
A bioquímica volta com a FA quatro vezes acima do limite e a ALT discretamente alta. O tutor pergunta: “o fígado dele está parando?”. Não necessariamente. As enzimas hepáticas contam lesão ou estímulo das células, não função. Entender essa diferença — e as particularidades do cão e do gato — é o que separa uma leitura correta de um susto desnecessário.
Extravasamento x indução: dois jeitos de subir
Extravasamento
- Enzimas do citosol ou mitocôndrias do hepatócito
- Sobem quando a membrana é lesada
- Exemplos: ALT e AST
- Aumento proporcional, grosso modo, ao número de células lesadas, não à gravidade clínica
Indução
- Enzimas ligadas à membrana de hepatócitos e epitélio biliar
- Sobem quando a célula sintetiza mais
- Exemplos: FA e GGT
- Gatilhos: colestase, corticoides, anticonvulsivantes como o fenobarbital
Uma analogia útil: o hepatócito é um balão cheio de ALT. Se você o fura (hipóxia, toxinas, inflamação, trauma), a ALT vaza para o sangue. Já a FA e a GGT são como produção sob encomenda: quando a bile fica estagnada ou quando há estímulo hormonal, a célula fabrica mais enzima e ela “transborda” para a circulação.

ALT e AST: o marcador de lesão
A ALT (alanina aminotransferase) está no citosol dos hepatócitos e é considerada específica de fígado em cães e gatos. Lesões musculares graves podem elevá-la um pouco, por isso, se a CK também estiver muito alta, interprete com cuidado.
A AST (aspartato aminotransferase) existe no fígado, mas também nos músculos e nas hemácias: é menos específica. Hemólise da amostra e lesão muscular podem aumentá-la.
Pontos-chave sobre a ALT:
- A magnitude reflete quantas células vazaram, não o prognóstico. Um aumento muito alto após uma lesão aguda pode ser totalmente reversível.
- No cão, a meia-vida plasmática é de aproximadamente 2 a 3 dias; por isso a queda progressiva em exames seriados sugere recuperação.
- Em cães, corticoides e fenobarbital podem causar aumento discreto da ALT, por indução.
- Fígado em estágio final (cirrose) pode ter ALT normal: sobraram poucas células para vazar.
FA: colestase, corticoide e osso
A fosfatase alcalina (FA) existe em várias isoformas. As que mais importam na rotina:
| Isoforma | Origem | Quando sobe |
|---|---|---|
| Hepática | Membrana dos canalículos biliares | Colestase intra ou extra-hepática |
| Induzida por corticoide | Fígado, exclusiva do cão | Hiperadrenocorticismo, corticoide exógeno, estresse crônico |
| Óssea | Osteoblastos | Animais em crescimento, lise óssea, osteossarcoma, hipertireoidismo felino |
No cão, a FA é uma enzima “sensível, mas pouco específica”. Ela sobe com colestase, com corticoide (endógeno ou exógeno, inclusive tópico em alguns casos), com fenobarbital e em doenças sistêmicas que afetam secundariamente o fígado. Um aumento isolado e acentuado de FA em cão idoso com poliúria, polifagia e abdome abaulado faz pensar em hiperadrenocorticismo.
No gato, a história é outra. O fígado felino tem pouca FA, a meia-vida plasmática da enzima é curta (horas, contra alguns dias no cão) e não existe isoforma induzida por corticoide. Resultado: qualquer aumento de FA no gato merece investigação. Causas clássicas: lipidose hepática, colangite, obstrução biliar, hipertireoidismo e diabetes mellitus.
GGT: o parceiro da FA
A GGT (gama-glutamiltransferase) também é uma enzima de indução, concentrada no epitélio biliar. Ela costuma subir junto com a FA na colestase.
- Cão: também é induzida por corticoide, mas é um pouco mais específica para doença hepatobiliar que a FA.
- Gato: em geral, a GGT é mais sensível que a FA para colangite e obstrução biliar. A exceção famosa é a lipidose hepática, em que a FA sobe bastante e a GGT fica normal ou só levemente alta.
- Grandes animais: em bovinos e equinos, a GGT é um dos principais marcadores de doença hepatobiliar.
- Neonatos: filhotes que mamaram colostro podem ter GGT e FA altas sem doença.
Lesão x função: o que realmente mede o fígado
O fígado tem enorme reserva funcional. Sinais laboratoriais de insuficiência costumam aparecer quando boa parte da massa funcional já foi perdida, enquanto as enzimas podem subir com lesões pequenas.
| Exame | Por que muda na insuficiência hepática | Cuidado na interpretação |
|---|---|---|
| Bilirrubina | O fígado capta, conjuga e excreta | Descarte hemólise (pré-hepática) e obstrução (pós-hepática) |
| Albumina | Síntese exclusivamente hepática | Também cai em perdas renais e intestinais e na inflamação |
| Ureia | O ciclo da ureia é hepático | Baixa também em dieta pobre em proteína e poliúria |
| Glicose | Gliconeogênese e glicogênio | Hipoglicemia aparece em insuficiência grave e no shunt |
| Colesterol | Síntese hepática | Baixo no shunt e na insuficiência; alto na colestase |
| Ácidos biliares | Recirculação êntero-hepática | Teste sensível de função; perde utilidade se já houver icterícia não hemolítica |
| Fatores de coagulação | Síntese hepática | TP e TTPa prolongam em insuficiência grave |
Para revisar o caminho da bilirrubina, veja fisiologia hepática e bilirrubina. Para entender a albumina e as globulinas, siga para proteínas totais, albumina e globulinas.
- 1Padrão predominante
ALT mais alta que FA sugere lesão hepatocelular; FA e GGT predominando sugerem colestase ou indução.
- 2Espécie e fármacos
Cão em uso de corticoide ou fenobarbital? Gato com qualquer aumento de FA? Ajuste a interpretação.
- 3Função
Confira bilirrubina, albumina, ureia, glicose, colesterol e, se necessário, ácidos biliares pré e pós-prandiais.
- 4Primária ou secundária
Muitas doenças extra-hepáticas (endocrinopatias, pancreatite, sepse) alteram as enzimas. Imagem e histórico ajudam a separar.
Revise em 1 minuto
Um cão em tratamento com prednisolona apresenta FA bem aumentada, GGT discretamente alta e função hepática normal. A explicação mais provável é:
Corticoides induzem uma isoforma de FA exclusiva do cão e também podem aumentar GGT, sem perda de função.
Em qual espécie um aumento moderado de FA é considerado mais significativo, por causa da meia-vida curta da enzima?
O gato tem pouca FA hepática e meia-vida curta, então qualquer aumento reflete produção ativa e doença relevante.
Qual achado indica melhor PERDA DE FUNÇÃO hepática do que lesão?
Ácidos biliares, ureia e albumina dependem da capacidade do fígado de captar, metabolizar e sintetizar; enzimas medem lesão ou indução.
Um gato obeso, anoréxico há uma semana, ictérico, com FA muito alta e GGT normal. A principal suspeita é:
A dissociação FA alta com GGT normal ou pouco alterada é característica da lipidose hepática felina.
No próximo passo da trilha: proteínas totais, albumina e globulinas.
Referências
- Thrall, M. A. et al. Hematologia e Bioquímica Clínica Veterinária. 2. ed. Rio de Janeiro: Roca, 2015.
- Stockham, S. L.; Scott, M. A. Fundamentals of Veterinary Clinical Pathology. 2. ed. Ames: Blackwell, 2008.
- Kaneko, J. J.; Harvey, J. W.; Bruss, M. L. Clinical Biochemistry of Domestic Animals. 6. ed. San Diego: Academic Press, 2008.
- Nelson, R. W.; Couto, C. G. Medicina Interna de Pequenos Animais. 5. ed. Rio de Janeiro: Elsevier, 2015.
- Washabau, R. J.; Day, M. J. Canine and Feline Gastroenterology. St. Louis: Elsevier Saunders, 2013.
Conteúdo educativo. Valores de referência variam entre laboratórios, equipamentos e literatura — sempre confira os intervalos do seu laboratório e a bibliografia oficial antes de aplicar na rotina.


