
Um Golden Retriever de 7 anos engordou, dorme o dia todo e tem a cauda “de rato”. Um gato de 14 anos come como nunca e, mesmo assim, só emagrece. Os dois casos envolvem a mesma glândula, a tireoide, mas em direções opostas: hipotireoidismo é a endocrinopatia clássica do cão, e hipertireoidismo é a do gato idoso.
O eixo tireoidiano e a conversão periférica
O TRH hipotalâmico estimula a hipófise a liberar TSH, que estimula a tireoide a captar iodo e sintetizar hormônios. A glândula secreta sobretudo tiroxina (T4) e uma pequena fração de tri-iodotironina (T3).
Nos tecidos, desiodases removem um iodo do T4 e geram T3, a forma que se liga com mais afinidade ao receptor nuclear. Ou seja: o T4 funciona em grande parte como pró-hormônio. Quando T4 e T3 sobem, inibem TRH e TSH (feedback negativo).
Mais de 99% do T4 circula ligado a proteínas; só a fração livre entra nas células e exerce efeito. Essa diferença é a base dos exames.
| Efeito do hormônio tireoidiano | Excesso (hiper) | Falta (hipo) |
|---|---|---|
| Taxa metabólica | Alta: perda de peso, intolerância ao calor | Baixa: ganho de peso, procura de calor |
| Coração | Taquicardia, sopro, hipertrofia | Bradicardia |
| Pele e pelo | Pelagem descuidada | Alopecia, pele espessa, seborreia |
| Lipídios | Colesterol tende a cair | Hipercolesterolemia |
| Rim | TFG aumentada | TFG reduzida |

Hipotireoidismo canino
Em mais de 95% dos cães a causa é primária: tireoidite linfocítica (imunomediada) ou atrofia idiopática da glândula. Afeta cães de meia-idade, com raças médias a grandes bem representadas (Golden Retriever, Doberman, Labrador, entre outras).
Sinais típicos:
- Letargia, intolerância ao exercício e procura por lugares quentes;
- Ganho de peso sem aumento do apetite;
- Alopecia bilateral não pruriginosa, “cauda de rato”, pelagem que não volta após tosa, seborreia e piodermite recorrente;
- Face “trágica” por mixedema, bradicardia e, menos comumente, sinais neuromusculares.
No laboratório: hipercolesterolemia (muito frequente) e anemia não regenerativa leve, normocítica e normocrômica — revise o raciocínio em anemia regenerativa x não regenerativa.
Como interpretar os exames de tireoide no cão
T4 total
- Ótimo teste de triagem: T4 total normal torna o hipotireoidismo improvável
- Valor baixo não confirma: cai em doenças não tireoidianas e com alguns fármacos
- Lebréis (como Greyhound) têm valores naturalmente mais baixos
T4 livre por diálise de equilíbrio
- Mede a fração que realmente entra nas células
- Sofre menos interferência de doenças concomitantes
- A diálise de equilíbrio é o método de referência
- Combinado ao TSH, aumenta a especificidade
O TSH canino deveria subir no hipotireoidismo primário (a hipófise tenta compensar), mas cerca de um quarto a um terço dos cães hipotireóideos têm TSH normal. Por isso, o padrão mais confiável é a combinação: T4 (total ou livre) baixo e TSH alto, em um cão com sinais compatíveis.
- 1Sinais compatíveis?
Letargia, ganho de peso, alterações dermatológicas, hipercolesterolemia. Sem clínica, não teste por rotina.
- 2Descarte doença concomitante e fármacos
Investigue doenças sistêmicas e medicações que reduzem T4.
- 3T4 total como triagem
Normal: hipotireoidismo improvável. Baixo: siga adiante.
- 4T4 livre por diálise + TSH
T4 livre baixo com TSH alto apoia fortemente o diagnóstico.
- 5Resposta ao tratamento
Melhora clínica com levotiroxina, monitorada por exames, reforça o diagnóstico.
Hipertireoidismo felino
É a endocrinopatia mais comum do gato idoso (geralmente acima de 8 a 10 anos). A causa mais frequente é hiperplasia adenomatosa ou adenoma benigno da tireoide, uni ou bilateral; o carcinoma é raro.
Sinais clássicos:
- Perda de peso com polifagia (o par mais característico);
- Taquicardia, sopro, ritmo de galope e possível cardiomiopatia hipertrófica secundária;
- Hipertensão arterial sistêmica, com risco de lesão de retina;
- PU/PD, vômito, hiperatividade e pelagem descuidada;
- Nódulo cervical palpável (tireoide aumentada deslizando ao lado da traqueia).
No laboratório, é comum o aumento de ALT e FA, e o diagnóstico costuma vir de um T4 total elevado. Em casos iniciais ou com doença concomitante, o T4 total pode ficar na faixa alta do normal; aí o T4 livre ajuda, mas ele isolado pode dar falso-positivo em gatos doentes.
Para revisar a repercussão hemodinâmica, veja pressão arterial e barorreflexo.
Hipertireoidismo e rim: a DRC mascarada
O excesso de hormônio tireoidiano aumenta o débito cardíaco e o fluxo sanguíneo renal, elevando a taxa de filtração glomerular. Ao mesmo tempo, a perda de massa muscular reduz a creatinina. Resultado: um gato com DRC pode ter creatinina “normal” enquanto está hipertireóideo.
Quando o hipertireoidismo é tratado, a TFG cai e a azotemia pode aparecer. Por isso, muitos clínicos fazem uma fase de teste reversível com fármacos antitireoidianos (como metimazol, que inibe a peroxidase tireoidiana) antes de tratamentos definitivos, como iodo radioativo ou tireoidectomia. Dieta com restrição de iodo é outra estratégia. Doses e escolhas são individuais. Entenda a fisiologia em taxa de filtração glomerular.
Revise em 1 minuto
Cão internado por pneumonia grave tem T4 total baixo, sem sinais dermatológicos ou ganho de peso. A melhor conduta é:
Doenças sistêmicas reduzem o T4 em cães com tireoide normal. Trate a pneumonia e reavalie a tireoide depois, se houver sinais.
Qual combinação mais apoia o hipotireoidismo primário no cão?
Com a tireoide falhando, o T4 cai e a hipófise aumenta o TSH tentando compensar.
Qual achado é típico do hipertireoidismo felino?
O hipermetabolismo consome reservas apesar do apetite aumentado e acelera a frequência cardíaca.
Gato hipertireóideo com creatinina normal começa o tratamento e, semanas depois, fica azotêmico. A explicação mais provável é:
O hipertireoidismo eleva a TFG e reduz a massa muscular; ao corrigi-lo, a DRC existente se torna visível.
No próximo passo da trilha endócrina: hipoadrenocorticismo, o grande imitador.
Referências
- Feldman, E. C.; Nelson, R. W.; Reusch, C. E.; Scott-Moncrieff, J. C. R.; Behrend, E. N. Canine and Feline Endocrinology. 4. ed. St. Louis: Elsevier Saunders, 2015.
- Nelson, R. W.; Couto, C. G. Medicina Interna de Pequenos Animais. 6. ed. Rio de Janeiro: Elsevier, 2023.
- Ettinger, S. J.; Feldman, E. C.; Côté, E. Textbook of Veterinary Internal Medicine. 8. ed. St. Louis: Elsevier, 2017.
- Klein, B. G. Cunningham — Tratado de Fisiologia Veterinária. 6. ed. Rio de Janeiro: Elsevier, 2021.
- Stockham, S. L.; Scott, M. A. Fundamentals of Veterinary Clinical Pathology. 2. ed. Ames: Blackwell, 2008.
Conteúdo educativo. Valores de referência variam entre laboratórios, equipamentos e literatura — sempre confira os intervalos do seu laboratório e a bibliografia oficial antes de aplicar na rotina.


