
Um gato macho, castrado e obeso chega emagrecendo apesar de comer bem, bebendo e urinando muito. A glicemia está alta — mas ele também está apavorado na mesa de atendimento. É diabetes mellitus ou só estresse? Para responder, você precisa entender como insulina e glucagon controlam a glicose e onde cães e gatos diferem.
Insulina e glucagon: a balança da glicose
As ilhotas pancreáticas funcionam como uma balança. Depois de uma refeição, a glicose sobe e as células beta liberam insulina, que:
- abre a entrada de glicose em músculo e tecido adiposo (via transportadores GLUT4);
- estimula a síntese de glicogênio, gordura e proteína;
- inibe a lipólise, a gliconeogênese e a cetogênese.
No jejum, as células alfa liberam glucagon, que estimula a glicogenólise e a gliconeogênese hepáticas e favorece a oxidação de gorduras. Cortisol, adrenalina e hormônio do crescimento também elevam a glicemia: são os hormônios contrarreguladores.
| Situação | Insulina | Glucagon | Resultado |
|---|---|---|---|
| Pós-prandial | Alta | Baixo | Glicose entra nas células e é armazenada |
| Jejum | Baixa | Alto | Fígado libera glicose |
| Diabetes mellitus | Ausente ou ineficaz | Relativamente alto | Hiperglicemia + catabolismo |
Sem insulina, o corpo “passa fome no meio da fartura”: há muita glicose no sangue, mas as células não conseguem usá-la. Daí o emagrecimento com polifagia.

Limiar renal: de onde vem a PU/PD
A glicose é filtrada livremente no glomérulo e reabsorvida no túbulo proximal por cotransportadores com sódio. Esse transporte tem uma capacidade máxima. Quando a glicemia ultrapassa o limiar renal, a glicose sobra no filtrado e aparece na urina (glicosúria). Ela arrasta água por efeito osmótico: diurese osmótica → poliúria → polidipsia compensatória.
O gato tolera glicemias mais altas antes de ter glicosúria, o que ajuda a entender por que um pico de estresse isolado nem sempre causa glicosúria. Para revisar o transporte tubular, veja reabsorção e secreção tubular.
Cão x gato: duas doenças diferentes
Cão
- Geralmente insulino-dependente: perda de células beta (imunomediada, pancreatite, causas idiopáticas)
- Mais comum em fêmeas de meia-idade a idosas; diestro e hiperadrenocorticismo causam resistência à insulina
- Catarata diabética é muito frequente
- Remissão é rara (exceção: diabetes do diestro após castração)
Gato
- Semelhante ao tipo 2: resistência à insulina + disfunção de células beta
- Fatores de risco: obesidade, macho castrado, idade, sedentarismo, uso de glicocorticoides
- Glicotoxicidade agrava a falência beta
- Remissão é possível com controle glicêmico precoce e dieta adequada
- Pode ter neuropatia com postura plantígrada
No gato, a hiperglicemia persistente “intoxica” as células beta (glicotoxicidade). Ao controlar a glicemia cedo, parte dessas células pode se recuperar — por isso o diagnóstico e o tratamento precoces fazem tanta diferença na chance de remissão.
Hiperglicemia de estresse e frutosamina
Gatos estressados liberam catecolaminas e podem apresentar glicemias bastante elevadas, às vezes acima de 300 mg/dL, sem serem diabéticos. Um único valor alto no consultório não fecha diagnóstico.
A frutosamina é uma proteína sérica glicada (principalmente albumina ligada à glicose). Como reflete a glicemia média das últimas 1 a 3 semanas aproximadamente, ela não sobe num pico de estresse de minutos.
| Achado | Diabetes provável | Estresse provável |
|---|---|---|
| Hiperglicemia persistente | Sim | Não (é transitória) |
| Glicosúria | Sim, persistente | Geralmente ausente |
| Frutosamina | Elevada | Normal |
| Sinais clínicos | PU/PD, polifagia, perda de peso | Ausentes |
Atenção: hipoproteinemia e hipertireoidismo podem reduzir a frutosamina, e os intervalos variam por laboratório.
Cetoacidose diabética: a emergência metabólica
Na falta grave de insulina, com glucagon e hormônios contrarreguladores altos, a lipólise libera ácidos graxos que o fígado transforma em corpos cetônicos (beta-hidroxibutirato e acetoacetato). Eles são ácidos fortes: surge a acidose metabólica com ânion gap aumentado.
Na hemogasometria, espere pH baixo, bicarbonato baixo e pCO2 reduzida por compensação respiratória. Acrescente desidratação, vômito, anorexia e distúrbios de potássio e fósforo: o potássio corporal total costuma estar depletado, mesmo quando o valor sérico inicial parece normal. Revise a interpretação em hemogasometria passo a passo e em ânion gap e acidose metabólica.
O tratamento da cetoacidose, em conceito, envolve fluidoterapia para corrigir a desidratação, insulina regular para interromper a cetogênese, reposição monitorada de potássio e fósforo e tratamento do fator desencadeante (pancreatite, infecção, hiperadrenocorticismo, entre outros).
Curva glicêmica e hipoglicemia
A curva glicêmica mede a glicose em intervalos regulares ao longo do intervalo entre aplicações de insulina. Ela responde a três perguntas:
- 1A insulina está funcionando?
Observe se a glicemia cai após a aplicação. Ausência de queda sugere problema de técnica, armazenamento ou resistência à insulina.
- 2Qual é o nadir?
O ponto mais baixo da curva mostra o efeito máximo. Nadir muito baixo indica risco de hipoglicemia.
- 3Quanto tempo dura o efeito?
O retorno da glicemia a valores altos mostra a duração da ação da insulina naquele paciente.
- 4Some à clínica
Curvas variam de um dia para o outro. Sinais clínicos, peso e frutosamina completam a avaliação. Monitorar em casa reduz a hiperglicemia de estresse.
A hipoglicemia é a complicação mais perigosa do tratamento. Sinais: fraqueza, tremores, ataxia, desorientação, convulsões e coma. É uma emergência: oferecer fonte de glicose e procurar atendimento imediato. Uma possível causa no gato é justamente a remissão — o paciente deixa de precisar da insulina que continua recebendo. Doses e ajustes são sempre individuais e definidos pelo veterinário responsável.
Revise em 1 minuto
Gato muito agitado no consultório tem glicemia de 320 mg/dL, sem glicosúria e com frutosamina normal. A interpretação mais provável é:
A frutosamina reflete semanas de glicemia e não sobe num pico agudo. Sem glicosúria e sem sinais clínicos, o estresse é a explicação mais provável.
Qual afirmação sobre o diabetes no gato está correta?
O diabetes felino lembra o tipo 2: resistência à insulina e disfunção beta, com chance de remissão se tratado cedo.
Na cetoacidose diabética, a hemogasometria tipicamente mostra:
Os cetoácidos consomem bicarbonato e são ânions não medidos, aumentando o ânion gap.
Por que uma fita urinária negativa para cetonas não exclui cetoacidose?
A reação da fita detecta principalmente acetoacetato; o beta-hidroxibutirato, predominante na cetoacidose, não é detectado.
No próximo passo da trilha endócrina: tireoide, hipotireoidismo canino e hipertireoidismo felino.
Referências
- Feldman, E. C.; Nelson, R. W.; Reusch, C. E.; Scott-Moncrieff, J. C. R.; Behrend, E. N. Canine and Feline Endocrinology. 4. ed. St. Louis: Elsevier Saunders, 2015.
- Nelson, R. W.; Couto, C. G. Medicina Interna de Pequenos Animais. 6. ed. Rio de Janeiro: Elsevier, 2023.
- Klein, B. G. Cunningham — Tratado de Fisiologia Veterinária. 6. ed. Rio de Janeiro: Elsevier, 2021.
- Ettinger, S. J.; Feldman, E. C.; Côté, E. Textbook of Veterinary Internal Medicine. 8. ed. St. Louis: Elsevier, 2017.
- DiBartola, S. P. Fluid, Electrolyte, and Acid-Base Disorders in Small Animal Practice. 4. ed. St. Louis: Elsevier Saunders, 2012.
Conteúdo educativo. Valores de referência variam entre laboratórios, equipamentos e literatura — sempre confira os intervalos do seu laboratório e a bibliografia oficial antes de aplicar na rotina.


