
Um cão de porte médio, um pouco acima do peso, voltou do parque sem apoiar o membro pélvico. Ou então vem mancando “de vez em quando” há meses, piorando depois do exercício. Nos dois cenários, a ruptura do ligamento cruzado cranial está no topo da lista — e o diagnóstico começa nas suas mãos, com o teste de gaveta e o teste de compressão tibial.
Função do LCCr e por que ele rompe em cães
O LCCr vai da face caudomedial do côndilo femoral lateral até a área intercondilar cranial da tíbia. Ele tem duas bandas: a craniomedial, tensa na flexão e na extensão, e a caudolateral, tensa apenas na extensão.
O platô tibial do cão é inclinado caudalmente. Ao apoiar o peso, a força de compressão tende a fazer o fêmur “escorregar” para trás sobre esse plano — ou, olhando pelo outro lado, a tíbia avançar cranialmente. Essa força é o impulso tibial cranial, e o LCCr é o principal freio contra ela.
Na maioria dos cães, a doença é degenerativa: ocorre perda da organização das fibras de colágeno, inflamação sinovial e rupturas parciais que evoluem para ruptura completa, às vezes com um evento banal como gatilho. Fatores associados incluem sobrepeso, raças predispostas (Rottweiler, Labrador, Terra-Nova, Staffordshire, entre outras), conformação do membro e castração precoce em algumas raças. Uma parcela importante dos cães acometidos rompe o ligamento contralateral nos anos seguintes.

Teste de gaveta cranial: como fazer
- 1Posicione o paciente
Decúbito lateral com o membro afetado para cima, ou em estação em cães cooperativos. Sedação melhora muito a sensibilidade.
- 2Mão no fêmur
Polegar atrás da fabela lateral e indicador sobre a patela.
- 3Mão na tíbia
Polegar atrás da cabeça da fíbula e indicador sobre a tuberosidade tibial.
- 4Movimente
Mantenha o fêmur fixo e empurre a tíbia cranialmente, sem rodá-la. Repita com o joelho em extensão, em ângulo de apoio e em flexão.
- 5Interprete
Deslocamento cranial da tíbia com parada macia ou sem parada indica ruptura. Compare sempre com o membro contralateral.
Na ruptura parcial da banda craniomedial, a gaveta pode aparecer apenas em flexão, pois a banda caudolateral ainda segura em extensão. Em filhotes, há uma pequena gaveta fisiológica (“gaveta de filhote”), mas com parada firme e abrupta.
Teste de compressão tibial
O teste de compressão tibial reproduz o impulso tibial cranial que acontece no apoio.
- Uma mão segura a porção distal do fêmur, com o indicador estendido sobre a patela até tocar a tuberosidade tibial.
- A outra mão segura o metatarso e flexiona o tarso, mantendo o joelho em leve flexão (ângulo próximo ao de apoio).
- A flexão do tarso tensiona o gastrocnêmio e comprime a tíbia contra o fêmur. Se o LCCr estiver rompido, o indicador sente a tuberosidade tibial avançar cranialmente.
É frequentemente mais fácil de executar no animal acordado e menos sensível à tensão muscular do que a gaveta, por isso os dois testes se complementam.
Menisco, efusão e o que o raio-X mostra
O menisco medial é firmemente preso à tíbia. Com a instabilidade, o côndilo femoral esmaga seu corno caudal a cada passo. A lesão meniscal pode gerar um clique audível ou palpável na flexão e extensão e costuma piorar a dor e a claudicação. Pode estar presente no diagnóstico ou surgir depois da cirurgia.
No exame clínico, procure também efusão articular (patela com contorno menos definido e tendão patelar pouco palpável), dor na hiperextensão, atrofia de quadríceps e o teste de sentar: o cão senta com o membro afetado estendido lateralmente.
A radiografia é essencial para excluir outros diferenciais (neoplasia, fraturas, luxação de patela, avulsões) e documentar a artrose. Na projeção mediolateral, os sinais mais úteis são:
| Sinal radiográfico | O que significa |
|---|---|
| Sinal da gordura infrapatelar | O triângulo radiotransparente de gordura atrás do tendão patelar fica reduzido ou deslocado pela efusão: sinal sensível de líquido articular |
| Distensão caudal da cápsula | Aumento de opacidade de tecido mole caudal ao joelho |
| Osteófitos | Na patela, nas cristas trocleares, no platô tibial e na fabela: indicam doença crônica |
| Deslocamento cranial da tíbia | Pode ser visto em alguns casos, sobretudo em projeções com compressão tibial |
| Fragmento de avulsão | Em rupturas traumáticas, pequeno fragmento na inserção do ligamento |
Para revisar a leitura sistemática, veja como ler uma radiografia. Ultrassonografia, ressonância e artroscopia avaliam melhor menisco e ligamento quando disponíveis.
Opções cirúrgicas e reabilitação (conceitos)
Técnicas extracapsulares
- Sutura extracapsular lateral (fabelotibial): um fio resistente imita o ligamento
- Estabilização temporária até a fibrose periarticular assumir
- Tradicionalmente mais usada em cães pequenos e gatos
- Sem osteotomia
Osteotomias (mudam a geometria)
- TPLO: nivela o platô tibial, reduzindo o impulso tibial cranial
- TTA: avança a tuberosidade para o tendão patelar ficar perpendicular ao platô
- Tornam o LCCr desnecessário no apoio, em vez de substituí-lo
- Muito usadas em cães médios e grandes
A escolha depende de porte, conformação, atividade, experiência do cirurgião e custo. O tratamento conservador (perda de peso, restrição de atividade, fisioterapia e analgesia) pode ser considerado em alguns casos, com resultados em geral melhores em cães pequenos. Em qualquer técnica, o menisco precisa ser inspecionado e, se lesado, tratado.
A reabilitação é parte do tratamento: atividade restrita e passeios curtos na guia nas primeiras semanas, crioterapia no pós-operatório imediato, exercícios de amplitude de movimento, fortalecimento progressivo, hidroterapia quando disponível e controle de peso por toda a vida.
Revise em 1 minuto
Um Labrador tem claudicação crônica e efusão, mas gaveta negativa acordado. Qual a melhor conduta para o exame?
Tensão muscular e fibrose causam falso negativo; a sedação aumenta a sensibilidade da gaveta.
Gaveta presente apenas com o joelho em flexão sugere:
A banda caudolateral é tensa só em extensão; se ela estiver íntegra, a instabilidade aparece apenas em flexão.
Na radiografia mediolateral do joelho, a redução do triângulo de gordura infrapatelar indica:
O líquido articular e a sinovite comprimem e deslocam a gordura infrapatelar.
Qual técnica estabiliza o joelho alterando a inclinação do platô tibial?
A TPLO roda o segmento proximal da tíbia para nivelar o platô, eliminando o impulso tibial cranial.
No próximo passo da trilha, vamos para outra causa clássica de claudicação: luxação de patela.
Referências
- DeCamp, C. E. et al. Brinker, Piermattei and Flo’s Handbook of Small Animal Orthopedics and Fracture Repair. 5. ed. St. Louis: Elsevier, 2016.
- Fossum, T. W. Cirurgia de Pequenos Animais. 5. ed. Rio de Janeiro: Elsevier, 2021.
- Johnston, S. A.; Tobias, K. M. Veterinary Surgery: Small Animal. 2. ed. St. Louis: Elsevier, 2018.
- Thrall, D. E. Diagnóstico de Radiologia Veterinária. 7. ed. Rio de Janeiro: Elsevier, 2019.
Conteúdo educativo. Valores de referência variam entre laboratórios, equipamentos e literatura — sempre confira os intervalos do seu laboratório e a bibliografia oficial antes de aplicar na rotina.


