Proteínas totais, albumina e globulinas

Como interpretar proteínas totais, albumina e globulinas em cães e gatos: refratômetro x bioquímica, hipoalbuminemia, gamopatias e a razão A:G na PIF.

Por Equipe AjudaVet··6 min de leitura
Ilustração de refratômetro e tubo de micro-hematócrito com plasma amarelo, partículas de proteínas de dois tamanhos e um cão e um gato ao fundo

Proteínas totais, albumina e globulinas aparecem em quase todo perfil bioquímico e no próprio tubo de micro-hematócrito — e muita gente só olha se estão “dentro” ou “fora”. Mas o par albumina x globulina conta uma história: o animal está desidratado? Está perdendo proteína pelo rim ou pelo intestino? Tem inflamação crônica, uma neoplasia ou PIF? Vamos ler essa história.

Refratômetro x bioquímica: o mesmo nome, medidas diferentes

Refratômetro

  • Mede o índice de refração do plasma do micro-hematócrito
  • Resultado: proteína plasmática (inclui fibrinogênio)
  • Rápido, barato, feito junto com o Ht
  • Superestimado por lipemia, hemólise e, em menor grau, hiperglicemia e azotemia

Bioquímica (método do biureto)

  • Reação química específica para ligações peptídicas
  • Resultado: proteína sérica (sem fibrinogênio)
  • Permite dosar albumina separadamente e calcular globulinas
  • Também sofre interferência de lipemia e hemólise intensas

Por isso, a PT do refratômetro costuma ser um pouco maior que a da bioquímica no mesmo animal. A diferença entre as duas (ou o método de precipitação pelo calor) é usada para estimar o fibrinogênio, uma proteína de fase aguda importante sobretudo em grandes animais.

Como valores didáticos e aproximados, a PT sérica de cães e gatos adultos fica em torno de 5,5 a 7,5 g/dL e a albumina em torno de 2,5 a 4,0 g/dL. Filhotes têm valores mais baixos, especialmente de globulinas, que sobem com a idade. Os intervalos variam entre laboratórios.

Desidratação: tudo sobe junto

Quando o animal perde água, as proteínas não somem — ficam mais concentradas. Resultado: PT, albumina e globulinas aumentam proporcionalmente, e a razão albumina:globulina (A:G) fica normal. Na mesma linha, o Ht também tende a subir.

Na prática, a desidratação é praticamente a única causa de hiperalbuminemia: o fígado não “fabrica albumina demais”. Se a albumina está alta, pense em hemoconcentração. A desidratação também pode mascarar uma hipoalbuminemia ou uma anemia, que só aparecem depois da fluidoterapia. Se o paciente tem azotemia junto, vale revisar azotemia pré-renal, renal e pós-renal.

Vaso com albumina e globulinas, mostrando o rim deixando passar só as partículas pequenas, o intestino perdendo ambas e o fígado produzindo menos albumina
O glomérulo perde seletivamente albumina; o intestino perde albumina e globulinas; o fígado doente produz menos albumina.

Hipoalbuminemia: perda, produção ou sequestro

A albumina responde por cerca de 75% a 80% da pressão oncótica do plasma. Quando ela cai muito (em geral abaixo de aproximadamente 1,5 g/dL, com grande variação individual), o líquido tende a escapar dos vasos: edema, ascite, efusão pleural.

Mecanismo Exemplos Pista no perfil
Perda renal (nefropatia perdedora de proteína) Glomerulonefrite, amiloidose glomerular Albumina baixa, globulinas normais; proteinúria e razão proteína:creatinina urinária alta
Perda intestinal (enteropatia perdedora de proteína) Linfangiectasia, enteropatias inflamatórias crônicas, linfoma intestinal Albumina e globulinas baixas (pan-hipoproteinemia); muitas vezes colesterol baixo
Perda por sangue ou pele Hemorragia, queimaduras, feridas exsudativas extensas Albumina e globulinas baixas
Menor produção Insuficiência hepática, desnutrição, má absorção Ureia, colesterol e glicose podem estar baixos; ácidos biliares altos se hepática
Inflamação A albumina é proteína de fase aguda negativa Albumina levemente baixa com globulinas altas
Sequestro Efusões cavitárias, vasculite Albumina “presa” fora do vaso

O raciocínio mais cobrado é o padrão da perda. O glomérulo funciona como peneira: a albumina, menor, passa antes; as globulinas, maiores, ficam. Por isso a nefropatia perdedora de proteína derruba seletivamente a albumina. Já no intestino, a perda é inespecífica: albumina e globulinas saem juntas. Confirme a proteinúria na urinálise completa.

Investigando hipoalbuminemia em 4 passos
  1. 1
    Confirme e olhe as globulinas

    Globulinas normais ou altas sugerem rim, fígado ou inflamação; globulinas baixas também sugerem intestino, sangue ou pele.

  2. 2
    Urina

    Sedimento inativo e razão proteína:creatinina urinária alta confirmam perda glomerular.

  3. 3
    Fígado

    Ureia, colesterol, glicose baixos e ácidos biliares altos apontam para menor produção.

  4. 4
    Intestino

    Diarreia crônica, perda de peso, colesterol e cobalamina baixos: investigue enteropatia perdedora de proteína.

Hiperglobulinemia: policlonal ou monoclonal?

As globulinas são um grupo heterogêneo: proteínas de fase aguda, transportadoras, complemento e imunoglobulinas. Na eletroforese de proteínas séricas, elas se separam em frações alfa-1, alfa-2, beta e gama, ao lado do pico de albumina.

  • Inflamação aguda tende a aumentar as frações alfa (proteínas de fase aguda).
  • Estímulo imune crônico aumenta as frações beta e gama (imunoglobulinas).

Gamopatia policlonal

  • Pico largo em beta/gama
  • Muitos clones de linfócitos B produzindo anticorpos
  • Inflamação e infecção crônicas: erliquiose, leishmaniose, dermatites e piodermites crônicas, PIF
  • Muito mais comum

Gamopatia monoclonal

  • Pico estreito, da largura do pico de albumina
  • Um único clone produzindo uma única imunoglobulina
  • Mieloma múltiplo, alguns linfomas e leucemias linfoides
  • Pode vir com proteinúria de Bence Jones, lise óssea e hiperviscosidade

Pegadinha importante: erliquiose e leishmaniose canina, que geralmente dão gamopatia policlonal, ocasionalmente produzem um pico monoclonal. Um pico estreito não fecha diagnóstico de mieloma sozinho.

PIF: albumina baixa, globulinas altas

Na peritonite infecciosa felina (PIF), a resposta imune exagerada ao coronavírus felino mutado produz hiperglobulinemia (geralmente policlonal) e, com frequência, hipoalbuminemia por inflamação e vasculite. Por isso a razão A:G costuma estar baixa.

Como referência didática, uma razão A:G abaixo de aproximadamente 0,4 aumenta bastante a suspeita de PIF, enquanto valores acima de aproximadamente 0,8 a tornam pouco provável. Entre esses limites, a razão sozinha não decide. A A:G é um exame de triagem: o diagnóstico depende do conjunto (idade, histórico, efusão rica em proteína e pobre em células, linfopenia, anemia leve, e exames específicos do líquido ou tecido).

Revise em 1 minuto

Flashcards de revisão clique para virar
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  1. Um cão com vômitos há 3 dias tem PT, albumina e globulinas aumentadas, com razão A:G normal e Ht alto. A explicação mais provável é:

  2. Qual padrão sugere mais nefropatia perdedora de proteína?

  3. Na eletroforese, um pico estreito na região gama, da largura do pico de albumina, é chamado de:

  4. Um gato jovem com efusão abdominal apresenta razão A:G de 0,9. Em relação à PIF, essa razão:

Quer voltar ao começo da trilha? Revise os índices hematimétricos ou o leucograma de estresse.

Referências

  1. Thrall, M. A. et al. Hematologia e Bioquímica Clínica Veterinária. 2. ed. Rio de Janeiro: Roca, 2015.
  2. Stockham, S. L.; Scott, M. A. Fundamentals of Veterinary Clinical Pathology. 2. ed. Ames: Blackwell, 2008.
  3. Kaneko, J. J.; Harvey, J. W.; Bruss, M. L. Clinical Biochemistry of Domestic Animals. 6. ed. San Diego: Academic Press, 2008.
  4. Nelson, R. W.; Couto, C. G. Medicina Interna de Pequenos Animais. 5. ed. Rio de Janeiro: Elsevier, 2015.

Conteúdo educativo. Valores de referência variam entre laboratórios, equipamentos e literatura — sempre confira os intervalos do seu laboratório e a bibliografia oficial antes de aplicar na rotina.

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