Insulina, glucagon e diabetes mellitus em cães e gatos

Da fisiologia da insulina e do glucagon à prática: limiar renal, diferenças entre cão e gato, frutosamina, cetoacidose diabética e curva glicêmica.

Por Equipe AjudaVet··6 min de leitura
Ilustração de um gato obeso e um beagle lado a lado, com um pâncreas estilizado e cubos de açúcar flutuando ao fundo

Um gato macho, castrado e obeso chega emagrecendo apesar de comer bem, bebendo e urinando muito. A glicemia está alta — mas ele também está apavorado na mesa de atendimento. É diabetes mellitus ou só estresse? Para responder, você precisa entender como insulina e glucagon controlam a glicose e onde cães e gatos diferem.

Insulina e glucagon: a balança da glicose

As ilhotas pancreáticas funcionam como uma balança. Depois de uma refeição, a glicose sobe e as células beta liberam insulina, que:

  • abre a entrada de glicose em músculo e tecido adiposo (via transportadores GLUT4);
  • estimula a síntese de glicogênio, gordura e proteína;
  • inibe a lipólise, a gliconeogênese e a cetogênese.

No jejum, as células alfa liberam glucagon, que estimula a glicogenólise e a gliconeogênese hepáticas e favorece a oxidação de gorduras. Cortisol, adrenalina e hormônio do crescimento também elevam a glicemia: são os hormônios contrarreguladores.

Situação Insulina Glucagon Resultado
Pós-prandial Alta Baixo Glicose entra nas células e é armazenada
Jejum Baixa Alto Fígado libera glicose
Diabetes mellitus Ausente ou ineficaz Relativamente alto Hiperglicemia + catabolismo

Sem insulina, o corpo “passa fome no meio da fartura”: há muita glicose no sangue, mas as células não conseguem usá-la. Daí o emagrecimento com polifagia.

Balança com insulina abrindo a célula para a glicose de um lado e fígado liberando glicose do outro, e rim com glicose transbordando para a urina
A insulina funciona como chave para a glicose entrar nas células; o glucagon faz o fígado liberar glicose. Acima do limiar renal, a glicose transborda para a urina e arrasta água.

Limiar renal: de onde vem a PU/PD

A glicose é filtrada livremente no glomérulo e reabsorvida no túbulo proximal por cotransportadores com sódio. Esse transporte tem uma capacidade máxima. Quando a glicemia ultrapassa o limiar renal, a glicose sobra no filtrado e aparece na urina (glicosúria). Ela arrasta água por efeito osmótico: diurese osmótica → poliúria → polidipsia compensatória.

O gato tolera glicemias mais altas antes de ter glicosúria, o que ajuda a entender por que um pico de estresse isolado nem sempre causa glicosúria. Para revisar o transporte tubular, veja reabsorção e secreção tubular.

Cão x gato: duas doenças diferentes

Cão

  • Geralmente insulino-dependente: perda de células beta (imunomediada, pancreatite, causas idiopáticas)
  • Mais comum em fêmeas de meia-idade a idosas; diestro e hiperadrenocorticismo causam resistência à insulina
  • Catarata diabética é muito frequente
  • Remissão é rara (exceção: diabetes do diestro após castração)

Gato

  • Semelhante ao tipo 2: resistência à insulina + disfunção de células beta
  • Fatores de risco: obesidade, macho castrado, idade, sedentarismo, uso de glicocorticoides
  • Glicotoxicidade agrava a falência beta
  • Remissão é possível com controle glicêmico precoce e dieta adequada
  • Pode ter neuropatia com postura plantígrada

No gato, a hiperglicemia persistente “intoxica” as células beta (glicotoxicidade). Ao controlar a glicemia cedo, parte dessas células pode se recuperar — por isso o diagnóstico e o tratamento precoces fazem tanta diferença na chance de remissão.

Hiperglicemia de estresse e frutosamina

Gatos estressados liberam catecolaminas e podem apresentar glicemias bastante elevadas, às vezes acima de 300 mg/dL, sem serem diabéticos. Um único valor alto no consultório não fecha diagnóstico.

A frutosamina é uma proteína sérica glicada (principalmente albumina ligada à glicose). Como reflete a glicemia média das últimas 1 a 3 semanas aproximadamente, ela não sobe num pico de estresse de minutos.

Achado Diabetes provável Estresse provável
Hiperglicemia persistente Sim Não (é transitória)
Glicosúria Sim, persistente Geralmente ausente
Frutosamina Elevada Normal
Sinais clínicos PU/PD, polifagia, perda de peso Ausentes

Atenção: hipoproteinemia e hipertireoidismo podem reduzir a frutosamina, e os intervalos variam por laboratório.

Cetoacidose diabética: a emergência metabólica

Na falta grave de insulina, com glucagon e hormônios contrarreguladores altos, a lipólise libera ácidos graxos que o fígado transforma em corpos cetônicos (beta-hidroxibutirato e acetoacetato). Eles são ácidos fortes: surge a acidose metabólica com ânion gap aumentado.

Na hemogasometria, espere pH baixo, bicarbonato baixo e pCO2 reduzida por compensação respiratória. Acrescente desidratação, vômito, anorexia e distúrbios de potássio e fósforo: o potássio corporal total costuma estar depletado, mesmo quando o valor sérico inicial parece normal. Revise a interpretação em hemogasometria passo a passo e em ânion gap e acidose metabólica.

O tratamento da cetoacidose, em conceito, envolve fluidoterapia para corrigir a desidratação, insulina regular para interromper a cetogênese, reposição monitorada de potássio e fósforo e tratamento do fator desencadeante (pancreatite, infecção, hiperadrenocorticismo, entre outros).

Curva glicêmica e hipoglicemia

A curva glicêmica mede a glicose em intervalos regulares ao longo do intervalo entre aplicações de insulina. Ela responde a três perguntas:

Como ler uma curva glicêmica, em conceito
  1. 1
    A insulina está funcionando?

    Observe se a glicemia cai após a aplicação. Ausência de queda sugere problema de técnica, armazenamento ou resistência à insulina.

  2. 2
    Qual é o nadir?

    O ponto mais baixo da curva mostra o efeito máximo. Nadir muito baixo indica risco de hipoglicemia.

  3. 3
    Quanto tempo dura o efeito?

    O retorno da glicemia a valores altos mostra a duração da ação da insulina naquele paciente.

  4. 4
    Some à clínica

    Curvas variam de um dia para o outro. Sinais clínicos, peso e frutosamina completam a avaliação. Monitorar em casa reduz a hiperglicemia de estresse.

A hipoglicemia é a complicação mais perigosa do tratamento. Sinais: fraqueza, tremores, ataxia, desorientação, convulsões e coma. É uma emergência: oferecer fonte de glicose e procurar atendimento imediato. Uma possível causa no gato é justamente a remissão — o paciente deixa de precisar da insulina que continua recebendo. Doses e ajustes são sempre individuais e definidos pelo veterinário responsável.

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  1. Gato muito agitado no consultório tem glicemia de 320 mg/dL, sem glicosúria e com frutosamina normal. A interpretação mais provável é:

  2. Qual afirmação sobre o diabetes no gato está correta?

  3. Na cetoacidose diabética, a hemogasometria tipicamente mostra:

  4. Por que uma fita urinária negativa para cetonas não exclui cetoacidose?

No próximo passo da trilha endócrina: tireoide, hipotireoidismo canino e hipertireoidismo felino.

Referências

  1. Feldman, E. C.; Nelson, R. W.; Reusch, C. E.; Scott-Moncrieff, J. C. R.; Behrend, E. N. Canine and Feline Endocrinology. 4. ed. St. Louis: Elsevier Saunders, 2015.
  2. Nelson, R. W.; Couto, C. G. Medicina Interna de Pequenos Animais. 6. ed. Rio de Janeiro: Elsevier, 2023.
  3. Klein, B. G. Cunningham — Tratado de Fisiologia Veterinária. 6. ed. Rio de Janeiro: Elsevier, 2021.
  4. Ettinger, S. J.; Feldman, E. C.; Côté, E. Textbook of Veterinary Internal Medicine. 8. ed. St. Louis: Elsevier, 2017.
  5. DiBartola, S. P. Fluid, Electrolyte, and Acid-Base Disorders in Small Animal Practice. 4. ed. St. Louis: Elsevier Saunders, 2012.

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