Luxação de patela: graus I a IV

Luxação de patela em cães e gatos: medial x lateral, os graus I a IV, deformidades associadas, o saltitar típico, quando operar e a relação com o ligamento cruzado.

Por Equipe AjudaVet··5 min de leitura
Ilustração de um Poodle pequeno saltitando com um membro pélvico erguido e o joelho em transparência mostrando a patela deslocada

O tutor do Poodle conta que, de vez em quando, o cão “levanta uma perninha de trás” por alguns passos e depois volta a andar normal, como se nada tivesse acontecido. Esse saltitar é a cara da luxação de patela, uma das alterações ortopédicas mais comuns em cães de raças pequenas. Saber classificar os graus I a IV é o que orienta prognóstico e conduta.

Como a patela funciona

A patela é um osso sesamoide inserido no tendão do quadríceps. O conjunto quadríceps → patela → ligamento patelar → tuberosidade tibial forma o mecanismo extensor do joelho. Para que a patela deslize sem sair do lugar, três coisas precisam estar alinhadas:

  • um sulco troclear com profundidade suficiente;
  • o quadríceps puxando em linha reta sobre o sulco;
  • a tuberosidade tibial alinhada com esse eixo.

Se uma delas falha, a força do quadríceps puxa a patela para fora do sulco toda vez que o joelho se movimenta.

Medial x lateral

Luxação medial

  • A forma mais comum em todas as raças
  • Típica de raças pequenas e miniatura: Poodle, Yorkshire, Lulu da Pomerânia, Chihuahua, Maltês
  • Associada a rotação interna da tíbia e desvio medial da tuberosidade
  • Comumente bilateral, de origem do desenvolvimento

Luxação lateral

  • Menos frequente
  • Mais associada a raças grandes e gigantes
  • Pode estar relacionada a alterações de conformação como joelho valgo
  • Também pode ser traumática

Gatos também podem ter luxação de patela, geralmente medial, com algumas raças sobrerrepresentadas (como Devon Rex e Abissínio). A forma traumática pode ocorrer em qualquer raça e direção.

Quatro vistas frontais de joelho de cão com a patela progressivamente mais deslocada do sulco troclear, representando os graus de luxação
Dos graus I a IV, a patela passa de luxar só sob pressão a ficar permanentemente fora de um sulco troclear cada vez mais raso.

Os graus I a IV

A classificação mais usada se baseia no exame físico: você tenta luxar e reduzir a patela com o joelho em extensão e observa o que acontece quando solta.

Grau O que você encontra no exame Sinais clínicos mais comuns
I A patela pode ser luxada manualmente com o joelho em extensão, mas volta sozinha ao sulco quando você solta Geralmente ausentes; achado de exame
II A patela luxa com a flexão do joelho ou manualmente e permanece luxada até o joelho ser estendido ou a patela ser reduzida Saltitar intermitente: o cão carrega o membro por alguns passos e depois volta a apoiar
III A patela fica luxada a maior parte do tempo, pode ser reduzida manualmente, mas volta a luxar logo que você solta Claudicação mais frequente, joelho mantido em semiflexão, deformidades evidentes
IV A patela está permanentemente luxada e não pode ser reduzida manualmente Andar agachado, incapacidade de estender o joelho, deformidades ósseas graves; em filhotes, pode comprometer o crescimento do membro

O grau descreve a instabilidade, não necessariamente a dor: um cão grau II pode ter mais queixa clínica do que outro grau III adaptado.

Como examinar a patela
  1. 1
    Observe a marcha

    Procure o saltitar, o apoio com joelho semiflexionado ou postura agachada e arqueada.

  2. 2
    Localize os pontos de referência

    Com o animal em estação ou em decúbito lateral, palpe a tuberosidade tibial e siga o ligamento patelar até a patela.

  3. 3
    Teste em extensão

    Com o joelho estendido e o pé rodado internamente, empurre a patela medialmente; depois, com o pé rodado externamente, empurre lateralmente.

  4. 4
    Flexione e estenda

    Observe se a patela sai ou volta ao sulco durante o movimento.

  5. 5
    Classifique e compare

    Atribua o grau a cada membro e avalie também o ligamento cruzado cranial e os quadris.

Deformidades associadas

Na luxação medial do desenvolvimento, o problema não é só a patela. Fazem parte do quadro, em graus variáveis:

  • sulco troclear raso ou até ausente nos graus mais altos;
  • desvio medial do quadríceps e da tuberosidade tibial;
  • rotação interna da tíbia;
  • arqueamento lateral do fêmur distal (varo) e alterações do colo femoral;
  • tecidos moles mediais contraídos e laterais distendidos.

Por isso a radiografia (projeções craniocaudal e mediolateral do joelho, e às vezes do membro inteiro) é útil para avaliar o alinhamento ósseo, a posição da patela, sinais de artrose e para planejar a cirurgia. Para revisar a leitura sistemática, veja como ler uma radiografia.

Quando operar e a relação com o LCCr

Não existe regra única, mas, de forma geral:

  • Grau I sem sinais clínicos costuma ser apenas monitorado.
  • Grau II é operado quando há claudicação recorrente ou dor.
  • Graus III e IV costumam ter indicação cirúrgica, e no grau IV em filhotes a correção precoce ajuda a limitar deformidades de crescimento.

A cirurgia combina técnicas conforme o caso: aprofundamento do sulco troclear (trocleoplastia em cunha ou em bloco), transposição da tuberosidade tibial para realinhar o mecanismo extensor e reconstrução dos tecidos moles (imbricação de um lado, liberação do outro). Deformidades ósseas graves podem exigir osteotomias corretivas.

A relação com o ligamento cruzado cranial é importante: a luxação medial crônica altera a distribuição de forças e a rotação do joelho, sobrecarregando o ligamento. Muitos cães de meia-idade com luxação de patela de longa data se apresentam com piora súbita por ruptura do LCCr. Sempre faça o teste de gaveta e a compressão tibial nesses pacientes.

Revise em 1 minuto

Flashcards de revisão clique para virar
Teste seu conhecimento0/4
  1. Um Yorkshire tem a patela luxada a maior parte do tempo; você consegue reduzi-la, mas ela volta a luxar assim que solta. Qual o grau?

  2. O sinal clínico mais característico da luxação de patela grau II é:

  3. Qual alteração NÃO costuma fazer parte da luxação medial do desenvolvimento?

  4. Um Poodle de 8 anos com luxação medial grau II conhecida passa a não apoiar o membro de forma súbita. Qual diagnóstico deve ser investigado primeiro?

Você chegou ao fim da trilha musculoesquelética. Para revisar o começo, volte à contração muscular.

Referências

  1. DeCamp, C. E. et al. Brinker, Piermattei and Flo’s Handbook of Small Animal Orthopedics and Fracture Repair. 5. ed. St. Louis: Elsevier, 2016.
  2. Fossum, T. W. Cirurgia de Pequenos Animais. 5. ed. Rio de Janeiro: Elsevier, 2021.
  3. Johnston, S. A.; Tobias, K. M. Veterinary Surgery: Small Animal. 2. ed. St. Louis: Elsevier, 2018.
  4. Nelson, R. W.; Couto, C. G. Medicina Interna de Pequenos Animais. 6. ed. Rio de Janeiro: GEN Guanabara Koogan, 2023.

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