
O resultado da hemogasometria sai da máquina com uma dúzia de números e você trava: por onde começar? A boa notícia é que a interpretação do equilíbrio ácido-base segue sempre a mesma sequência lógica. Depois que você treina o passo a passo, um paciente com vômito, um gato obstruído e um braquicefálico em crise viram problemas resolvíveis em poucos minutos.
Henderson-Hasselbalch sem medo
O principal tampão do líquido extracelular é o sistema bicarbonato/ácido carbônico. A equação de Henderson-Hasselbalch resume a relação:
pH = 6,1 + log [HCO3 ÷ (0,03 × PCO2)]
Você não precisa fazer contas na rotina. Precisa entender a ideia: o pH depende da razão HCO3/PCO2.
- HCO3 cai (ou PCO2 sobe) → razão diminui → pH cai (acidemia).
- HCO3 sobe (ou PCO2 cai) → razão aumenta → pH sobe (alcalemia).
Por isso o organismo compensa movendo o outro componente na mesma direção: se o HCO3 cai, o pulmão baixa a PCO2 (hiperventilação) para aproximar a razão do normal. A compensação respiratória começa em minutos a horas; a renal leva de 2 a 5 dias para se completar.

Os números da gasometria
| Parâmetro | O que representa | Valor aproximado (cão, arterial) |
|---|---|---|
| pH | Resultado final do equilíbrio | 7,35 a 7,45 |
| PCO2 | Componente respiratório (ventilação) | cerca de 32 a 44 mmHg |
| HCO3 | Componente metabólico | cerca de 18 a 24 mEq/L |
| BE (excesso de base) | Componente metabólico; negativo = déficit de base | cerca de −4 a +4 mEq/L |
| PaO2 | Oxigenação (só arterial) | cerca de 80 a 110 mmHg em ar ambiente |
Valores didáticos e aproximados: variam com o laboratório, o equipamento e a altitude. Gatos tendem a ter PCO2 e HCO3 um pouco mais baixos que cães. No sangue venoso, o pH costuma ser levemente menor e a PCO2 alguns mmHg maior que no arterial.
Sangue arterial
- Avalia ácido-base e oxigenação
- PaO2 e SaO2 refletem a função pulmonar
- Coleta mais difícil (artéria femoral ou podal dorsal)
- Essencial em pacientes com dispneia ou sob ventilação
Sangue venoso
- Ótimo para ácido-base e eletrólitos
- PvO2 não avalia a função pulmonar
- Coleta simples, ideal para triagem e monitoramento
- PCO2 um pouco maior que a arterial
A sistemática em 5 passos
- 11. Olhe o pH
pH abaixo do intervalo de referência = acidemia; acima = alcalemia. pH normal não exclui distúrbio (pode haver distúrbio misto).
- 22. Encontre o distúrbio primário
Qual componente explica o pH? Acidemia com HCO3 baixo = acidose metabólica; com PCO2 alta = acidose respiratória. Alcalemia com HCO3 alto = alcalose metabólica; com PCO2 baixa = alcalose respiratória.
- 33. Calcule a compensação esperada
Use as regras de compensação. Se o valor medido estiver dentro do esperado, o distúrbio é simples; se estiver fora, há um segundo distúrbio associado.
- 44. Ânion gap na acidose metabólica
Calcule (Na + K) menos (Cl + HCO3). Ânion gap alto indica ácidos não medidos; normal indica acidose hiperclorêmica.
- 55. Integre com a clínica
Histórico, exame físico, eletrólitos, lactato, glicose, ureia e creatinina. A gasometria confirma hipóteses; não substitui o raciocínio clínico.
Regras de compensação (cão)
As regras abaixo vêm de estudos em cães, compilados por DiBartola. Calcule a variação em relação ao valor de referência do seu laboratório.
| Distúrbio primário | Compensação esperada (aproximada) |
|---|---|
| Acidose metabólica | PCO2 cai cerca de 0,7 mmHg para cada 1 mEq/L de queda no HCO3 |
| Alcalose metabólica | PCO2 sobe cerca de 0,7 mmHg para cada 1 mEq/L de aumento no HCO3 |
| Acidose respiratória aguda | HCO3 sobe cerca de 0,15 mEq/L para cada 1 mmHg de aumento na PCO2 |
| Acidose respiratória crônica | HCO3 sobe cerca de 0,35 mEq/L para cada 1 mmHg de aumento na PCO2 |
| Alcalose respiratória aguda | HCO3 cai cerca de 0,25 mEq/L para cada 1 mmHg de queda na PCO2 |
| Alcalose respiratória crônica | HCO3 cai cerca de 0,55 mEq/L para cada 1 mmHg de queda na PCO2 |
Aceite uma pequena margem em torno do valor calculado (alguns mmHg ou mEq/L). Em gatos, a compensação é menos caracterizada: há evidências de que a resposta respiratória à acidose metabólica seja menos eficiente. Usar as regras caninas como aproximação é comum, mas interprete com cautela.
Ânion gap: o detetive da acidose metabólica
O plasma é eletricamente neutro. Os cátions e ânions que não medimos rotineiramente formam o ânion gap (AG):
AG = (Na + K) − (Cl + HCO3)
Em geral, o AG fica em torno de 12 a 24 mEq/L no cão e um pouco mais alto no gato, conforme o laboratório. Calcule rapidinho na calculadora de ânion gap.
AG aumentado
- Lactato (hipoperfusão, choque, sepse)
- Cetoacidose diabética
- Uremia (fosfatos, sulfatos retidos)
- Etilenoglicol (glicolato, oxalato)
- Salicilatos e outras toxinas
AG normal (hiperclorêmica)
- Diarreia (perda de HCO3)
- Acidose tubular renal
- Fluidoterapia agressiva com NaCl 0,9%
- Inibidores da anidrase carbônica
- Perda de HCO3 compensada por retenção de Cl
Casos resolvidos
Caso 1: cão com vômito persistente (corpo estranho gástrico)
pH 7,48 · PCO2 45 mmHg · HCO3 32 mEq/L · Na 145 · K 3,0 · Cl 95 mEq/L
- Alcalemia.
- HCO3 alto: alcalose metabólica primária.
- HCO3 subiu cerca de 10 mEq/L (referência 22) → PCO2 esperada sobe cerca de 7 mmHg (de 37 para aproximadamente 44). Medida 45: compensação adequada.
- Cloro baixo: alcalose metabólica hipoclorêmica, típica da perda de HCl do conteúdo gástrico, acompanhada de hipocalemia.
Caso 2: gato com obstrução uretral
pH 7,25 · PCO2 28 mmHg · HCO3 12 mEq/L · Na 150 · K 8,2 · Cl 115 mEq/L
- Acidemia.
- HCO3 baixo: acidose metabólica.
- Usando a regra canina como aproximação: queda de cerca de 8 mEq/L no HCO3 → PCO2 esperada cerca de 5 a 6 mmHg abaixo da referência felina. Medida coerente com compensação.
- AG = (150 + 8,2) − (115 + 12) = 31 mEq/L, aumentado: retenção de ânions (fosfato, ácidos urêmicos) pela azotemia pós-renal.
- Clínica: a hipercalemia é a ameaça imediata (risco de bradiarritmias). A acidemia piora a hipercalemia porque favorece a saída de K das células.
Caso 3: braquicefálico em crise respiratória aguda
pH 7,24 · PCO2 60 mmHg · HCO3 25 mEq/L · PaO2 65 mmHg (arterial)
- Acidemia.
- PCO2 alta: acidose respiratória (hipoventilação por obstrução de vias aéreas superiores).
- Aguda: PCO2 subiu cerca de 23 mmHg → HCO3 esperado sobe cerca de 3,5 mEq/L (de 22 para aproximadamente 25,5). Medido 25: acidose respiratória aguda simples.
- PaO2 baixa: hipoxemia, que só pôde ser avaliada porque a amostra é arterial.
Revise em 1 minuto
Cão com pH 7,28, HCO3 14 mEq/L e PCO2 31 mmHg (referências: HCO3 22, PCO2 37). Qual a interpretação?
HCO3 caiu 8 mEq/L; a PCO2 esperada cai cerca de 5,6 mmHg (para aproximadamente 31). O valor medido bate com o esperado: distúrbio simples compensado.
Qual achado favorece acidose metabólica hiperclorêmica?
Quando o HCO3 perdido é substituído por cloro, o ânion gap se mantém normal. É o padrão da diarreia e da acidose tubular renal.
Para avaliar se um paciente dispneico está oxigenando bem, você precisa de:
A PO2 venosa reflete o consumo tecidual, não a troca gasosa pulmonar. PaO2 e SaO2 exigem amostra arterial.
Um cão com vômito intenso apresenta alcalemia, HCO3 alto e cloro baixo. O distúrbio mais provável é:
A perda de HCl gástrico eleva o HCO3 e reduz o cloro, gerando alcalose metabólica hipoclorêmica, frequentemente com hipocalemia.
Referências
- DiBartola, S. P. Fluid, Electrolyte, and Acid-Base Disorders in Small Animal Practice. 4. ed. St. Louis: Elsevier Saunders, 2012.
- Klein, B. G. Cunningham — Tratado de Fisiologia Veterinária. 6. ed. Rio de Janeiro: Elsevier, 2021.
- Thrall, M. A. et al. Hematologia e Bioquímica Clínica Veterinária. 2. ed. São Paulo: Roca, 2015.
- Stockham, S. L.; Scott, M. A. Fundamentals of Veterinary Clinical Pathology. 2. ed. Ames: Blackwell Publishing, 2008.
Conteúdo educativo. Valores de referência variam entre laboratórios, equipamentos e literatura — sempre confira os intervalos do seu laboratório e a bibliografia oficial antes de aplicar na rotina.


