Hipoxemia: as 5 causas e como diferenciar

As 5 causas de hipoxemia em cães e gatos e como diferenciá-las: gradiente alvéolo-arterial, regra do 5 × FiO2, relação PaO2/FiO2 e limites da oximetria.

Por Equipe AjudaVet··6 min de leitura
Ilustração de um cão recebendo oxigênio por máscara e um gato em gaiola de oxigênio em ambiente de terapia intensiva veterinária

A hemogasometria arterial mostra PaO₂ de 60 mmHg. Isso é hipoxemia, mas de onde ela vem? Do pulmão doente, de um animal que simplesmente não está respirando o suficiente, ou de um problema no gás que ele está inalando? Existem só 5 causas de hipoxemia, e com duas contas simples você consegue separar quase todas na beira do leito.

Hipoxemia não é hipóxia

Hipoxemia é pouco oxigênio no sangue arterial (PaO₂ baixa). Hipóxia é pouco oxigênio nos tecidos, e pode ocorrer mesmo com PaO₂ normal: na anemia grave, na intoxicação por monóxido de carbono, no choque com baixa perfusão. Este artigo trata da hipoxemia, que só pode ser avaliada com amostra arterial: o sangue venoso diz pouco sobre a oxigenação pulmonar.

Lembre-se de que intervalos de referência variam com o laboratório, a espécie e a altitude: em cidades altas, a PaO₂ normal é menor.

Caminho do oxigênio do ar até o sangue com cinco obstáculos: ar pobre em oxigênio, ventilação fraca, alvéolo desigual, desvio de sangue e parede espessada
As cinco causas de hipoxemia: baixa FiO2, hipoventilação, desequilíbrio V/Q, shunt e limitação de difusão, cada uma em um ponto do caminho do oxigênio.

As 5 causas

Causa Mecanismo Gradiente A-a Responde ao O₂? Exemplos
Baixa FiO₂ Pouco O₂ no ar inspirado Normal Sim Altitude, falha no fornecimento de O₂ na anestesia
Hipoventilação O CO₂ acumula e “ocupa espaço” do O₂ no alvéolo Normal Sim Doença neuromuscular, sedação profunda, obstrução de via aérea superior, lesão cervical
Desequilíbrio V/Q Áreas com pouca ventilação para a perfusão Aumentado Sim, bem Pneumonia, asma felina, edema, tromboembolismo
Shunt Sangue passa sem encontrar ar Aumentado Pouco Atelectasia, consolidação extensa, shunt cardíaco direita-esquerda
Limitação de difusão Barreira alvéolo-capilar espessada ou tempo de trânsito curto Aumentado Sim Fibrose pulmonar; contribui na hipoxemia do exercício intenso em equinos

O desequilíbrio V/Q é, de longe, a causa mais frequente na clínica, e a limitação de difusão raramente é a causa isolada em repouso. Se você quer o mecanismo por trás das linhas 3 e 4, veja relação ventilação/perfusão.

O gradiente alvéolo-arterial

A ideia é comparar o oxigênio que deveria estar no alvéolo (PAO₂, com A maiúsculo) com o que chegou ao sangue arterial (PaO₂). Primeiro, estime a PAO₂ pela equação do gás alveolar:

PAO₂ = FiO₂ × (Pressão barométrica − 47) − PaCO₂ ÷ 0,8

Ao nível do mar (760 mmHg) e em ar ambiente (FiO₂ de 0,21), a equação fica simplificada:

PAO₂ ≈ 150 − (PaCO₂ × 1,25)

Gradiente A-a = PAO₂ − PaO₂

Como referência didática, um gradiente abaixo de aproximadamente 10 a 15 mmHg é considerado normal, e valores acima de 20 a 25 mmHg indicam doença pulmonar. A equação simplificada só vale em ar ambiente: com oxigênio suplementar o gradiente normal aumenta e perde valor diagnóstico.

Dois cães com PaO2 de 60 mmHg em ar ambiente
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    Cão A: PaCO2 de 70 mmHg

    PAO2 aproximada = 150 menos 87,5 = 62,5 mmHg. Gradiente = 62,5 menos 60 = 2,5 mmHg (normal). Conclusão: pulmão funcionando, o problema é hipoventilação. Procure a causa fora do pulmão: sedação, doença neuromuscular, obstrução alta.

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    Cão B: PaCO2 de 30 mmHg

    PAO2 aproximada = 150 menos 37,5 = 112,5 mmHg. Gradiente = 112,5 menos 60 = 52,5 mmHg (aumentado). Conclusão: doença pulmonar (V/Q, shunt ou difusão). A PaCO2 baixa mostra que ele está hiperventilando para compensar.

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    Próximo passo: ofereça oxigênio

    Se a PaO2 sobe bem, predomina baixa V/Q ou difusão. Se sobe pouco, pense em shunt importante e paciente grave.

Regra do 5 × FiO₂ e relação PaO₂/FiO₂

Em pacientes recebendo oxigênio, o gradiente A-a perde utilidade. Duas ferramentas mais práticas:

Regra do 5 × FiO₂. Num pulmão saudável, a PaO₂ esperada é de aproximadamente 5 vezes a FiO₂ em porcentagem:

FiO₂ PaO₂ esperada (aproximada)
21% (ar ambiente) Cerca de 100 mmHg
40% Cerca de 200 mmHg
100% (anestesia em circuito com O₂ puro) Cerca de 500 mmHg

Um animal anestesiado com FiO₂ próxima de 100% e PaO₂ de 150 mmHg não está hipoxêmico, mas a oxigenação está muito abaixo do esperado: há um problema pulmonar escondido.

Relação PaO₂/FiO₂ (P/F). Divida a PaO₂ pela FiO₂ em decimal. Um animal saudável em ar ambiente fica em torno de 400 a 500 (por exemplo, 95 ÷ 0,21 é aproximadamente 450).

P/F Interpretação aproximada
Acima de 400 Oxigenação adequada
300 a 400 Comprometimento leve
200 a 300 Comprometimento moderado
Abaixo de 200 Comprometimento grave (um dos critérios usados para a síndrome do desconforto respiratório agudo, a SDRA)

A grande vantagem da P/F é acompanhar a evolução do paciente mesmo quando a FiO₂ muda. A limitação: ela ignora a PaCO₂, então não detecta hipoventilação.

Oximetria de pulso: útil, mas com limites

A oximetria (SpO₂) estima a saturação da hemoglobina, não a PaO₂. Pela forma em “S” da curva de dissociação da hemoglobina, como referência aproximada:

  • SpO₂ de 95% corresponde a PaO₂ em torno de 80 mmHg;
  • SpO₂ de 90% corresponde a PaO₂ em torno de 60 mmHg (hipoxemia grave);
  • abaixo disso, a curva é íngreme: pequenas quedas de saturação significam grandes quedas de PaO₂.

Quando a oximetria ajuda

  • Monitoração contínua e não invasiva
  • Detecta queda de saturação em tempo real na anestesia e na UTI
  • Avaliação rápida da resposta ao oxigênio
  • Boa para tendência em pacientes estáveis

Quando ela engana

  • Má perfusão, vasoconstrição, hipotermia e movimento: leitura falha ou falsa
  • Mucosa pigmentada, pelos e sondas mal posicionadas
  • Carboxi-hemoglobina (fumaça): SpO2 falsamente normal
  • Meta-hemoglobina (paracetamol em gatos): leituras tendendo a cerca de 85%
  • Anemia: SpO2 normal com conteúdo de O2 baixo
  • Com FiO2 alta, SpO2 de 100% esconde PaO2 caindo de 500 para 100 mmHg
  • Não informa nada sobre ventilação (PaCO2)

Na dúvida, ou em paciente grave, a hemogasometria arterial é o padrão. Para revisar a leitura completa do exame, incluindo PaCO₂ e equilíbrio ácido-base, veja hemogasometria passo a passo.

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Flashcards de revisão clique para virar
Teste seu conhecimento0/4
  1. Cão sedado, em ar ambiente ao nível do mar: PaO2 de 62 mmHg e PaCO2 de 68 mmHg. O gradiente A-a é aproximadamente:

  2. Um cavalo anestesiado com FiO2 próxima de 100% tem PaO2 de 120 mmHg. A melhor interpretação é:

  3. Um gato exposto a fumaça de incêndio apresenta SpO2 de 98%. O que considerar?

  4. Qual causa de hipoxemia apresenta gradiente A-a aumentado e resposta pobre à oxigenoterapia?

No próximo passo da trilha, aprofunde a interpretação do exame em hemogasometria passo a passo.

Referências

  1. West, J. B.; Luks, A. M. Fisiologia Respiratória de West: Princípios Básicos. 10. ed. Porto Alegre: Artmed, 2017.
  2. Silverstein, D. C.; Hopper, K. Small Animal Critical Care Medicine. 2. ed. St. Louis: Elsevier Saunders, 2015.
  3. DiBartola, S. P. Fluid, Electrolyte, and Acid-Base Disorders in Small Animal Practice. 4. ed. St. Louis: Elsevier Saunders, 2012.
  4. Klein, B. G. Cunningham — Tratado de Fisiologia Veterinária. 6. ed. Rio de Janeiro: Elsevier, 2021.
  5. Grimm, K. A. et al. Veterinary Anesthesia and Analgesia: The Fifth Edition of Lumb and Jones. Ames: Wiley-Blackwell, 2015.

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