidase fica na borda em escova do duodeno. A ativação da tripsina dentro do pâncreas é justamente o que desencadeia a pancreatite.
Um Pastor Alemão de 2 anos tem polifagia, perda de peso e fezes volumosas e gordurosas. O melhor exame inicial é:
A TLI reflete a massa acinar funcional e é o teste de escolha para IPE.
Um gato com IPE apresenta cobalamina muito baixa. A explicação mais direta é:
Sem pâncreas exócrino funcional, falta fator intrínseco e a absorção ileal de cobalamina falha.
Sobre a relação entre pancreatite e IPE, é correto afirmar:
Inflamação repetida reduz a massa acinar. Para pancreatite, o teste mais usado é a lipase pancreática específica.
No próximo passo da trilha, vamos fechar com nutrição aplicada: necessidade energética: RER, MER e escore corporal.
Referências
- Klein, B. G. Cunningham — Tratado de Fisiologia Veterinária. 6. ed. Rio de Janeiro: Elsevier, 2021.
- Washabau, R. J.; Day, M. J. Canine and Feline Gastroenterology. St. Louis: Elsevier Saunders, 2013.
- Nelson, R. W.; Couto, C. G. Medicina Interna de Pequenos Animais. 5. ed. Rio de Janeiro: Elsevier, 2015.
- Ettinger, S. J.; Feldman, E. C.; Côté, E. Textbook of Veterinary Internal Medicine. 8. ed. St. Louis: Elsevier, 2017.
Conteúdo educativo. Valores de referência variam entre laboratórios, equipamentos e literatura — sempre confira os intervalos do seu laboratório e a bibliografia oficial antes de aplicar na rotina.


