
Uma cadela jovem tem episódios de vômito, diarreia e apatia que “vão e voltam” há meses. Melhora com fluido, piora de novo. Agora chega em choque, com bradicardia. Se você não pensar em hipoadrenocorticismo (doença de Addison), vai continuar tratando sintomas — por isso ele é chamado de o grande imitador.
O que falta e por que isso importa
Na maioria dos cães, a causa é a destruição imunomediada do córtex adrenal (adrenalite), o que caracteriza um hipoadrenocorticismo primário. Fêmeas jovens a de meia-idade são mais acometidas, e raças como Poodle Standard, Cão d’Água Português, Labrador e West Highland White Terrier aparecem com frequência. Também há causas iatrogênicas, como a destruição adrenal excessiva por fármacos usados no Cushing. Em gatos, a doença é rara.
Cada hormônio ausente explica um grupo de sinais:
| Hormônio deficiente | Função normal | Consequência da falta |
|---|---|---|
| Aldosterona | Reabsorve sódio e excreta potássio no néfron distal | Hiponatremia, hipercalemia, hipovolemia, hipotensão |
| Cortisol | Mantém glicemia, tônus vascular, integridade intestinal e resposta ao estresse | Hipoglicemia, letargia, vômito, diarreia (às vezes hemorrágica), perda de peso |
Como a destruição é gradual, os sinais costumam ser vagos e intermitentes e pioram em situações de estresse (viagem, hospedagem, cirurgia), quando o animal precisaria de mais cortisol e não consegue produzi-lo.
Típico x atípico
Típico (glico + mineralocorticoide)
- Falta de cortisol e aldosterona
- Hiponatremia e hipercalemia, relação Na:K baixa
- Hipovolemia, hipotensão, azotemia
- Maior risco de crise addisoniana com bradicardia
Atípico (só glicocorticoide)
- Falta de cortisol, aldosterona preservada (pelo menos no início)
- Eletrólitos normais
- Sinais gastrointestinais crônicos, perda de peso, hipoalbuminemia, hipocolesterolemia
- Diagnóstico mais tardio; parte dos casos evolui para a forma típica
O termo “atípico” é usado de formas um pouco diferentes na literatura (alguns incluem nele o hipoadrenocorticismo secundário, por falta de ACTH). O conceito prático é o mesmo: eletrólitos normais não excluem Addison.

A crise addisoniana
A crise é uma emergência: choque hipovolêmico, fraqueza intensa, colapso, vômito, diarreia, hipotermia e, muitas vezes, bradicardia — um achado paradoxal, já que um animal em choque deveria estar taquicárdico.
A bradicardia vem da hipercalemia, que reduz a excitabilidade do miocárdio. No ECG, aparecem progressivamente ondas T apiculadas, achatamento ou ausência de onda P, alargamento do QRS e, nos casos graves, arritmias potencialmente fatais. Revise a eletrofisiologia em potencial de ação cardíaco.
Os achados laboratoriais que contam a história
| Achado | Por que acontece |
|---|---|
| Hiponatremia | Sem aldosterona, o sódio é perdido na urina |
| Hipercalemia | Sem aldosterona, o potássio não é excretado |
| Relação Na:K baixa | Abaixo de aproximadamente 27 é alerta; abaixo de 24 aumenta a suspeita (os cortes variam entre autores e laboratórios) |
| Ausência de leucograma de estresse | Sem cortisol, não há linfopenia nem eosinopenia; linfócitos e eosinófilos normais ou altos num paciente doente são suspeitos |
| Azotemia com urina pouco concentrada | Azotemia pré-renal por hipovolemia, mas a perda de sódio reduz o gradiente medular e o rim não concentra bem |
| Hipoglicemia | Falta de cortisol para a gliconeogênese |
| Hipercalcemia | Em parte dos casos, por mecanismo não totalmente esclarecido |
| Hipoalbuminemia, hipocolesterolemia, anemia | Perda gastrointestinal, má absorção, sangramento intestinal |
A combinação azotemia + densidade urinária baixa é a armadilha clássica: parece lesão renal, mas o paciente melhora rapidamente com fluido e tratamento hormonal. Veja o raciocínio em azotemia pré-renal, renal e pós-renal e o padrão normal em leucograma de estresse.
A relação Na:K baixa não é exclusiva de Addison: doenças gastrointestinais graves (como tricuríase), efusões cavitárias repetidamente drenadas, uroabdome e doença renal podem produzi-la.
Diagnóstico: o teste de estimulação com ACTH
- 1Suspeite
Sinais vagos e intermitentes, crise com bradicardia, Na:K baixa, ausência de leucograma de estresse, azotemia com urina pouco concentrada.
- 2Cortisol basal como triagem
Um cortisol basal acima de um ponto de corte baixo (definido pelo laboratório) torna o hipoadrenocorticismo muito improvável. Valor baixo NÃO confirma: precisa do teste de estímulo.
- 3Teste de estimulação com ACTH
Mede o cortisol antes e após a aplicação de ACTH sintético. No Addison, o cortisol fica baixo antes e não sobe após o estímulo. É o teste de referência.
- 4Cuidado com glicocorticoides prévios
Prednisolona e hidrocortisona têm reação cruzada no ensaio de cortisol e suprimem o eixo. A dexametasona interfere menos no ensaio, por isso é preferida quando é preciso tratar antes de testar.
- 5Avalie mineralocorticoides e origem
Aldosterona e renina, ou ACTH endógeno, ajudam a diferenciar formas primária e secundária quando necessário.
Conceito de tratamento (sem doses)
- Na crise: a prioridade é fluidoterapia para restaurar volume e diluir o potássio, corrigir a hipoglicemia, controlar a hipercalemia que ameaça o coração e repor glicocorticoide.
- Manutenção: reposição de glicocorticoide (por exemplo, prednisolona) e, na forma típica, de mineralocorticoide (pivalato de desoxicorticosterona, DOCP, ou fludrocortisona, que também tem ação glicocorticoide).
- Situações de estresse (cirurgia, viagem, doença) podem exigir aumento temporário do glicocorticoide.
- O acompanhamento com eletrólitos e sinais clínicos é contínuo. Protocolos e doses são individuais e cabem ao veterinário responsável.
Com tratamento adequado, o prognóstico costuma ser bom — o difícil é lembrar de pensar na doença.
Revise em 1 minuto
Cão em choque, com frequência cardíaca de 60 bpm, Na 128 mEq/L e K 7,8 mEq/L. A principal suspeita é:
Hiponatremia, hipercalemia (Na:K em torno de 16) e bradicardia em choque são o retrato da crise addisoniana.
No hipoadrenocorticismo atípico, espera-se:
Na forma atípica falta principalmente cortisol; a aldosterona está preservada, então sódio e potássio ficam normais.
Por que o cão addisoniano pode ter azotemia com densidade urinária baixa?
A depleção de sódio diminui o gradiente medular. A azotemia é pré-renal e costuma responder rapidamente ao tratamento.
Qual afirmação sobre o cortisol basal no Addison está correta?
O cortisol basal é um bom teste para excluir. Valores baixos ocorrem também em cães saudáveis e exigem confirmação com estimulação com ACTH.
Quer rever o começo da trilha? Volte ao eixo hipotálamo-hipófise-adrenal e hiperadrenocorticismo.
Referências
- Feldman, E. C.; Nelson, R. W.; Reusch, C. E.; Scott-Moncrieff, J. C. R.; Behrend, E. N. Canine and Feline Endocrinology. 4. ed. St. Louis: Elsevier Saunders, 2015.
- Nelson, R. W.; Couto, C. G. Medicina Interna de Pequenos Animais. 6. ed. Rio de Janeiro: Elsevier, 2023.
- Ettinger, S. J.; Feldman, E. C.; Côté, E. Textbook of Veterinary Internal Medicine. 8. ed. St. Louis: Elsevier, 2017.
- DiBartola, S. P. Fluid, Electrolyte, and Acid-Base Disorders in Small Animal Practice. 4. ed. St. Louis: Elsevier Saunders, 2012.
- Thrall, M. A. et al. Hematologia e Bioquímica Clínica Veterinária. 2. ed. Rio de Janeiro: Roca, 2015.
Conteúdo educativo. Valores de referência variam entre laboratórios, equipamentos e literatura — sempre confira os intervalos do seu laboratório e a bibliografia oficial antes de aplicar na rotina.


