Trombocitopenia: pseudotrombocitopenia e agregados plaquetários

Plaquetas baixas no hemograma? Aprenda a reconhecer agregados plaquetários, estimar plaquetas na lâmina e raciocinar sobre as causas reais de trombocitopenia.

Por Equipe AjudaVet··6 min de leitura
Ilustração de esfregaço sanguíneo sob a lente de um microscópio, com plaquetas soltas e um agregado plaquetário, ao lado de um gato tranquilo

O laudo diz “plaquetas: 45.000/µL” e o gato está ótimo, sem nenhuma petéquia. Doença grave ou erro de contagem? Em pacientes de pequenos animais, a pseudotrombocitopenia por agregados plaquetários é tão comum que a primeira regra da trombocitopenia é simples: antes de acreditar no número, olhe a lâmina.

Pseudotrombocitopenia: quando o número mente

Os analisadores contam plaquetas pelo tamanho das partículas. Isso gera dois problemas clássicos:

  • Agregados plaquetários: plaquetas grudadas umas nas outras são lidas como uma partícula grande (ou nem são contadas como plaquetas). A contagem cai artificialmente. Acontece com coleta demorada ou traumática, homogeneização inadequada, tempo até o processamento e ativação plaquetária na seringa.
  • Plaquetas grandes: no gato, as plaquetas são naturalmente grandes e o tamanho delas se sobrepõe ao das hemácias felinas, que são pequenas. O aparelho pode classificá-las como hemácias. No Cavalier, as macroplaquetas criam o mesmo problema.

Os gatos reúnem as duas coisas: plaquetas grandes e muito reativas, que agregam com facilidade, sobretudo em coletas difíceis. Por isso, trombocitopenia em gato sem sinais de sangramento é, até prova em contrário, uma pergunta para a lâmina.

Lâmina de esfregaço com agregados de plaquetas acumulados na borda e poucas plaquetas soltas na monocamada, destacados por uma lupa
Os agregados plaquetários se acumulam na borda do esfregaço: o analisador conta menos plaquetas do que realmente existem.

Como estimar plaquetas no esfregaço

Estimativa de plaquetas em 4 passos
  1. 1
    Varra a borda (franja) da lâmina em aumento menor

    É lá que os agregados se acumulam. Agregados presentes = a contagem do aparelho está subestimada.

  2. 2
    Escolha a monocamada

    Região em que as hemácias quase se tocam, sem se sobrepor.

  3. 3
    Conte plaquetas em 10 campos de imersão (objetiva de 100x)

    Calcule a média por campo.

  4. 4
    Multiplique pelo fator aproximado

    Em geral, cada plaqueta por campo corresponde a aproximadamente 15.000 a 20.000/µL. Muitas plaquetas por campo tornam a trombocitopenia improvável.

Com esse cálculo, uma média de cerca de 12 plaquetas por campo equivale a algo como 180.000 a 240.000/µL. O fator é aproximado e depende do microscópio e da espessura do esfregaço, mas basta para separar “normal” de “baixíssimo”. Como referência didática, a contagem costuma ficar em torno de 200.000 a 500.000/µL no cão e de 300.000 a 800.000/µL no gato; os intervalos variam entre laboratórios.

Macroplaquetas do Cavalier e outras particularidades de raça

Uma parcela importante dos Cavalier King Charles Spaniels tem macrotrombocitopenia hereditária, ligada a uma mutação na tubulina das plaquetas. Eles têm menos plaquetas, porém maiores: a massa plaquetária total (e o plaquetócrito) fica normal, a função é preservada e eles não sangram. O VPM (volume plaquetário médio) costuma estar aumentado.

Os Greyhounds e outros galgos também tendem a ter contagens mais baixas que outras raças, sem significado clínico. Reconhecer essas particularidades evita rotular um cão saudável como doente.

Trombocitopenia verdadeira: os 4 mecanismos

Mecanismo O que acontece Exemplos
Menor produção A medula não forma megacariócitos suficientes Fármacos mielotóxicos, estrógeno, FeLV, erliquiose crônica, neoplasias e infiltração medular
Consumo Plaquetas usadas mais rápido do que são repostas CID, hemorragia intensa, vasculite, trombose
Destruição Remoção imune ou não imune Trombocitopenia imunomediada primária ou secundária (infecções, fármacos, neoplasias)
Sequestro Plaquetas retidas em órgãos Esplenomegalia, hipotermia, torção esplênica (geralmente queda leve a moderada)

A intensidade ajuda a apontar o mecanismo. Quedas leves a moderadas são comuns no consumo e no sequestro. Contagens muito baixas, frequentemente abaixo de 20.000 a 30.000/µL, fazem pensar primeiro em destruição imunomediada. Hemorragias, mesmo graves, raramente derrubam as plaquetas a esse ponto.

Trombocitopenia imunomediada (TIM): anticorpos marcam as plaquetas para remoção por macrófagos, sobretudo no baço. A forma primária é descrita com mais frequência em cães de raças como Cocker Spaniel e Poodle e é um diagnóstico de exclusão: antes, descarte infecções (como erliquiose), fármacos e neoplasias. A medula costuma ter megacariócitos abundantes, e o VPM pode subir.

Erliquiose canina (Ehrlichia canis): na fase aguda, a trombocitopenia combina consumo (vasculite), destruição imune e sequestro esplênico. Na fase crônica grave, pode haver hipoplasia medular com pancitopenia — aí o problema passa a ser produção. Lembre também de Anaplasma platys, que causa trombocitopenia cíclica.

Coagulação intravascular disseminada (CID): é um consumo sistêmico de plaquetas e fatores. A trombocitopenia vem acompanhada de tempos de coagulação prolongados (TP e TTPa), aumento de D-dímeros e produtos de degradação de fibrina, redução de antitrombina e, muitas vezes, esquizócitos na lâmina. Sempre há uma doença de base: sepse, neoplasias como o hemangiossarcoma, pancreatite, choque.

Quando a trombocitopenia sangra

Hemostasia primária (plaquetas)

  • Petéquias e equimoses em pele e mucosas
  • Epistaxe, sangramento gengival, melena, hematúria, hifema
  • Sangramento prolongado após venopunção
  • Típico de trombocitopenia grave ou disfunção plaquetária

Hemostasia secundária (fatores)

  • Hematomas e sangramento em cavidades
  • Hemartrose, hemotórax, hemoabdome
  • Sangramento tardio após trauma ou cirurgia
  • Típico de rodenticidas anticoagulantes e hemofilias

Com função plaquetária normal, o sangramento espontâneo costuma surgir quando a contagem cai, em geral, abaixo de aproximadamente 30.000 a 50.000/µL, e se torna mais provável abaixo de cerca de 20.000/µL. O risco aumenta com trauma, cirurgia, inflamação vascular ou uso de fármacos que afetam a função plaquetária. Se o paciente sangra muito com trombocitopenia só leve, a plaqueta provavelmente não é a única culpada: investigue coagulopatia ou disfunção plaquetária.

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Flashcards de revisão clique para virar
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  1. Um gato saudável, coletado com dificuldade, tem 70.000 plaquetas/µL no analisador e nenhum sinal de sangramento. O próximo passo é:

  2. Um Cavalier King Charles Spaniel tem plaquetas abaixo do intervalo, VPM aumentado e nenhuma alteração hemostática. A explicação mais provável é:

  3. Qual combinação é mais compatível com CID?

  4. Um cão com petéquias, epistaxe e 10.000 plaquetas/µL confirmadas na lâmina. Qual mecanismo deve ser considerado primeiro?

No próximo passo da trilha, saímos do hemograma e vamos para a bioquímica: enzimas hepáticas ALT, FA e GGT.

Referências

  1. Thrall, M. A. et al. Hematologia e Bioquímica Clínica Veterinária. 2. ed. Rio de Janeiro: Roca, 2015.
  2. Harvey, J. W. Veterinary Hematology: A Diagnostic Guide and Color Atlas. St. Louis: Elsevier Saunders, 2012.
  3. Weiss, D. J.; Wardrop, K. J. Schalm’s Veterinary Hematology. 6. ed. Ames: Wiley-Blackwell, 2010.
  4. Nelson, R. W.; Couto, C. G. Medicina Interna de Pequenos Animais. 5. ed. Rio de Janeiro: Elsevier, 2015.

Conteúdo educativo. Valores de referência variam entre laboratórios, equipamentos e literatura — sempre confira os intervalos do seu laboratório e a bibliografia oficial antes de aplicar na rotina.

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