Tireoide: hipotireoidismo canino e hipertireoidismo felino

Eixo TRH-TSH-T4, T4 total, T4 livre e TSH: como reconhecer o hipotireoidismo no cão, o hipertireoidismo no gato idoso e evitar as armadilhas.

Por Equipe AjudaVet··6 min de leitura
Ilustração de um golden retriever sonolento e acima do peso ao lado de um gato idoso magro e agitado comendo, com uma tireoide em forma de borboleta entre eles

Um Golden Retriever de 7 anos engordou, dorme o dia todo e tem a cauda “de rato”. Um gato de 14 anos come como nunca e, mesmo assim, só emagrece. Os dois casos envolvem a mesma glândula, a tireoide, mas em direções opostas: hipotireoidismo é a endocrinopatia clássica do cão, e hipertireoidismo é a do gato idoso.

O eixo tireoidiano e a conversão periférica

O TRH hipotalâmico estimula a hipófise a liberar TSH, que estimula a tireoide a captar iodo e sintetizar hormônios. A glândula secreta sobretudo tiroxina (T4) e uma pequena fração de tri-iodotironina (T3).

Nos tecidos, desiodases removem um iodo do T4 e geram T3, a forma que se liga com mais afinidade ao receptor nuclear. Ou seja: o T4 funciona em grande parte como pró-hormônio. Quando T4 e T3 sobem, inibem TRH e TSH (feedback negativo).

Mais de 99% do T4 circula ligado a proteínas; só a fração livre entra nas células e exerce efeito. Essa diferença é a base dos exames.

Efeito do hormônio tireoidiano Excesso (hiper) Falta (hipo)
Taxa metabólica Alta: perda de peso, intolerância ao calor Baixa: ganho de peso, procura de calor
Coração Taquicardia, sopro, hipertrofia Bradicardia
Pele e pelo Pelagem descuidada Alopecia, pele espessa, seborreia
Lipídios Colesterol tende a cair Hipercolesterolemia
Rim TFG aumentada TFG reduzida
Tireoide liberando hormônios no sangue, a maioria ligada a proteínas transportadoras, e poucas moléculas livres entrando na célula e sendo convertidas na forma ativa
A tireoide libera principalmente T4, quase todo ligado a proteínas. Só a fração livre entra nas células, onde é convertida em T3, a forma mais ativa.

Hipotireoidismo canino

Em mais de 95% dos cães a causa é primária: tireoidite linfocítica (imunomediada) ou atrofia idiopática da glândula. Afeta cães de meia-idade, com raças médias a grandes bem representadas (Golden Retriever, Doberman, Labrador, entre outras).

Sinais típicos:

  • Letargia, intolerância ao exercício e procura por lugares quentes;
  • Ganho de peso sem aumento do apetite;
  • Alopecia bilateral não pruriginosa, “cauda de rato”, pelagem que não volta após tosa, seborreia e piodermite recorrente;
  • Face “trágica” por mixedema, bradicardia e, menos comumente, sinais neuromusculares.

No laboratório: hipercolesterolemia (muito frequente) e anemia não regenerativa leve, normocítica e normocrômica — revise o raciocínio em anemia regenerativa x não regenerativa.

Como interpretar os exames de tireoide no cão

T4 total

  • Ótimo teste de triagem: T4 total normal torna o hipotireoidismo improvável
  • Valor baixo não confirma: cai em doenças não tireoidianas e com alguns fármacos
  • Lebréis (como Greyhound) têm valores naturalmente mais baixos

T4 livre por diálise de equilíbrio

  • Mede a fração que realmente entra nas células
  • Sofre menos interferência de doenças concomitantes
  • A diálise de equilíbrio é o método de referência
  • Combinado ao TSH, aumenta a especificidade

O TSH canino deveria subir no hipotireoidismo primário (a hipófise tenta compensar), mas cerca de um quarto a um terço dos cães hipotireóideos têm TSH normal. Por isso, o padrão mais confiável é a combinação: T4 (total ou livre) baixo e TSH alto, em um cão com sinais compatíveis.

Raciocínio diagnóstico no cão
  1. 1
    Sinais compatíveis?

    Letargia, ganho de peso, alterações dermatológicas, hipercolesterolemia. Sem clínica, não teste por rotina.

  2. 2
    Descarte doença concomitante e fármacos

    Investigue doenças sistêmicas e medicações que reduzem T4.

  3. 3
    T4 total como triagem

    Normal: hipotireoidismo improvável. Baixo: siga adiante.

  4. 4
    T4 livre por diálise + TSH

    T4 livre baixo com TSH alto apoia fortemente o diagnóstico.

  5. 5
    Resposta ao tratamento

    Melhora clínica com levotiroxina, monitorada por exames, reforça o diagnóstico.

Hipertireoidismo felino

É a endocrinopatia mais comum do gato idoso (geralmente acima de 8 a 10 anos). A causa mais frequente é hiperplasia adenomatosa ou adenoma benigno da tireoide, uni ou bilateral; o carcinoma é raro.

Sinais clássicos:

  • Perda de peso com polifagia (o par mais característico);
  • Taquicardia, sopro, ritmo de galope e possível cardiomiopatia hipertrófica secundária;
  • Hipertensão arterial sistêmica, com risco de lesão de retina;
  • PU/PD, vômito, hiperatividade e pelagem descuidada;
  • Nódulo cervical palpável (tireoide aumentada deslizando ao lado da traqueia).

No laboratório, é comum o aumento de ALT e FA, e o diagnóstico costuma vir de um T4 total elevado. Em casos iniciais ou com doença concomitante, o T4 total pode ficar na faixa alta do normal; aí o T4 livre ajuda, mas ele isolado pode dar falso-positivo em gatos doentes.

Para revisar a repercussão hemodinâmica, veja pressão arterial e barorreflexo.

Hipertireoidismo e rim: a DRC mascarada

O excesso de hormônio tireoidiano aumenta o débito cardíaco e o fluxo sanguíneo renal, elevando a taxa de filtração glomerular. Ao mesmo tempo, a perda de massa muscular reduz a creatinina. Resultado: um gato com DRC pode ter creatinina “normal” enquanto está hipertireóideo.

Quando o hipertireoidismo é tratado, a TFG cai e a azotemia pode aparecer. Por isso, muitos clínicos fazem uma fase de teste reversível com fármacos antitireoidianos (como metimazol, que inibe a peroxidase tireoidiana) antes de tratamentos definitivos, como iodo radioativo ou tireoidectomia. Dieta com restrição de iodo é outra estratégia. Doses e escolhas são individuais. Entenda a fisiologia em taxa de filtração glomerular.

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  1. Cão internado por pneumonia grave tem T4 total baixo, sem sinais dermatológicos ou ganho de peso. A melhor conduta é:

  2. Qual combinação mais apoia o hipotireoidismo primário no cão?

  3. Qual achado é típico do hipertireoidismo felino?

  4. Gato hipertireóideo com creatinina normal começa o tratamento e, semanas depois, fica azotêmico. A explicação mais provável é:

No próximo passo da trilha endócrina: hipoadrenocorticismo, o grande imitador.

Referências

  1. Feldman, E. C.; Nelson, R. W.; Reusch, C. E.; Scott-Moncrieff, J. C. R.; Behrend, E. N. Canine and Feline Endocrinology. 4. ed. St. Louis: Elsevier Saunders, 2015.
  2. Nelson, R. W.; Couto, C. G. Medicina Interna de Pequenos Animais. 6. ed. Rio de Janeiro: Elsevier, 2023.
  3. Ettinger, S. J.; Feldman, E. C.; Côté, E. Textbook of Veterinary Internal Medicine. 8. ed. St. Louis: Elsevier, 2017.
  4. Klein, B. G. Cunningham — Tratado de Fisiologia Veterinária. 6. ed. Rio de Janeiro: Elsevier, 2021.
  5. Stockham, S. L.; Scott, M. A. Fundamentals of Veterinary Clinical Pathology. 2. ed. Ames: Blackwell, 2008.

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