
O tutor do Poodle conta que, de vez em quando, o cão “levanta uma perninha de trás” por alguns passos e depois volta a andar normal, como se nada tivesse acontecido. Esse saltitar é a cara da luxação de patela, uma das alterações ortopédicas mais comuns em cães de raças pequenas. Saber classificar os graus I a IV é o que orienta prognóstico e conduta.
Como a patela funciona
A patela é um osso sesamoide inserido no tendão do quadríceps. O conjunto quadríceps → patela → ligamento patelar → tuberosidade tibial forma o mecanismo extensor do joelho. Para que a patela deslize sem sair do lugar, três coisas precisam estar alinhadas:
- um sulco troclear com profundidade suficiente;
- o quadríceps puxando em linha reta sobre o sulco;
- a tuberosidade tibial alinhada com esse eixo.
Se uma delas falha, a força do quadríceps puxa a patela para fora do sulco toda vez que o joelho se movimenta.
Medial x lateral
Luxação medial
- A forma mais comum em todas as raças
- Típica de raças pequenas e miniatura: Poodle, Yorkshire, Lulu da Pomerânia, Chihuahua, Maltês
- Associada a rotação interna da tíbia e desvio medial da tuberosidade
- Comumente bilateral, de origem do desenvolvimento
Luxação lateral
- Menos frequente
- Mais associada a raças grandes e gigantes
- Pode estar relacionada a alterações de conformação como joelho valgo
- Também pode ser traumática
Gatos também podem ter luxação de patela, geralmente medial, com algumas raças sobrerrepresentadas (como Devon Rex e Abissínio). A forma traumática pode ocorrer em qualquer raça e direção.

Os graus I a IV
A classificação mais usada se baseia no exame físico: você tenta luxar e reduzir a patela com o joelho em extensão e observa o que acontece quando solta.
| Grau | O que você encontra no exame | Sinais clínicos mais comuns |
|---|---|---|
| I | A patela pode ser luxada manualmente com o joelho em extensão, mas volta sozinha ao sulco quando você solta | Geralmente ausentes; achado de exame |
| II | A patela luxa com a flexão do joelho ou manualmente e permanece luxada até o joelho ser estendido ou a patela ser reduzida | Saltitar intermitente: o cão carrega o membro por alguns passos e depois volta a apoiar |
| III | A patela fica luxada a maior parte do tempo, pode ser reduzida manualmente, mas volta a luxar logo que você solta | Claudicação mais frequente, joelho mantido em semiflexão, deformidades evidentes |
| IV | A patela está permanentemente luxada e não pode ser reduzida manualmente | Andar agachado, incapacidade de estender o joelho, deformidades ósseas graves; em filhotes, pode comprometer o crescimento do membro |
O grau descreve a instabilidade, não necessariamente a dor: um cão grau II pode ter mais queixa clínica do que outro grau III adaptado.
- 1Observe a marcha
Procure o saltitar, o apoio com joelho semiflexionado ou postura agachada e arqueada.
- 2Localize os pontos de referência
Com o animal em estação ou em decúbito lateral, palpe a tuberosidade tibial e siga o ligamento patelar até a patela.
- 3Teste em extensão
Com o joelho estendido e o pé rodado internamente, empurre a patela medialmente; depois, com o pé rodado externamente, empurre lateralmente.
- 4Flexione e estenda
Observe se a patela sai ou volta ao sulco durante o movimento.
- 5Classifique e compare
Atribua o grau a cada membro e avalie também o ligamento cruzado cranial e os quadris.
Deformidades associadas
Na luxação medial do desenvolvimento, o problema não é só a patela. Fazem parte do quadro, em graus variáveis:
- sulco troclear raso ou até ausente nos graus mais altos;
- desvio medial do quadríceps e da tuberosidade tibial;
- rotação interna da tíbia;
- arqueamento lateral do fêmur distal (varo) e alterações do colo femoral;
- tecidos moles mediais contraídos e laterais distendidos.
Por isso a radiografia (projeções craniocaudal e mediolateral do joelho, e às vezes do membro inteiro) é útil para avaliar o alinhamento ósseo, a posição da patela, sinais de artrose e para planejar a cirurgia. Para revisar a leitura sistemática, veja como ler uma radiografia.
Quando operar e a relação com o LCCr
Não existe regra única, mas, de forma geral:
- Grau I sem sinais clínicos costuma ser apenas monitorado.
- Grau II é operado quando há claudicação recorrente ou dor.
- Graus III e IV costumam ter indicação cirúrgica, e no grau IV em filhotes a correção precoce ajuda a limitar deformidades de crescimento.
A cirurgia combina técnicas conforme o caso: aprofundamento do sulco troclear (trocleoplastia em cunha ou em bloco), transposição da tuberosidade tibial para realinhar o mecanismo extensor e reconstrução dos tecidos moles (imbricação de um lado, liberação do outro). Deformidades ósseas graves podem exigir osteotomias corretivas.
A relação com o ligamento cruzado cranial é importante: a luxação medial crônica altera a distribuição de forças e a rotação do joelho, sobrecarregando o ligamento. Muitos cães de meia-idade com luxação de patela de longa data se apresentam com piora súbita por ruptura do LCCr. Sempre faça o teste de gaveta e a compressão tibial nesses pacientes.
Revise em 1 minuto
Um Yorkshire tem a patela luxada a maior parte do tempo; você consegue reduzi-la, mas ela volta a luxar assim que solta. Qual o grau?
No grau III a patela permanece luxada, é redutível manualmente e reluxa espontaneamente.
O sinal clínico mais característico da luxação de patela grau II é:
A patela sai do sulco durante a flexão e o cão carrega o membro até ela voltar ao lugar.
Qual alteração NÃO costuma fazer parte da luxação medial do desenvolvimento?
O sulco tende a ser raso, não profundo; por isso a trocleoplastia busca aprofundá-lo.
Um Poodle de 8 anos com luxação medial grau II conhecida passa a não apoiar o membro de forma súbita. Qual diagnóstico deve ser investigado primeiro?
A luxação crônica sobrecarrega o LCCr; piora súbita da claudicação nesse contexto sugere ruptura associada.
Você chegou ao fim da trilha musculoesquelética. Para revisar o começo, volte à contração muscular.
Referências
- DeCamp, C. E. et al. Brinker, Piermattei and Flo’s Handbook of Small Animal Orthopedics and Fracture Repair. 5. ed. St. Louis: Elsevier, 2016.
- Fossum, T. W. Cirurgia de Pequenos Animais. 5. ed. Rio de Janeiro: Elsevier, 2021.
- Johnston, S. A.; Tobias, K. M. Veterinary Surgery: Small Animal. 2. ed. St. Louis: Elsevier, 2018.
- Nelson, R. W.; Couto, C. G. Medicina Interna de Pequenos Animais. 6. ed. Rio de Janeiro: GEN Guanabara Koogan, 2023.
Conteúdo educativo. Valores de referência variam entre laboratórios, equipamentos e literatura — sempre confira os intervalos do seu laboratório e a bibliografia oficial antes de aplicar na rotina.


