
Você recebe o hemograma de um cão internado: leucócitos aumentados, neutrófilos lá em cima, linfócitos baixos. É infecção? É o estresse da internação? Ou é só o animal que se debateu na coleta? Saber diferenciar leucograma de estresse, leucocitose fisiológica (excitação) e leucograma inflamatório evita antibiótico desnecessário — e evita ignorar um paciente que está piorando.
Os compartimentos de neutrófilos: onde eles estão?
Para entender qualquer leucograma, pense nos neutrófilos distribuídos em “lugares” diferentes:
- Medula óssea — tem o compartimento de proliferação e maturação (mieloblasto até metamielócito) e o compartimento de reserva (bastonetes e segmentados prontos para sair). O tamanho da reserva varia entre espécies: é grande no cão e pequena nos ruminantes.
- Sangue — dividido em pool circulante (células que fluem livremente e entram no tubo de coleta) e pool marginal (células aderidas ao endotélio, sobretudo de vênulas e capilares). No cão, os dois têm tamanho parecido; no gato, o marginal é em geral cerca de três vezes maior que o circulante.
- Tecidos — destino final. O neutrófilo permanece no sangue por poucas horas (meia-vida de aproximadamente 5 a 10 horas) e migra para os tecidos sem voltar.
A pegadinha é esta: o hemograma mede apenas o pool circulante. Se células saem do pool marginal para o circulante, a contagem sobe sem que a medula tenha produzido nada a mais. É exatamente o que acontece na excitação e, em parte, no estresse.

Leucograma de estresse (corticoide)
O cortisol endógeno (dor, doença sistêmica, hiperadrenocorticismo) ou glicocorticoides exógenos produzem um padrão bem reconhecível, que aparece em algumas horas e persiste enquanto o estímulo continuar.
Por que cada alteração acontece:
- Neutrofilia madura — os glicocorticoides reduzem a adesão ao endotélio (menos marginação), diminuem a saída para os tecidos e liberam células da reserva medular. Resultado: mais segmentados circulando, em geral sem desvio à esquerda importante e com aumento discreto a moderado.
- Linfopenia — redistribuição dos linfócitos para linfonodos e medula e, com exposição prolongada, linfólise. É o achado mais consistente do padrão.
- Eosinopenia — sequestro tecidual e menor liberação medular. Isoladamente é pouco específica.
- Monocitose — comum no cão; em outras espécies é inconstante.
Um detalhe útil: em um cão doente e estressado, linfócitos normais ou altos devem chamar a atenção. A ausência de linfopenia esperada pode sugerir hipoadrenocorticismo, por exemplo — um raciocínio clássico de prova e de rotina.
Leucocitose fisiológica (epinefrina)
Medo, excitação ou exercício intenso liberam epinefrina. O aumento do débito cardíaco e do fluxo sanguíneo “lava” o pool marginal, deslocando neutrófilos e linfócitos para a circulação.
- Aparece em minutos e desaparece em geral em menos de uma hora.
- Neutrofilia madura + linfocitose — esse é o diferencial em relação ao estresse.
- É especialmente marcante em gatos (lembra do pool marginal grande?), em animais jovens e em equinos agitados. No gato, a linfocitose pode ser bem expressiva.
- Não há desvio à esquerda nem alterações tóxicas.
Estresse (corticoide)
- Mediado por cortisol
- Surge em horas e persiste enquanto houver estímulo
- Neutrofilia madura
- Linfopenia e eosinopenia
- Monocitose frequente no cão
Excitação (epinefrina)
- Mediado por epinefrina
- Surge em minutos e some em geral em menos de 1 hora
- Neutrofilia madura
- Linfocitose
- Clássico do gato jovem e assustado
Leucograma inflamatório: desvio à esquerda e toxicidade
Na inflamação, citocinas estimulam a medula a liberar a reserva e acelerar a produção. Quando a demanda tecidual é alta, a medula passa a liberar células imaturas — principalmente bastonetes. Isso é o desvio à esquerda.
- Desvio à esquerda regenerativo — neutrofilia com aumento de bastonetes, mas os segmentados continuam predominando. A medula está conseguindo responder à demanda.
- Desvio à esquerda degenerativo — contagem de neutrófilos normal ou baixa, com imaturos em número igual ou maior que os segmentados. A demanda tecidual superou a capacidade medular: sinal de inflamação grave (sepse, peritonite, piometra complicada) e, em geral, de pior prognóstico.
Alterações tóxicas
São mudanças morfológicas vistas no esfregaço e refletem granulopoese acelerada na medula (maturação “atropelada”), e não um dano sofrido pelo neutrófilo na circulação:
- Corpúsculos de Döhle — inclusões azul-acinzentadas no citoplasma, formadas por retículo endoplasmático rugoso retido. Em gatos, alguns podem ser vistos com estímulos discretos.
- Basofilia citoplasmática — citoplasma azulado pela persistência de ribossomos.
- Vacuolização (citoplasma espumoso) — costuma indicar toxicidade mais intensa.
- Granulação tóxica — menos comum, mais vista em grandes animais.
O laboratório costuma graduar a toxicidade (discreta, moderada, acentuada). Quanto mais intensa, mais grave tende a ser o processo inflamatório.
E quando os neutrófilos caem? Neutropenia em conceito
Pense em três mecanismos:
- Consumo aumentado — inflamação peraguda ou sepse, em que a migração para os tecidos supera a liberação medular. Frequentemente acompanhada de desvio degenerativo.
- Produção reduzida — lesão das células precursoras: parvovirose, FeLV, quimioterápicos, toxicidade por estrógeno, mieloftise (medula ocupada por neoplasia ou fibrose).
- Desvio para o pool marginal — a endotoxemia aumenta a adesão endotelial e “esconde” neutrófilos, geralmente de forma transitória.
Existem ainda causas imunomediadas. Neutropenia persistente sem explicação clara costuma justificar avaliação de medula óssea.
Contagem absoluta x relativa: o erro mais comum
A porcentagem do diferencial depende de todos os outros tipos celulares. Por isso, interprete sempre o valor absoluto:
valor absoluto = leucócitos totais x porcentagem da célula
Exemplo: cão com 25.000 leucócitos/µL e 8% de linfócitos. Parece linfopenia pela porcentagem, mas 25.000 x 0,08 = 2.000 linfócitos/µL, que está dentro do intervalo de referência aproximado do cão (em torno de 1.000 a 4.800/µL, variando por laboratório). Não há linfopenia — há apenas muitos neutrófilos “diluindo” a porcentagem.
- 1Converta tudo em absoluto
Multiplique o total pela porcentagem de cada tipo celular antes de qualquer conclusão.
- 2Olhe os neutrófilos
Há neutrofilia ou neutropenia? Existem bastonetes ou outros imaturos acima da referência?
- 3Compare imaturos e segmentados
Segmentados predominando sugere desvio regenerativo; imaturos iguais ou maiores sugere desvio degenerativo.
- 4Procure alterações tóxicas
Döhle, basofilia e vacuolização reforçam inflamação com granulopoese acelerada.
- 5Avalie os linfócitos
Linfopenia sugere estresse; linfocitose em gato agitado sugere epinefrina.
- 6Junte com a clínica
Os padrões se sobrepõem: um paciente inflamado quase sempre também está estressado.
Tabela comparativa dos padrões
| Achado | Estresse (corticoide) | Excitação (epinefrina) | Inflamação |
|---|---|---|---|
| Neutrófilos | Aumento discreto a moderado, maduros | Aumento discreto, maduros | Aumento variável; pode haver neutropenia em casos graves |
| Desvio à esquerda | Ausente ou mínimo | Ausente | Presente (regenerativo ou degenerativo) |
| Alterações tóxicas | Ausentes | Ausentes | Frequentes |
| Linfócitos | Baixos | Altos (principalmente gato) | Normais ou baixos (estresse associado) |
| Eosinófilos | Baixos | Normais | Variáveis |
| Monócitos | Altos no cão | Normais | Podem aumentar, sobretudo em processos crônicos |
| Duração | Horas a dias | Minutos | Enquanto durar o processo |
Revise em 1 minuto
Gato jovem, muito agitado na coleta, apresenta neutrofilia madura e linfocitose, sem bastonetes e sem alterações tóxicas. A interpretação mais provável é:
A epinefrina mobiliza o pool marginal (grande no gato), elevando neutrófilos e linfócitos de forma transitória. O cortisol causaria linfopenia, e a inflamação costuma trazer desvio à esquerda ou toxicidade.
Cão com 4.000 neutrófilos/µL, sendo 2.200 bastonetes e 1.800 segmentados, com vacuolização citoplasmática. Isso caracteriza:
Os imaturos superam os segmentados e o total não está aumentado: a demanda tecidual excedeu a capacidade medular. A vacuolização reforça inflamação grave.
Um cão tem 30.000 leucócitos/µL e 6% de linfócitos. Considerando referência aproximada de 1.000 a 4.800 linfócitos/µL, o correto é:
30.000 x 0,06 = 1.800 linfócitos/µL. A porcentagem baixa reflete apenas o excesso de neutrófilos. Sempre interprete o valor absoluto.
As alterações tóxicas dos neutrófilos, como corpúsculos de Döhle e basofilia citoplasmática, indicam principalmente:
Elas resultam de maturação acelerada na medula, com retenção de organelas como ribossomos e retículo endoplasmático. Por isso acompanham inflamações com alta demanda.
Referências
- Thrall, M. A. et al. Hematologia e Bioquímica Clínica Veterinária. 2. ed. São Paulo: Roca/GEN, 2015.
- Stockham, S. L.; Scott, M. A. Fundamentals of Veterinary Clinical Pathology. 2. ed. Ames: Blackwell Publishing, 2008.
- Harvey, J. W. Veterinary Hematology: A Diagnostic Guide and Color Atlas. St. Louis: Elsevier Saunders, 2012.
- Weiss, D. J.; Wardrop, K. J. Schalm’s Veterinary Hematology. 6. ed. Ames: Wiley-Blackwell, 2010.
Conteúdo educativo. Valores de referência variam entre laboratórios, equipamentos e literatura — sempre confira os intervalos do seu laboratório e a bibliografia oficial antes de aplicar na rotina.


