Eixo hipotálamo-hipófise-adrenal e hiperadrenocorticismo

Do CRH ao cortisol: entenda o eixo hipotálamo-hipófise-adrenal, os sinais e exames do hiperadrenocorticismo canino e como escolher o teste certo.

Por Equipe AjudaVet··6 min de leitura
Ilustração de um poodle idoso com abdome pendular e pelagem rala bebendo água, com cérebro e glândulas adrenais estilizados ao fundo

Uma cadela Poodle de 10 anos chega bebendo água “sem parar”, com barriga caída, pelagem rala e um apetite que o tutor descreve como “insaciável”. Antes de pedir qualquer teste, você precisa entender o eixo hipotálamo-hipófise-adrenal (HHA) — porque o hiperadrenocorticismo (síndrome de Cushing) nada mais é do que esse eixo funcionando fora do controle.

O eixo HHA em cascata (e o freio do feedback)

Pense no eixo como um termostato. O hipotálamo libera o hormônio liberador de corticotrofina (CRH) no sistema porta-hipofisário. O CRH estimula os corticotrofos da adeno-hipófise a secretar ACTH, que age na zona fasciculada do córtex adrenal estimulando a síntese de cortisol.

O cortisol circulante então inibe a liberação de CRH e de ACTH: é o feedback negativo. Quando o cortisol sobe, o estímulo cai; quando cai, o estímulo volta. Estresse, dor e doença intensa “sobrepõem” esse freio e aumentam o cortisol de forma fisiológica — por isso um animal doente por outro motivo pode ter cortisol alto sem ter Cushing.

Zona do córtex adrenal Hormônio principal Controle principal
Glomerulosa (externa) Aldosterona Sistema renina-angiotensina e potássio
Fasciculada (média) Cortisol ACTH
Reticular (interna) Andrógenos/esteroides sexuais ACTH

Os efeitos do cortisol explicam todos os sinais: aumenta a gliconeogênese, provoca catabolismo proteico (músculo e pele), redistribui gordura, suprime a resposta inflamatória e imune e interfere na ação do ADH nos túbulos renais.

Diagrama do eixo hipotálamo-hipófise-adrenal com setas de feedback negativo e, ao lado, hipófise aumentada que ignora o feedback
O cortisol normalmente freia o hipotálamo e a hipófise. No hiperadrenocorticismo hipófise-dependente, a hipófise ignora o freio e continua secretando ACTH.

Hipófise-dependente x adrenal-dependente

Hipófise-dependente (HHD)

  • Aproximadamente 80–85% dos casos caninos
  • Geralmente microadenoma hipofisário secretando ACTH em excesso
  • Feedback negativo falha: a hipófise ignora o cortisol alto
  • ACTH endógeno normal a alto
  • Imagem: adrenais bilateralmente aumentadas ou normais

Adrenal-dependente (TAD)

  • Aproximadamente 15–20% dos casos caninos
  • Adenoma ou carcinoma adrenal produzindo cortisol de forma autônoma
  • Feedback funciona: o cortisol alto suprime o ACTH
  • ACTH endógeno baixo
  • Imagem: massa unilateral com atrofia da adrenal contralateral

Existe ainda o hiperadrenocorticismo iatrogênico, causado pelo uso prolongado de glicocorticoides exógenos. Nele o paciente tem sinais de Cushing, mas as adrenais estão atrofiadas pelo feedback negativo — e a resposta ao teste de estimulação com ACTH é baixa. Sempre pergunte sobre medicações, inclusive colírios, pomadas e otológicos com corticoide.

Sinais clínicos clássicos

O Cushing canino é uma doença típica de cães de meia-idade a idosos, com raças pequenas (Poodle, Dachshund, terriers) bastante representadas na forma hipofisária. A evolução é lenta, e muitos tutores atribuem os sinais à “idade”.

  • Poliúria e polidipsia (PU/PD): o cortisol interfere na ação do ADH e pode aumentar a taxa de filtração. É o sinal mais comum.
  • Polifagia: efeito direto dos glicocorticoides no apetite.
  • Abdome pendular: fraqueza da musculatura abdominal (catabolismo proteico) somada a hepatomegalia e redistribuição de gordura.
  • Alopecia bilateral simétrica, pele fina, comedões, hiperpigmentação e, às vezes, calcinose cutânea.
  • Fraqueza muscular, intolerância ao exercício e ofegação excessiva.
  • Infecções recorrentes (pele, trato urinário) pela imunossupressão — muitas vezes sem piúria na urinálise.

Em gatos a doença é rara e costuma vir associada a diabetes mellitus de difícil controle e pele extremamente frágil.

Achados laboratoriais que levantam a suspeita

Exame Achado típico Por quê
Hemograma Leucograma de estresse: neutrofilia, linfopenia, eosinopenia, às vezes monocitose Efeito direto do cortisol
Bioquímica FA muito elevada (o achado mais frequente no cão) Indução de uma isoenzima hepática pelo corticoide e hepatopatia vacuolar
Bioquímica ALT leve a moderadamente alta Hepatopatia por esteroides
Bioquímica Hipercolesterolemia e hipertrigliceridemia Alteração do metabolismo lipídico
Bioquímica Hiperglicemia discreta Gliconeogênese e resistência à insulina
Urinálise Urina diluída (densidade frequentemente abaixo de 1,020), proteinúria, possível ITU Interferência no ADH; lesão glomerular

Os intervalos de referência variam por laboratório. Revise o padrão do hemograma em leucograma de estresse e o significado da FA em enzimas hepáticas ALT, FA e GGT.

Testes diagnósticos: qual pergunta cada um responde

Raciocínio diagnóstico no cão com suspeita de Cushing
  1. 1
    Confirme que a suspeita é forte

    Sinais clínicos compatíveis + achados laboratoriais típicos. Descarte uso de corticoide exógeno.

  2. 2
    Relação cortisol:creatinina urinária (RCCU)

    Teste de alta sensibilidade e baixa especificidade. Resultado normal torna o Cushing improvável; resultado alto NÃO confirma, pois estresse e outras doenças também elevam. Idealmente com urina colhida em casa.

  3. 3
    Supressão com dexametasona em dose baixa (LDDS)

    Teste de triagem mais sensível no cão. No animal normal, a dexametasona suprime o ACTH e o cortisol cai. No Cushing, a supressão falha ao final do teste. Alguns padrões no ponto intermediário sugerem origem hipofisária.

  4. 4
    Estimulação com ACTH

    Avalia a reserva adrenal. Resposta exagerada apoia o Cushing; é menos sensível que a LDDS, mas é o teste de escolha para o Cushing iatrogênico e para monitorar o tratamento.

  5. 5
    Diferencie a origem

    Ultrassonografia das adrenais, ACTH endógeno e, em casos selecionados, tomografia ou ressonância da hipófise.

Supressão com dexametasona (LDDS)

  • Pergunta: o feedback negativo funciona?
  • Maior sensibilidade para HAC espontâneo
  • Pode ajudar a sugerir origem hipofisária
  • Sofre interferência de estresse e doenças concomitantes

Estimulação com ACTH

  • Pergunta: quanto a adrenal consegue produzir?
  • Maior especificidade, menor sensibilidade
  • Único que identifica o HAC iatrogênico
  • Usado na monitoração do tratamento

Conceito de tratamento (sem doses)

O objetivo é reduzir a ação do cortisol e controlar os sinais clínicos:

  • Trilostano: inibe a enzima 3-beta-hidroxiesteroide desidrogenase, bloqueando a síntese de cortisol. É o fármaco mais usado hoje e exige monitoração periódica com sinais clínicos e exames, pelo risco de hipoadrenocorticismo iatrogênico.
  • Mitotano: adrenocorticolítico (destrói seletivamente o córtex adrenal); uso mais restrito atualmente.
  • Adrenalectomia: opção para tumores adrenais ressecáveis, com cuidados perioperatórios intensos.
  • Radioterapia ou hipofisectomia: para macroadenomas hipofisários em centros especializados.

O ajuste de qualquer protocolo é individual e deve seguir o veterinário responsável e a literatura atualizada.

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Teste seu conhecimento0/4
  1. No hiperadrenocorticismo por tumor adrenal funcional, espera-se:

  2. Uma relação cortisol:creatinina urinária dentro do intervalo de referência em um cão com PU/PD indica que:

  3. Qual achado bioquímico é o mais frequente no cão com hiperadrenocorticismo?

  4. Um cão que usa prednisolona há meses tem sinais de Cushing. No teste de estimulação com ACTH, espera-se:

No próximo passo da trilha endócrina, vamos ao pâncreas: insulina, glucagon e diabetes mellitus em cães e gatos.

Referências

  1. Feldman, E. C.; Nelson, R. W.; Reusch, C. E.; Scott-Moncrieff, J. C. R.; Behrend, E. N. Canine and Feline Endocrinology. 4. ed. St. Louis: Elsevier Saunders, 2015.
  2. Nelson, R. W.; Couto, C. G. Medicina Interna de Pequenos Animais. 6. ed. Rio de Janeiro: Elsevier, 2023.
  3. Ettinger, S. J.; Feldman, E. C.; Côté, E. Textbook of Veterinary Internal Medicine. 8. ed. St. Louis: Elsevier, 2017.
  4. Klein, B. G. Cunningham — Tratado de Fisiologia Veterinária. 6. ed. Rio de Janeiro: Elsevier, 2021.
  5. Thrall, M. A. et al. Hematologia e Bioquímica Clínica Veterinária. 2. ed. Rio de Janeiro: Roca, 2015.

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