
O laudo da urinálise tem dezenas de linhas: cor, aspecto, densidade, pH, proteína, glicose, sangue oculto, cristais, cilindros… É fácil ler tudo como “normal” ou “alterado” sem entender o que cada campo diz. Este guia percorre a urinálise completa na ordem em que ela é feita, mostrando o que cada resultado significa em cães e gatos e quais campos da fita não são confiáveis em veterinária.
Coleta: cistocentese, micção ou sondagem
Cistocentese
- Melhor amostra para cultura: evita contaminação de uretra, prepúcio e vulva
- Pode introduzir algumas hemácias por trauma da agulha
- Exige bexiga com volume suficiente; guiada por palpação ou ultrassom
- Em geral evitada na suspeita de neoplasia vesical e em coagulopatias
Micção espontânea
- Não invasiva, o tutor pode coletar em casa
- Contaminada por células, bactérias e espermatozoides do trato distal
- Boa para triagem, densidade e química
- Colete o jato médio, em recipiente limpo
A sondagem uretral é uma alternativa quando a cistocentese não é possível ou já há necessidade de sonda. Ela pode trazer células epiteliais e, se mal feita, introduzir bactérias. Sempre registre no pedido como a urina foi coletada: bactérias numa amostra de micção não significam o mesmo que bactérias numa amostra de cistocentese.
Exame físico: cor, aspecto e densidade
| Campo | O que avaliar | Interpretação |
|---|---|---|
| Cor | Amarela de intensidade variável | Muito clara sugere urina diluída; vermelha ou marrom pode indicar hemácias, hemoglobina ou mioglobina; laranja escuro pode indicar bilirrubina |
| Aspecto | Límpido x turvo | Turbidez por células, cristais, muco, bactérias ou lipídios; o sedimento explica a causa |
| Densidade (DU) | Medida no refratômetro | Reflete a capacidade de concentração; interprete com hidratação e azotemia |
A densidade é o campo mais importante do exame físico. Ela define se a urina está hipostenúrica, isostenúrica ou concentrada, e também modula a interpretação de todo o resto: uma proteína de 1+ numa urina muito diluída pesa mais do que a mesma reação numa urina muito concentrada. Os detalhes estão em como o rim concentra a urina e o que a densidade urinária revela.
Exame químico: a tira reagente e suas limitações
As tiras foram desenvolvidas para urina humana. Alguns campos funcionam bem em cães e gatos; outros não.
| Campo da fita | Confiabilidade em veterinária | Comentários |
|---|---|---|
| pH | Razoável, aproximada | Dieta influencia: carnívoros tendem a urina ácida; urina alcalina pode ocorrer com dieta vegetal, infecção por bactérias produtoras de urease ou amostra velha |
| Proteína | Útil para triagem | Detecta principalmente albumina; falso-positivo em urina muito alcalina ou concentrada; confirme e quantifique com a RPC |
| Glicose | Boa | Positiva quando a glicemia ultrapassa o limiar renal ou em disfunção tubular |
| Cetonas | Boa, com limitação | Detecta acetoacetato (e acetona), não o beta-hidroxibutirato |
| Bilirrubina | Boa, depende da espécie | Pequena quantidade pode ser normal em cães com urina concentrada, especialmente machos; em gatos, qualquer bilirrubinúria é anormal |
| Sangue oculto | Boa | Reage com hemácias, hemoglobina e mioglobina; o sedimento diferencia hematúria de pigmentúria |
| Densidade | Não confiável | Use sempre o refratômetro |
| Leucócitos | Não confiável | Falsos negativos frequentes em cães e falsos positivos em gatos; conte leucócitos no sedimento |
| Nitrito e urobilinogênio | Pouco úteis | Não devem ser usados para diagnosticar infecção ou doença hepática |

Sedimento: células, cilindros, cristais e bactérias
O sedimento é obtido centrifugando um volume padronizado de urina e examinando o material ao microscópio, em campo de menor e maior aumento.
Células
- Hemácias: poucas por campo de maior aumento são esperadas, sobretudo em cistocentese. Números maiores indicam hematúria (inflamação, urolitíase, neoplasia, trauma, coagulopatia).
- Leucócitos: aumento indica piúria, ou seja, inflamação no trato urinário ou genital. Não diferencia causa infecciosa de não infecciosa.
- Células epiteliais: escamosas (uretra distal e trato genital, comuns na micção), de transição (bexiga, ureter, uretra proximal; em grande número e atípicas, considere neoplasia e confirme com citologia) e renais tubulares.
Cilindros são moldes do lúmen tubular, formados por uma matriz de proteína. Poucos cilindros hialinos ou granulares podem aparecer em urina concentrada; em maior número, granulares, celulares ou céreos sugerem lesão tubular ativa, como na lesão renal aguda por nefrotoxinas.
Cristais
| Cristal | Aspecto clássico | Associações |
|---|---|---|
| Estruvita (fosfato amônio-magnésio) | “Tampa de caixão”, prismas | Urina alcalina; comum e muitas vezes sem significado; urólitos de estruvita em cães frequentemente associados a infecção por bactérias produtoras de urease |
| Oxalato de cálcio di-hidratado | “Envelope”, quadrado com X | Pode ocorrer em animais saudáveis; urolitíase por oxalato |
| Oxalato de cálcio mono-hidratado | Forma de “estaca de cerca” ou halteres | Sugestivo de intoxicação por etilenoglicol |
| Urato de amônio | Esferas acastanhadas com projeções, em “maçã-espinhosa” | Desvio portossistêmico, insuficiência hepática; dálmatas e buldogues ingleses |
| Bilirrubina | Agulhas amarelo-alaranjadas | Pequena quantidade pode ser normal em cães |
| Cistina | Hexágonos | Cistinúria (defeito tubular hereditário) |
Lembre: cristalúria não é urolitíase. Muitos cristais se formam in vitro, após a coleta, pela refrigeração ou pela demora.
Bactérias visíveis no sedimento de amostra por cistocentese sugerem bacteriúria verdadeira, mas a confirmação vem da urocultura com antibiograma. Partículas de debris e cristais amorfos podem imitar bactérias.
Proteinúria e a relação proteína:creatinina urinária (RPC)
A fita apenas sinaliza proteína. Para saber se a proteinúria é relevante, siga um raciocínio em etapas:
- 1Confirme que é persistente
Repita em outra amostra. Febre, exercício intenso e estresse podem causar proteinúria transitória.
- 2Exclua causa pré-renal
Hemoglobinúria, mioglobinúria e proteínas de Bence Jones vêm do sangue e não indicam lesão renal.
- 3Exclua causa pós-renal
Inflamação, hemorragia ou infecção no trato urinário inferior ou genital. Exija sedimento inativo, sem piúria ou hematúria importante.
- 4Quantifique com a RPC
Com sedimento inativo, a RPC estima a perda proteica diária numa única amostra e classifica a proteinúria renal.
A RPC é a base do subestadiamento por proteinúria no estadiamento IRIS da doença renal crônica. Proteinúria renal persistente costuma indicar lesão glomerular e é um fator de progressão da doença renal.
Revise em 1 minuto
Um cão tem piúria evidente no sedimento, mas o campo de leucócitos da fita é negativo. A explicação mais provável é:
O campo de leucócitos foi desenvolvido para urina humana e não é confiável em cães e gatos. Vale o microscópio.
Cristais de oxalato de cálcio mono-hidratado num cão com sinais neurológicos agudos e azotemia sugerem:
O etilenoglicol é metabolizado a oxalato, que precipita nos túbulos e aparece como cristais mono-hidratados.
Antes de interpretar uma RPC elevada como proteinúria renal, é essencial:
Inflamação ou hemorragia no trato urinário e proteínas de origem plasmática podem elevar a RPC sem lesão glomerular.
Em qual espécie qualquer bilirrubinúria deve ser considerada anormal?
Gatos têm limiar renal alto para bilirrubina. No cão, pequenas quantidades podem aparecer em urina concentrada.
Próximo passo da trilha: SDMA e estadiamento IRIS da doença renal crônica.
Referências
- Thrall, M. A. et al. Hematologia e Bioquímica Clínica Veterinária. 2. ed. São Paulo: Roca, 2015.
- Stockham, S. L.; Scott, M. A. Fundamentals of Veterinary Clinical Pathology. 2. ed. Ames: Blackwell Publishing, 2008.
- Nelson, R. W.; Couto, C. G. Medicina Interna de Pequenos Animais. 6. ed. Rio de Janeiro: Elsevier, 2023.
- Ettinger, S. J.; Feldman, E. C.; Côté, E. Textbook of Veterinary Internal Medicine. 8. ed. St. Louis: Elsevier, 2017.
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