
Uma cadela Poodle de 10 anos chega bebendo água “sem parar”, com barriga caída, pelagem rala e um apetite que o tutor descreve como “insaciável”. Antes de pedir qualquer teste, você precisa entender o eixo hipotálamo-hipófise-adrenal (HHA) — porque o hiperadrenocorticismo (síndrome de Cushing) nada mais é do que esse eixo funcionando fora do controle.
O eixo HHA em cascata (e o freio do feedback)
Pense no eixo como um termostato. O hipotálamo libera o hormônio liberador de corticotrofina (CRH) no sistema porta-hipofisário. O CRH estimula os corticotrofos da adeno-hipófise a secretar ACTH, que age na zona fasciculada do córtex adrenal estimulando a síntese de cortisol.
O cortisol circulante então inibe a liberação de CRH e de ACTH: é o feedback negativo. Quando o cortisol sobe, o estímulo cai; quando cai, o estímulo volta. Estresse, dor e doença intensa “sobrepõem” esse freio e aumentam o cortisol de forma fisiológica — por isso um animal doente por outro motivo pode ter cortisol alto sem ter Cushing.
| Zona do córtex adrenal | Hormônio principal | Controle principal |
|---|---|---|
| Glomerulosa (externa) | Aldosterona | Sistema renina-angiotensina e potássio |
| Fasciculada (média) | Cortisol | ACTH |
| Reticular (interna) | Andrógenos/esteroides sexuais | ACTH |
Os efeitos do cortisol explicam todos os sinais: aumenta a gliconeogênese, provoca catabolismo proteico (músculo e pele), redistribui gordura, suprime a resposta inflamatória e imune e interfere na ação do ADH nos túbulos renais.

Hipófise-dependente x adrenal-dependente
Hipófise-dependente (HHD)
- Aproximadamente 80–85% dos casos caninos
- Geralmente microadenoma hipofisário secretando ACTH em excesso
- Feedback negativo falha: a hipófise ignora o cortisol alto
- ACTH endógeno normal a alto
- Imagem: adrenais bilateralmente aumentadas ou normais
Adrenal-dependente (TAD)
- Aproximadamente 15–20% dos casos caninos
- Adenoma ou carcinoma adrenal produzindo cortisol de forma autônoma
- Feedback funciona: o cortisol alto suprime o ACTH
- ACTH endógeno baixo
- Imagem: massa unilateral com atrofia da adrenal contralateral
Existe ainda o hiperadrenocorticismo iatrogênico, causado pelo uso prolongado de glicocorticoides exógenos. Nele o paciente tem sinais de Cushing, mas as adrenais estão atrofiadas pelo feedback negativo — e a resposta ao teste de estimulação com ACTH é baixa. Sempre pergunte sobre medicações, inclusive colírios, pomadas e otológicos com corticoide.
Sinais clínicos clássicos
O Cushing canino é uma doença típica de cães de meia-idade a idosos, com raças pequenas (Poodle, Dachshund, terriers) bastante representadas na forma hipofisária. A evolução é lenta, e muitos tutores atribuem os sinais à “idade”.
- Poliúria e polidipsia (PU/PD): o cortisol interfere na ação do ADH e pode aumentar a taxa de filtração. É o sinal mais comum.
- Polifagia: efeito direto dos glicocorticoides no apetite.
- Abdome pendular: fraqueza da musculatura abdominal (catabolismo proteico) somada a hepatomegalia e redistribuição de gordura.
- Alopecia bilateral simétrica, pele fina, comedões, hiperpigmentação e, às vezes, calcinose cutânea.
- Fraqueza muscular, intolerância ao exercício e ofegação excessiva.
- Infecções recorrentes (pele, trato urinário) pela imunossupressão — muitas vezes sem piúria na urinálise.
Em gatos a doença é rara e costuma vir associada a diabetes mellitus de difícil controle e pele extremamente frágil.
Achados laboratoriais que levantam a suspeita
| Exame | Achado típico | Por quê |
|---|---|---|
| Hemograma | Leucograma de estresse: neutrofilia, linfopenia, eosinopenia, às vezes monocitose | Efeito direto do cortisol |
| Bioquímica | FA muito elevada (o achado mais frequente no cão) | Indução de uma isoenzima hepática pelo corticoide e hepatopatia vacuolar |
| Bioquímica | ALT leve a moderadamente alta | Hepatopatia por esteroides |
| Bioquímica | Hipercolesterolemia e hipertrigliceridemia | Alteração do metabolismo lipídico |
| Bioquímica | Hiperglicemia discreta | Gliconeogênese e resistência à insulina |
| Urinálise | Urina diluída (densidade frequentemente abaixo de 1,020), proteinúria, possível ITU | Interferência no ADH; lesão glomerular |
Os intervalos de referência variam por laboratório. Revise o padrão do hemograma em leucograma de estresse e o significado da FA em enzimas hepáticas ALT, FA e GGT.
Testes diagnósticos: qual pergunta cada um responde
- 1Confirme que a suspeita é forte
Sinais clínicos compatíveis + achados laboratoriais típicos. Descarte uso de corticoide exógeno.
- 2Relação cortisol:creatinina urinária (RCCU)
Teste de alta sensibilidade e baixa especificidade. Resultado normal torna o Cushing improvável; resultado alto NÃO confirma, pois estresse e outras doenças também elevam. Idealmente com urina colhida em casa.
- 3Supressão com dexametasona em dose baixa (LDDS)
Teste de triagem mais sensível no cão. No animal normal, a dexametasona suprime o ACTH e o cortisol cai. No Cushing, a supressão falha ao final do teste. Alguns padrões no ponto intermediário sugerem origem hipofisária.
- 4Estimulação com ACTH
Avalia a reserva adrenal. Resposta exagerada apoia o Cushing; é menos sensível que a LDDS, mas é o teste de escolha para o Cushing iatrogênico e para monitorar o tratamento.
- 5Diferencie a origem
Ultrassonografia das adrenais, ACTH endógeno e, em casos selecionados, tomografia ou ressonância da hipófise.
Supressão com dexametasona (LDDS)
- Pergunta: o feedback negativo funciona?
- Maior sensibilidade para HAC espontâneo
- Pode ajudar a sugerir origem hipofisária
- Sofre interferência de estresse e doenças concomitantes
Estimulação com ACTH
- Pergunta: quanto a adrenal consegue produzir?
- Maior especificidade, menor sensibilidade
- Único que identifica o HAC iatrogênico
- Usado na monitoração do tratamento
Conceito de tratamento (sem doses)
O objetivo é reduzir a ação do cortisol e controlar os sinais clínicos:
- Trilostano: inibe a enzima 3-beta-hidroxiesteroide desidrogenase, bloqueando a síntese de cortisol. É o fármaco mais usado hoje e exige monitoração periódica com sinais clínicos e exames, pelo risco de hipoadrenocorticismo iatrogênico.
- Mitotano: adrenocorticolítico (destrói seletivamente o córtex adrenal); uso mais restrito atualmente.
- Adrenalectomia: opção para tumores adrenais ressecáveis, com cuidados perioperatórios intensos.
- Radioterapia ou hipofisectomia: para macroadenomas hipofisários em centros especializados.
O ajuste de qualquer protocolo é individual e deve seguir o veterinário responsável e a literatura atualizada.
Revise em 1 minuto
No hiperadrenocorticismo por tumor adrenal funcional, espera-se:
O tumor produz cortisol de forma autônoma; o feedback negativo suprime o ACTH, e a adrenal do outro lado atrofia por falta de estímulo.
Uma relação cortisol:creatinina urinária dentro do intervalo de referência em um cão com PU/PD indica que:
A RCCU é muito sensível e pouco específica: serve bem para excluir, mas um resultado alto não confirma a doença.
Qual achado bioquímico é o mais frequente no cão com hiperadrenocorticismo?
Os glicocorticoides induzem uma isoenzima da FA e causam hepatopatia vacuolar, elevando bastante a FA.
Um cão que usa prednisolona há meses tem sinais de Cushing. No teste de estimulação com ACTH, espera-se:
O corticoide exógeno suprime o ACTH por feedback negativo, e as adrenais atrofiam: a reserva adrenal fica reduzida.
No próximo passo da trilha endócrina, vamos ao pâncreas: insulina, glucagon e diabetes mellitus em cães e gatos.
Referências
- Feldman, E. C.; Nelson, R. W.; Reusch, C. E.; Scott-Moncrieff, J. C. R.; Behrend, E. N. Canine and Feline Endocrinology. 4. ed. St. Louis: Elsevier Saunders, 2015.
- Nelson, R. W.; Couto, C. G. Medicina Interna de Pequenos Animais. 6. ed. Rio de Janeiro: Elsevier, 2023.
- Ettinger, S. J.; Feldman, E. C.; Côté, E. Textbook of Veterinary Internal Medicine. 8. ed. St. Louis: Elsevier, 2017.
- Klein, B. G. Cunningham — Tratado de Fisiologia Veterinária. 6. ed. Rio de Janeiro: Elsevier, 2021.
- Thrall, M. A. et al. Hematologia e Bioquímica Clínica Veterinária. 2. ed. Rio de Janeiro: Roca, 2015.
Conteúdo educativo. Valores de referência variam entre laboratórios, equipamentos e literatura — sempre confira os intervalos do seu laboratório e a bibliografia oficial antes de aplicar na rotina.


