Urinálise completa: o que cada campo significa

Coleta, exame físico, tira reagente e sedimento: entenda cada campo da urinálise de cães e gatos, as limitações da fita e quando pedir a RPC.

Por Equipe AjudaVet··7 min de leitura
Ilustração de bancada de laboratório com pote de urina, tira reagente, refratômetro e microscópio, com um gato e um cão ao lado

O laudo da urinálise tem dezenas de linhas: cor, aspecto, densidade, pH, proteína, glicose, sangue oculto, cristais, cilindros… É fácil ler tudo como “normal” ou “alterado” sem entender o que cada campo diz. Este guia percorre a urinálise completa na ordem em que ela é feita, mostrando o que cada resultado significa em cães e gatos e quais campos da fita não são confiáveis em veterinária.

Coleta: cistocentese, micção ou sondagem

Cistocentese

  • Melhor amostra para cultura: evita contaminação de uretra, prepúcio e vulva
  • Pode introduzir algumas hemácias por trauma da agulha
  • Exige bexiga com volume suficiente; guiada por palpação ou ultrassom
  • Em geral evitada na suspeita de neoplasia vesical e em coagulopatias

Micção espontânea

  • Não invasiva, o tutor pode coletar em casa
  • Contaminada por células, bactérias e espermatozoides do trato distal
  • Boa para triagem, densidade e química
  • Colete o jato médio, em recipiente limpo

A sondagem uretral é uma alternativa quando a cistocentese não é possível ou já há necessidade de sonda. Ela pode trazer células epiteliais e, se mal feita, introduzir bactérias. Sempre registre no pedido como a urina foi coletada: bactérias numa amostra de micção não significam o mesmo que bactérias numa amostra de cistocentese.

Exame físico: cor, aspecto e densidade

Campo O que avaliar Interpretação
Cor Amarela de intensidade variável Muito clara sugere urina diluída; vermelha ou marrom pode indicar hemácias, hemoglobina ou mioglobina; laranja escuro pode indicar bilirrubina
Aspecto Límpido x turvo Turbidez por células, cristais, muco, bactérias ou lipídios; o sedimento explica a causa
Densidade (DU) Medida no refratômetro Reflete a capacidade de concentração; interprete com hidratação e azotemia

A densidade é o campo mais importante do exame físico. Ela define se a urina está hipostenúrica, isostenúrica ou concentrada, e também modula a interpretação de todo o resto: uma proteína de 1+ numa urina muito diluída pesa mais do que a mesma reação numa urina muito concentrada. Os detalhes estão em como o rim concentra a urina e o que a densidade urinária revela.

Exame químico: a tira reagente e suas limitações

As tiras foram desenvolvidas para urina humana. Alguns campos funcionam bem em cães e gatos; outros não.

Campo da fita Confiabilidade em veterinária Comentários
pH Razoável, aproximada Dieta influencia: carnívoros tendem a urina ácida; urina alcalina pode ocorrer com dieta vegetal, infecção por bactérias produtoras de urease ou amostra velha
Proteína Útil para triagem Detecta principalmente albumina; falso-positivo em urina muito alcalina ou concentrada; confirme e quantifique com a RPC
Glicose Boa Positiva quando a glicemia ultrapassa o limiar renal ou em disfunção tubular
Cetonas Boa, com limitação Detecta acetoacetato (e acetona), não o beta-hidroxibutirato
Bilirrubina Boa, depende da espécie Pequena quantidade pode ser normal em cães com urina concentrada, especialmente machos; em gatos, qualquer bilirrubinúria é anormal
Sangue oculto Boa Reage com hemácias, hemoglobina e mioglobina; o sedimento diferencia hematúria de pigmentúria
Densidade Não confiável Use sempre o refratômetro
Leucócitos Não confiável Falsos negativos frequentes em cães e falsos positivos em gatos; conte leucócitos no sedimento
Nitrito e urobilinogênio Pouco úteis Não devem ser usados para diagnosticar infecção ou doença hepática
Campo de microscópio com cristais de estruvita e de oxalato de cálcio, cilindros, hemácias e leucócitos no sedimento urinário
No sedimento, a forma diz muito: estruvita em tampa de caixão, oxalato de cálcio em envelope, cilindros moldados nos túbulos e células do trato urinário.

Sedimento: células, cilindros, cristais e bactérias

O sedimento é obtido centrifugando um volume padronizado de urina e examinando o material ao microscópio, em campo de menor e maior aumento.

Células

  • Hemácias: poucas por campo de maior aumento são esperadas, sobretudo em cistocentese. Números maiores indicam hematúria (inflamação, urolitíase, neoplasia, trauma, coagulopatia).
  • Leucócitos: aumento indica piúria, ou seja, inflamação no trato urinário ou genital. Não diferencia causa infecciosa de não infecciosa.
  • Células epiteliais: escamosas (uretra distal e trato genital, comuns na micção), de transição (bexiga, ureter, uretra proximal; em grande número e atípicas, considere neoplasia e confirme com citologia) e renais tubulares.

Cilindros são moldes do lúmen tubular, formados por uma matriz de proteína. Poucos cilindros hialinos ou granulares podem aparecer em urina concentrada; em maior número, granulares, celulares ou céreos sugerem lesão tubular ativa, como na lesão renal aguda por nefrotoxinas.

Cristais

Cristal Aspecto clássico Associações
Estruvita (fosfato amônio-magnésio) “Tampa de caixão”, prismas Urina alcalina; comum e muitas vezes sem significado; urólitos de estruvita em cães frequentemente associados a infecção por bactérias produtoras de urease
Oxalato de cálcio di-hidratado “Envelope”, quadrado com X Pode ocorrer em animais saudáveis; urolitíase por oxalato
Oxalato de cálcio mono-hidratado Forma de “estaca de cerca” ou halteres Sugestivo de intoxicação por etilenoglicol
Urato de amônio Esferas acastanhadas com projeções, em “maçã-espinhosa” Desvio portossistêmico, insuficiência hepática; dálmatas e buldogues ingleses
Bilirrubina Agulhas amarelo-alaranjadas Pequena quantidade pode ser normal em cães
Cistina Hexágonos Cistinúria (defeito tubular hereditário)

Lembre: cristalúria não é urolitíase. Muitos cristais se formam in vitro, após a coleta, pela refrigeração ou pela demora.

Bactérias visíveis no sedimento de amostra por cistocentese sugerem bacteriúria verdadeira, mas a confirmação vem da urocultura com antibiograma. Partículas de debris e cristais amorfos podem imitar bactérias.

Proteinúria e a relação proteína:creatinina urinária (RPC)

A fita apenas sinaliza proteína. Para saber se a proteinúria é relevante, siga um raciocínio em etapas:

Interpretando a proteinúria
  1. 1
    Confirme que é persistente

    Repita em outra amostra. Febre, exercício intenso e estresse podem causar proteinúria transitória.

  2. 2
    Exclua causa pré-renal

    Hemoglobinúria, mioglobinúria e proteínas de Bence Jones vêm do sangue e não indicam lesão renal.

  3. 3
    Exclua causa pós-renal

    Inflamação, hemorragia ou infecção no trato urinário inferior ou genital. Exija sedimento inativo, sem piúria ou hematúria importante.

  4. 4
    Quantifique com a RPC

    Com sedimento inativo, a RPC estima a perda proteica diária numa única amostra e classifica a proteinúria renal.

A RPC é a base do subestadiamento por proteinúria no estadiamento IRIS da doença renal crônica. Proteinúria renal persistente costuma indicar lesão glomerular e é um fator de progressão da doença renal.

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  1. Um cão tem piúria evidente no sedimento, mas o campo de leucócitos da fita é negativo. A explicação mais provável é:

  2. Cristais de oxalato de cálcio mono-hidratado num cão com sinais neurológicos agudos e azotemia sugerem:

  3. Antes de interpretar uma RPC elevada como proteinúria renal, é essencial:

  4. Em qual espécie qualquer bilirrubinúria deve ser considerada anormal?

Próximo passo da trilha: SDMA e estadiamento IRIS da doença renal crônica.

Referências

  1. Thrall, M. A. et al. Hematologia e Bioquímica Clínica Veterinária. 2. ed. São Paulo: Roca, 2015.
  2. Stockham, S. L.; Scott, M. A. Fundamentals of Veterinary Clinical Pathology. 2. ed. Ames: Blackwell Publishing, 2008.
  3. Nelson, R. W.; Couto, C. G. Medicina Interna de Pequenos Animais. 6. ed. Rio de Janeiro: Elsevier, 2023.
  4. Ettinger, S. J.; Feldman, E. C.; Côté, E. Textbook of Veterinary Internal Medicine. 8. ed. St. Louis: Elsevier, 2017.

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