
“Quanto ele deve comer por dia?” é uma das perguntas mais frequentes da clínica, e a resposta “o que está escrito no saco de ração” raramente basta. Para responder com critério você precisa de três ferramentas: a necessidade energética de repouso (RER), a necessidade energética de manutenção (MER) e o escore de condição corporal. Com elas, dá para montar desde a dieta de um filhote até um plano de emagrecimento seguro.
RER: a energia do repouso
O gasto energético não cresce de forma linear com o peso: animais menores têm mais superfície corporal proporcional e gastam mais energia por quilo. Por isso a fórmula usa o peso metabólico, o peso elevado a 0,75:
RER (kcal/dia) = 70 × (peso em kg) elevado a 0,75
Exemplos aproximados:
| Peso | Peso metabólico (aprox.) | RER (aprox.) |
|---|---|---|
| 4 kg (gato) | 2,8 | 198 kcal/dia |
| 10 kg | 5,6 | 394 kcal/dia |
| 25 kg | 11,2 | 783 kcal/dia |
| 30 kg | 12,8 | 897 kcal/dia |
Também existe uma fórmula linear, 30 × peso + 70, que dá resultados próximos para animais de aproximadamente 2 a 45 kg, mas erra nos extremos (muito pequenos ou muito grandes). Para evitar conta na mão, use a calculadora de RER.
A RER também é a meta inicial no paciente internado: em repouso na gaiola, ele gasta perto da RER, e não precisa dos antigos “fatores de doença” que superalimentavam o animal.
MER: do repouso à vida real
A MER inclui atividade, crescimento, reprodução e termorregulação. Os fatores abaixo são aproximados e variam entre as fontes:
| Situação | Cão (× RER) | Gato (× RER) |
|---|---|---|
| Adulto castrado | 1,6 | 1,2 |
| Adulto inteiro | 1,8 | 1,4 |
| Inativo ou com tendência à obesidade | 1,2 a 1,4 | 1,0 |
| Perda de peso | 1,0 × RER do peso-alvo | 0,8 × RER do peso-alvo |
| Filhote até cerca de 4 meses | 3,0 | 2,5 |
| Filhote acima de 4 meses até adulto | 2,0 | 2,5 |
| Trabalho (conforme intensidade) | 2,0 a 5,0 | — |
| Lactação | Muito aumentada, frequentemente à vontade | Muito aumentada, frequentemente à vontade |

Escore de condição corporal em 9 pontos
O ECC avalia a gordura pela inspeção e palpação: costelas, cintura vista de cima, retração abdominal vista de lado e depósitos de gordura (base da cauda, região lombar e, no gato, o abdome ventral).
ECC 4 a 5 (ideal)
- Costelas palpáveis com leve cobertura de gordura
- Cintura visível quando vista de cima
- Retração abdominal visível de lado
- No gato, pouca gordura abdominal ventral
ECC 7 a 9 (sobrepeso a obesidade)
- Costelas difíceis ou impossíveis de palpar
- Cintura ausente; dorso pode ficar largo
- Depósitos de gordura na lombar e na base da cauda
- No gato, abdome pendular com gordura ventral evidente
De forma geral: 1 a 3 = abaixo do peso, 4 a 5 = ideal, 6 = sobrepeso leve, 7 a 9 = sobrepeso a obesidade. A regra prática é que cada ponto acima de 5 corresponde a aproximadamente 10% de excesso sobre o peso ideal. Com isso, você estima o peso-alvo:
Peso-alvo ≈ peso atual × 100 ÷ (100 + (ECC − 5) × 10)
Avalie também o escore de massa muscular (coluna, escápulas, crânio, pelve). Um animal pode ter gordura sobrando e músculo faltando, como acontece em idosos e doentes crônicos.
Montando um plano de perda de peso
- 1Pese e dê o ECC
Registre o peso atual, o ECC e a massa muscular. Investigue doenças associadas, como hipotireoidismo em cães, quando houver suspeita clínica.
- 2Estime o peso-alvo
Exemplo: cão de 30 kg com ECC 7. Peso-alvo aproximado = 30 × 100 ÷ 120 = 25 kg.
- 3Calcule a RER do peso-alvo
RER de 25 kg = 70 × 25 elevado a 0,75, aproximadamente 783 kcal/dia. No cão, a meta inicial é cerca de 1,0 × essa RER; no gato, cerca de 0,8 ×.
- 4Escolha o alimento e some tudo
Prefira dietas formuladas para perda de peso, que mantêm proteína, vitaminas e minerais mesmo com menos calorias. Petiscos entram na conta e devem ficar em torno de 10% das calorias diárias.
- 5Pese a cada 2 a 4 semanas e ajuste
Meta em geral de 1 a 2% do peso por semana em cães e de 0,5 a 1% em gatos. Se não perdeu, reduza a oferta aos poucos; se perdeu rápido demais, aumente.
Por que não calcular sobre o peso atual? Porque a RER de 30 kg (cerca de 897 kcal) mantém o animal no peso que você quer reduzir. A conta sobre o peso-alvo cria o déficit de forma controlada.
Gatos obesos e lipidose hepática
O gato tem um metabolismo peculiar: quando fica sem comer ou recebe uma restrição calórica severa, mobiliza grandes quantidades de gordura periférica. O fígado recebe mais ácidos graxos do que consegue oxidar ou exportar como lipoproteína, e os triglicerídeos se acumulam no hepatócito: é a lipidose hepática felina.
- O risco é maior em gatos obesos que passam por anorexia (estresse, mudança de ambiente, doença intercorrente, troca brusca de dieta) ou por restrição drástica.
- Sinais: hiporexia persistente, perda de peso rápida, vômito, icterícia. No laboratório, a FA costuma subir bastante, muitas vezes com GGT proporcionalmente menos alterada (veja enzimas hepáticas ALT, FA e GGT e o metabolismo da bilirrubina).
- Prevenção: nunca jejuar um gato para emagrecer, respeitar a perda lenta (cerca de 0,5 a 1% por semana) e agir cedo quando um gato obeso para de comer.
A obesidade felina também aumenta o risco de diabetes mellitus por resistência à insulina, outro motivo para tratar o excesso de peso, com paciência (veja diabetes mellitus em cães e gatos).
Revise em 1 minuto
Qual é a RER aproximada de um cão de 10 kg?
10 elevado a 0,75 é aproximadamente 5,6; 70 × 5,6 dá cerca de 394 kcal/dia.
Um cão de 30 kg com ECC 7 vai iniciar um plano de emagrecimento. Qual o cálculo inicial mais adequado?
O peso-alvo estimado é 30 × 100 ÷ 120, cerca de 25 kg. No cão, a meta inicial é aproximadamente 1,0 × a RER desse peso.
No escore de condição corporal de 9 pontos, um animal com ECC 5 está:
Na escala de 9 pontos, 4 a 5 corresponde ao ideal.
Por que não se deve fazer restrição calórica brusca em um gato obeso?
O fígado felino recebe mais ácidos graxos do que consegue processar, e os triglicerídeos se acumulam no hepatócito.
Com este artigo você fecha a trilha do sistema digestório. Para recomeçar pela base, volte à fisiologia do rúmen.
Referências
- Hand, M. S. et al. Small Animal Clinical Nutrition. 5. ed. Topeka: Mark Morris Institute, 2010.
- National Research Council. Nutrient Requirements of Dogs and Cats. Washington: National Academies Press, 2006.
- Nelson, R. W.; Couto, C. G. Medicina Interna de Pequenos Animais. 5. ed. Rio de Janeiro: Elsevier, 2015.
- Ettinger, S. J.; Feldman, E. C.; Côté, E. Textbook of Veterinary Internal Medicine. 8. ed. St. Louis: Elsevier, 2017.
Conteúdo educativo. Valores de referência variam entre laboratórios, equipamentos e literatura — sempre confira os intervalos do seu laboratório e a bibliografia oficial antes de aplicar na rotina.


