
O laudo diz “plaquetas: 45.000/µL” e o gato está ótimo, sem nenhuma petéquia. Doença grave ou erro de contagem? Em pacientes de pequenos animais, a pseudotrombocitopenia por agregados plaquetários é tão comum que a primeira regra da trombocitopenia é simples: antes de acreditar no número, olhe a lâmina.
Pseudotrombocitopenia: quando o número mente
Os analisadores contam plaquetas pelo tamanho das partículas. Isso gera dois problemas clássicos:
- Agregados plaquetários: plaquetas grudadas umas nas outras são lidas como uma partícula grande (ou nem são contadas como plaquetas). A contagem cai artificialmente. Acontece com coleta demorada ou traumática, homogeneização inadequada, tempo até o processamento e ativação plaquetária na seringa.
- Plaquetas grandes: no gato, as plaquetas são naturalmente grandes e o tamanho delas se sobrepõe ao das hemácias felinas, que são pequenas. O aparelho pode classificá-las como hemácias. No Cavalier, as macroplaquetas criam o mesmo problema.
Os gatos reúnem as duas coisas: plaquetas grandes e muito reativas, que agregam com facilidade, sobretudo em coletas difíceis. Por isso, trombocitopenia em gato sem sinais de sangramento é, até prova em contrário, uma pergunta para a lâmina.

Como estimar plaquetas no esfregaço
- 1Varra a borda (franja) da lâmina em aumento menor
É lá que os agregados se acumulam. Agregados presentes = a contagem do aparelho está subestimada.
- 2Escolha a monocamada
Região em que as hemácias quase se tocam, sem se sobrepor.
- 3Conte plaquetas em 10 campos de imersão (objetiva de 100x)
Calcule a média por campo.
- 4Multiplique pelo fator aproximado
Em geral, cada plaqueta por campo corresponde a aproximadamente 15.000 a 20.000/µL. Muitas plaquetas por campo tornam a trombocitopenia improvável.
Com esse cálculo, uma média de cerca de 12 plaquetas por campo equivale a algo como 180.000 a 240.000/µL. O fator é aproximado e depende do microscópio e da espessura do esfregaço, mas basta para separar “normal” de “baixíssimo”. Como referência didática, a contagem costuma ficar em torno de 200.000 a 500.000/µL no cão e de 300.000 a 800.000/µL no gato; os intervalos variam entre laboratórios.
Macroplaquetas do Cavalier e outras particularidades de raça
Uma parcela importante dos Cavalier King Charles Spaniels tem macrotrombocitopenia hereditária, ligada a uma mutação na tubulina das plaquetas. Eles têm menos plaquetas, porém maiores: a massa plaquetária total (e o plaquetócrito) fica normal, a função é preservada e eles não sangram. O VPM (volume plaquetário médio) costuma estar aumentado.
Os Greyhounds e outros galgos também tendem a ter contagens mais baixas que outras raças, sem significado clínico. Reconhecer essas particularidades evita rotular um cão saudável como doente.
Trombocitopenia verdadeira: os 4 mecanismos
| Mecanismo | O que acontece | Exemplos |
|---|---|---|
| Menor produção | A medula não forma megacariócitos suficientes | Fármacos mielotóxicos, estrógeno, FeLV, erliquiose crônica, neoplasias e infiltração medular |
| Consumo | Plaquetas usadas mais rápido do que são repostas | CID, hemorragia intensa, vasculite, trombose |
| Destruição | Remoção imune ou não imune | Trombocitopenia imunomediada primária ou secundária (infecções, fármacos, neoplasias) |
| Sequestro | Plaquetas retidas em órgãos | Esplenomegalia, hipotermia, torção esplênica (geralmente queda leve a moderada) |
A intensidade ajuda a apontar o mecanismo. Quedas leves a moderadas são comuns no consumo e no sequestro. Contagens muito baixas, frequentemente abaixo de 20.000 a 30.000/µL, fazem pensar primeiro em destruição imunomediada. Hemorragias, mesmo graves, raramente derrubam as plaquetas a esse ponto.
Trombocitopenia imunomediada (TIM): anticorpos marcam as plaquetas para remoção por macrófagos, sobretudo no baço. A forma primária é descrita com mais frequência em cães de raças como Cocker Spaniel e Poodle e é um diagnóstico de exclusão: antes, descarte infecções (como erliquiose), fármacos e neoplasias. A medula costuma ter megacariócitos abundantes, e o VPM pode subir.
Erliquiose canina (Ehrlichia canis): na fase aguda, a trombocitopenia combina consumo (vasculite), destruição imune e sequestro esplênico. Na fase crônica grave, pode haver hipoplasia medular com pancitopenia — aí o problema passa a ser produção. Lembre também de Anaplasma platys, que causa trombocitopenia cíclica.
Coagulação intravascular disseminada (CID): é um consumo sistêmico de plaquetas e fatores. A trombocitopenia vem acompanhada de tempos de coagulação prolongados (TP e TTPa), aumento de D-dímeros e produtos de degradação de fibrina, redução de antitrombina e, muitas vezes, esquizócitos na lâmina. Sempre há uma doença de base: sepse, neoplasias como o hemangiossarcoma, pancreatite, choque.
Quando a trombocitopenia sangra
Hemostasia primária (plaquetas)
- Petéquias e equimoses em pele e mucosas
- Epistaxe, sangramento gengival, melena, hematúria, hifema
- Sangramento prolongado após venopunção
- Típico de trombocitopenia grave ou disfunção plaquetária
Hemostasia secundária (fatores)
- Hematomas e sangramento em cavidades
- Hemartrose, hemotórax, hemoabdome
- Sangramento tardio após trauma ou cirurgia
- Típico de rodenticidas anticoagulantes e hemofilias
Com função plaquetária normal, o sangramento espontâneo costuma surgir quando a contagem cai, em geral, abaixo de aproximadamente 30.000 a 50.000/µL, e se torna mais provável abaixo de cerca de 20.000/µL. O risco aumenta com trauma, cirurgia, inflamação vascular ou uso de fármacos que afetam a função plaquetária. Se o paciente sangra muito com trombocitopenia só leve, a plaqueta provavelmente não é a única culpada: investigue coagulopatia ou disfunção plaquetária.
Revise em 1 minuto
Um gato saudável, coletado com dificuldade, tem 70.000 plaquetas/µL no analisador e nenhum sinal de sangramento. O próximo passo é:
Agregados são muito comuns em gatos e reduzem falsamente a contagem; a lâmina confirma ou derruba o número.
Um Cavalier King Charles Spaniel tem plaquetas abaixo do intervalo, VPM aumentado e nenhuma alteração hemostática. A explicação mais provável é:
Muitos Cavaliers têm plaquetas maiores e em menor número, com massa plaquetária e função normais.
Qual combinação é mais compatível com CID?
A CID consome plaquetas e fatores ao mesmo tempo, com fibrinólise aumentada (D-dímeros).
Um cão com petéquias, epistaxe e 10.000 plaquetas/µL confirmadas na lâmina. Qual mecanismo deve ser considerado primeiro?
Contagens extremamente baixas são típicas de destruição imune; antes de rotular como primária, descarte erliquiose, fármacos e neoplasias.
No próximo passo da trilha, saímos do hemograma e vamos para a bioquímica: enzimas hepáticas ALT, FA e GGT.
Referências
- Thrall, M. A. et al. Hematologia e Bioquímica Clínica Veterinária. 2. ed. Rio de Janeiro: Roca, 2015.
- Harvey, J. W. Veterinary Hematology: A Diagnostic Guide and Color Atlas. St. Louis: Elsevier Saunders, 2012.
- Weiss, D. J.; Wardrop, K. J. Schalm’s Veterinary Hematology. 6. ed. Ames: Wiley-Blackwell, 2010.
- Nelson, R. W.; Couto, C. G. Medicina Interna de Pequenos Animais. 5. ed. Rio de Janeiro: Elsevier, 2015.
Conteúdo educativo. Valores de referência variam entre laboratórios, equipamentos e literatura — sempre confira os intervalos do seu laboratório e a bibliografia oficial antes de aplicar na rotina.


