Consolidação de fraturas: fases e o que esperar no raio-X

Consolidação de fraturas: inflamação, calo mole, calo duro e remodelação, cicatrização primária x secundária e sinais radiográficos de não união e osteomielite.

Por Equipe AjudaVet··6 min de leitura
Ilustração de um cão com o membro pélvico enfaixado descansando ao lado de um negatoscópio com a radiografia de um osso em consolidação

O cão operou a fratura de fêmur há seis semanas e volta para o controle. Você coloca a radiografia no negatoscópio e se pergunta: isso está consolidando bem, está atrasado ou tem alguma coisa errada? Responder exige saber como o osso cicatriza, quanto tempo cada fase leva e como a consolidação de fraturas aparece no raio-X.

As quatro fases da consolidação óssea

Lembre que o osso é um tecido vivo, remodelado o tempo todo por osteoblastos e osteoclastos (revise em fisiologia óssea, cálcio e PTH). Após uma fratura, ele refaz em pequena escala o que fez no desenvolvimento.

Da fratura ao osso remodelado
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    Fase inflamatória (primeiros dias)

    Forma-se o hematoma, que traz plaquetas, citocinas e fatores de crescimento. Há necrose das bordas ósseas e recrutamento de células mesenquimais. No raio-X: linha de fratura nítida e edema de tecidos moles.

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    Calo mole (aproximadamente 1 a 3 semanas)

    O hematoma vira tecido de granulação e depois fibrocartilagem, que estabiliza parcialmente os fragmentos. No raio-X: as bordas ficam menos nítidas, o traço pode parecer mais largo por reabsorção e surge reação periosteal discreta, ainda pouco mineralizada.

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    Calo duro (aproximadamente semanas a poucos meses)

    A cartilagem se mineraliza e é substituída por osso imaturo (ossificação endocondral). No raio-X: calo mineralizado ponteando o traço, que vai ficando cada vez menos visível.

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    Remodelação (meses a anos)

    O osso imaturo é trocado por osso lamelar, o calo diminui e o canal medular se restabelece, seguindo as cargas (lei de Wolff). No raio-X: calo liso, bem delimitado e menor, com cortical contínua.

Uma ideia que ajuda a entender tudo: cada tecido tolera um nível de deformação (movimento entre os fragmentos). Tecido de granulação tolera muita, fibrocartilagem tolera menos, e osso tolera pouquíssima. O calo funciona como uma “escada”: cada tecido estabiliza a fratura o suficiente para o próximo se formar.

Quatro etapas lado a lado da consolidação de um osso longo: hematoma, calo mole cartilaginoso, calo ósseo mineralizado e osso remodelado
A consolidação secundária passa por hematoma, calo mole, calo duro e remodelação; cada tecido estabiliza a fratura para o próximo se formar.

Consolidação primária x secundária

Primária (direta)

  • Exige redução anatômica e estabilidade absoluta
  • Típica de placa com compressão ou parafusos interfragmentários
  • Os osteons atravessam o traço diretamente (cones de corte)
  • No raio-X: pouco ou nenhum calo; o traço vai desaparecendo
  • Calo exuberante aqui sugere instabilidade

Secundária (indireta)

  • Ocorre com estabilidade relativa (algum micromovimento)
  • Pinos intramedulares, fixador externo, placa em ponte, haste bloqueada, coaptação externa
  • Passa pelas fases de calo mole e calo duro
  • No raio-X: calo periosteal esperado e desejável
  • Preserva melhor a biologia em fraturas cominutivas

Por isso, a mesma imagem pode ser normal ou preocupante dependendo do implante. Ausência de calo é esperada após uma placa de compressão bem aplicada, mas preocupante após um fixador externo em fratura cominutiva. Saiba sempre qual fixação foi usada antes de interpretar o controle.

Quanto tempo leva? Depende, e muito

Animais jovens têm periósteo espesso, muito ativo e boa vascularização: consolidam bem mais rápido. Os valores abaixo são aproximados e didáticos, adaptados das tabelas clássicas de ortopedia de pequenos animais, e servem apenas como ordem de grandeza para a união clínica:

Idade Fixação com estabilidade relativa (pinos, fixador externo) Placa óssea
Menos de 3 meses Cerca de 2 a 3 semanas Cerca de 4 semanas
3 a 6 meses Cerca de 4 a 6 semanas Cerca de 2 a 3 meses
6 a 12 meses Cerca de 5 a 8 semanas Cerca de 3 a 5 meses
Acima de 1 ano Cerca de 7 a 12 semanas Cerca de 5 meses a 1 ano

Outros fatores que atrasam: fraturas expostas, cominução intensa, perda de tecidos moles, baixa vascularização (o rádio e a ulna distais de cães de raças miniatura são o exemplo clássico), infecção, instabilidade, doenças sistêmicas e uso prolongado de alguns fármacos, como corticoides.

Sinais radiográficos de problema

Antes, uma regra: alterações ósseas levam tempo para aparecer. Lise e reação periosteal costumam ficar evidentes só após cerca de 10 a 14 dias do processo, então um raio-X precoce “normal” não exclui complicação. Para revisar o método de leitura, veja como ler uma radiografia.

Situação O que você vê
Retardo de consolidação Consolidação mais lenta que o esperado, mas ainda progredindo: há atividade biológica, o calo existe, só não fechou
Não união viável (hipertrófica, oligotrófica) Traço persistente; calo abundante que não une os fragmentos (“pata de elefante”) ou pouco calo com bordas ativas; geralmente ligada a instabilidade
Não união não viável (atrófica) Extremidades arredondadas, escleróticas e afinadas, canal medular fechado (tampão ósseo), ausência de calo; pode formar pseudoartrose
Má união O osso consolidou, mas com desvio angular, rotacional ou encurtamento
Osteomielite Reação periosteal irregular e agressiva, lise ao redor dos implantes, sequestro (fragmento radiopaco sem vascularização) envolto por invólucro, aumento de tecidos moles
Falha ou soltura de implante Halo radioluzente ao redor de pinos ou parafusos, migração, dobra ou quebra do implante, perda da redução

Quando reavaliar

  • Pós-operatório imediato: radiografias em duas projeções ortogonais para documentar alinhamento, redução e posição dos implantes.
  • Controles seriados: em geral a cada 4 a 6 semanas em adultos e em intervalos menores em filhotes, até a união.
  • Antes do previsto: piora da claudicação, dor, febre, secreção, edema ou perda de apoio após melhora inicial.
  • Retirada de implantes: só depois de sinais clínicos e radiográficos de união (calo ponteando as corticais em pelo menos duas projeções).

Revise em 1 minuto

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  1. Seis semanas após a osteossíntese de tíbia com placa de compressão e redução anatômica, não há calo visível e o traço está menos nítido. A interpretação mais adequada é:

  2. Calo abundante nas duas extremidades, sem pontear o traço, após fixação instável, sugere:

  3. Qual achado radiográfico sugere osteomielite após uma osteossíntese?

  4. Por que um raio-X normal 3 dias após a cirurgia não exclui osteomielite?

No próximo passo da trilha, vamos para uma das doenças ortopédicas mais estudadas em cães: displasia coxofemoral.

Referências

  1. DeCamp, C. E. et al. Brinker, Piermattei and Flo’s Handbook of Small Animal Orthopedics and Fracture Repair. 5. ed. St. Louis: Elsevier, 2016.
  2. Fossum, T. W. Cirurgia de Pequenos Animais. 5. ed. Rio de Janeiro: Elsevier, 2021.
  3. Thrall, D. E. Diagnóstico de Radiologia Veterinária. 7. ed. Rio de Janeiro: Elsevier, 2019.
  4. Johnston, S. A.; Tobias, K. M. Veterinary Surgery: Small Animal. 2. ed. St. Louis: Elsevier, 2018.

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