Ruptura do ligamento cruzado cranial: testes de gaveta e compressão tibial

Ruptura do ligamento cruzado cranial em cães: como fazer o teste de gaveta e de compressão tibial, falsos negativos, menisco, sinais no raio-X e opções cirúrgicas.

Por Equipe AjudaVet··6 min de leitura
Ilustração de um cão em decúbito lateral na mesa de exame enquanto as mãos do veterinário seguram o joelho para o teste de gaveta

Um cão de porte médio, um pouco acima do peso, voltou do parque sem apoiar o membro pélvico. Ou então vem mancando “de vez em quando” há meses, piorando depois do exercício. Nos dois cenários, a ruptura do ligamento cruzado cranial está no topo da lista — e o diagnóstico começa nas suas mãos, com o teste de gaveta e o teste de compressão tibial.

Função do LCCr e por que ele rompe em cães

O LCCr vai da face caudomedial do côndilo femoral lateral até a área intercondilar cranial da tíbia. Ele tem duas bandas: a craniomedial, tensa na flexão e na extensão, e a caudolateral, tensa apenas na extensão.

O platô tibial do cão é inclinado caudalmente. Ao apoiar o peso, a força de compressão tende a fazer o fêmur “escorregar” para trás sobre esse plano — ou, olhando pelo outro lado, a tíbia avançar cranialmente. Essa força é o impulso tibial cranial, e o LCCr é o principal freio contra ela.

Na maioria dos cães, a doença é degenerativa: ocorre perda da organização das fibras de colágeno, inflamação sinovial e rupturas parciais que evoluem para ruptura completa, às vezes com um evento banal como gatilho. Fatores associados incluem sobrepeso, raças predispostas (Rottweiler, Labrador, Terra-Nova, Staffordshire, entre outras), conformação do membro e castração precoce em algumas raças. Uma parcela importante dos cães acometidos rompe o ligamento contralateral nos anos seguintes.

Joelho de cão em vista lateral com o ligamento cruzado cranial rompido e a tíbia deslizando cranialmente em relação ao fêmur
Sem o ligamento cruzado cranial, o platô tibial inclinado deixa a tíbia avançar a cada apoio: é esse deslocamento cranial que a gaveta e a compressão tibial detectam.

Teste de gaveta cranial: como fazer

Teste de gaveta cranial passo a passo
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    Posicione o paciente

    Decúbito lateral com o membro afetado para cima, ou em estação em cães cooperativos. Sedação melhora muito a sensibilidade.

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    Mão no fêmur

    Polegar atrás da fabela lateral e indicador sobre a patela.

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    Mão na tíbia

    Polegar atrás da cabeça da fíbula e indicador sobre a tuberosidade tibial.

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    Movimente

    Mantenha o fêmur fixo e empurre a tíbia cranialmente, sem rodá-la. Repita com o joelho em extensão, em ângulo de apoio e em flexão.

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    Interprete

    Deslocamento cranial da tíbia com parada macia ou sem parada indica ruptura. Compare sempre com o membro contralateral.

Na ruptura parcial da banda craniomedial, a gaveta pode aparecer apenas em flexão, pois a banda caudolateral ainda segura em extensão. Em filhotes, há uma pequena gaveta fisiológica (“gaveta de filhote”), mas com parada firme e abrupta.

Teste de compressão tibial

O teste de compressão tibial reproduz o impulso tibial cranial que acontece no apoio.

  • Uma mão segura a porção distal do fêmur, com o indicador estendido sobre a patela até tocar a tuberosidade tibial.
  • A outra mão segura o metatarso e flexiona o tarso, mantendo o joelho em leve flexão (ângulo próximo ao de apoio).
  • A flexão do tarso tensiona o gastrocnêmio e comprime a tíbia contra o fêmur. Se o LCCr estiver rompido, o indicador sente a tuberosidade tibial avançar cranialmente.

É frequentemente mais fácil de executar no animal acordado e menos sensível à tensão muscular do que a gaveta, por isso os dois testes se complementam.

Menisco, efusão e o que o raio-X mostra

O menisco medial é firmemente preso à tíbia. Com a instabilidade, o côndilo femoral esmaga seu corno caudal a cada passo. A lesão meniscal pode gerar um clique audível ou palpável na flexão e extensão e costuma piorar a dor e a claudicação. Pode estar presente no diagnóstico ou surgir depois da cirurgia.

No exame clínico, procure também efusão articular (patela com contorno menos definido e tendão patelar pouco palpável), dor na hiperextensão, atrofia de quadríceps e o teste de sentar: o cão senta com o membro afetado estendido lateralmente.

A radiografia é essencial para excluir outros diferenciais (neoplasia, fraturas, luxação de patela, avulsões) e documentar a artrose. Na projeção mediolateral, os sinais mais úteis são:

Sinal radiográfico O que significa
Sinal da gordura infrapatelar O triângulo radiotransparente de gordura atrás do tendão patelar fica reduzido ou deslocado pela efusão: sinal sensível de líquido articular
Distensão caudal da cápsula Aumento de opacidade de tecido mole caudal ao joelho
Osteófitos Na patela, nas cristas trocleares, no platô tibial e na fabela: indicam doença crônica
Deslocamento cranial da tíbia Pode ser visto em alguns casos, sobretudo em projeções com compressão tibial
Fragmento de avulsão Em rupturas traumáticas, pequeno fragmento na inserção do ligamento

Para revisar a leitura sistemática, veja como ler uma radiografia. Ultrassonografia, ressonância e artroscopia avaliam melhor menisco e ligamento quando disponíveis.

Opções cirúrgicas e reabilitação (conceitos)

Técnicas extracapsulares

  • Sutura extracapsular lateral (fabelotibial): um fio resistente imita o ligamento
  • Estabilização temporária até a fibrose periarticular assumir
  • Tradicionalmente mais usada em cães pequenos e gatos
  • Sem osteotomia

Osteotomias (mudam a geometria)

  • TPLO: nivela o platô tibial, reduzindo o impulso tibial cranial
  • TTA: avança a tuberosidade para o tendão patelar ficar perpendicular ao platô
  • Tornam o LCCr desnecessário no apoio, em vez de substituí-lo
  • Muito usadas em cães médios e grandes

A escolha depende de porte, conformação, atividade, experiência do cirurgião e custo. O tratamento conservador (perda de peso, restrição de atividade, fisioterapia e analgesia) pode ser considerado em alguns casos, com resultados em geral melhores em cães pequenos. Em qualquer técnica, o menisco precisa ser inspecionado e, se lesado, tratado.

A reabilitação é parte do tratamento: atividade restrita e passeios curtos na guia nas primeiras semanas, crioterapia no pós-operatório imediato, exercícios de amplitude de movimento, fortalecimento progressivo, hidroterapia quando disponível e controle de peso por toda a vida.

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  1. Um Labrador tem claudicação crônica e efusão, mas gaveta negativa acordado. Qual a melhor conduta para o exame?

  2. Gaveta presente apenas com o joelho em flexão sugere:

  3. Na radiografia mediolateral do joelho, a redução do triângulo de gordura infrapatelar indica:

  4. Qual técnica estabiliza o joelho alterando a inclinação do platô tibial?

No próximo passo da trilha, vamos para outra causa clássica de claudicação: luxação de patela.

Referências

  1. DeCamp, C. E. et al. Brinker, Piermattei and Flo’s Handbook of Small Animal Orthopedics and Fracture Repair. 5. ed. St. Louis: Elsevier, 2016.
  2. Fossum, T. W. Cirurgia de Pequenos Animais. 5. ed. Rio de Janeiro: Elsevier, 2021.
  3. Johnston, S. A.; Tobias, K. M. Veterinary Surgery: Small Animal. 2. ed. St. Louis: Elsevier, 2018.
  4. Thrall, D. E. Diagnóstico de Radiologia Veterinária. 7. ed. Rio de Janeiro: Elsevier, 2019.

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