Exame neurológico: reflexos espinhais passo a passo

Exame neurológico em cães e gatos na ordem certa: reflexo patelar, de retirada, perineal e cutâneo do tronco, segmentos testados e armadilhas comuns.

Por Equipe AjudaVet··5 min de leitura
Ilustração de um cão em decúbito lateral enquanto o veterinário testa o reflexo patelar com um martelo

O cão chega arrastando os membros pélvicos e a vontade é pegar o martelo e testar o patelar na hora. Calma. O exame neurológico tem uma ordem, e ela existe por um motivo: as etapas que causam desconforto vêm por último, e cada achado só faz sentido junto com os outros. Aqui você vai ver a sequência completa e, principalmente, como fazer e interpretar os reflexos espinhais sem cair nas armadilhas clássicas.

A ordem do exame

Exame neurológico em sequência
  1. 1
    Estado mental e comportamento

    Alerta, deprimido, estuporoso ou comatoso? Comportamento adequado? Alterações apontam para encéfalo.

  2. 2
    Postura

    Inclinação de cabeça, cifose, rigidez extensora, postura de Schiff-Sherrington, base ampla.

  3. 3
    Marcha

    Paresia, ataxia, claudicação, passada curta ou longa. Se o animal anda, observe em piso não escorregadio.

  4. 4
    Reações posturais

    Posicionamento proprioceptivo, saltitamento, carrinho de mão, posicionamento tátil. Detectam déficits sutis.

  5. 5
    Nervos cranianos

    Ameaça, reflexo pupilar, palpebral, sensibilidade facial, posição dos olhos, deglutição.

  6. 6
    Reflexos espinhais e tônus

    Com o animal em decúbito lateral e relaxado.

  7. 7
    Palpação e nocicepção

    Palpação da coluna e teste de dor profunda ficam para o final, para não perder a colaboração do paciente.

As reações posturais são muito sensíveis: quase qualquer lesão neurológica entre o receptor proprioceptivo e o córtex pode alterá-las. Mas elas não localizam sozinhas. Quem localiza são os reflexos, combinados com a classificação em neurônio motor superior x inferior.

Como graduar um reflexo

A escala mais usada é simples:

Grau Significado
0 Ausente
+1 Diminuído
+2 Normal
+3 Aumentado
+4 Aumentado com clônus (contrações repetidas)

Teste sempre com o animal em decúbito lateral, examinando o membro de cima, e depois vire o paciente. Compare os dois lados. Um animal relaxado vale mais do que qualquer martelo caro.

Arco reflexo patelar do cão, do estímulo no joelho até a medula e de volta ao músculo da coxa
Todo reflexo espinhal é um arco: nervo sensitivo, segmento medular e nervo motor. Se qualquer parte falha, o reflexo diminui.

Os reflexos dos membros pélvicos

Reflexo patelar. Com o joelho levemente flexionado, percuta o ligamento patelar. Resposta normal: extensão do joelho. Testa o nervo femoral e os segmentos L4–L6. É o reflexo pélvico mais confiável.

Reflexo de retirada (flexor) pélvico. Pince suavemente a pele entre os dedos com o membro estendido. Resposta: flexão de quadril, joelho e tarso. Testa principalmente o nervo isquiático e os segmentos L6–S1 (alguns autores incluem S2). Avalie se todas as articulações flexionam: um quadril que flexiona com joelho e tarso parados pode indicar lesão isquiática com flexão de quadril mantida por outros músculos.

Os reflexos tibial cranial e gastrocnêmio existem, mas são menos confiáveis e variam entre animais normais. Use-os como complemento, nunca como base da localização.

Os reflexos dos membros torácicos

Reflexo de retirada torácico. Pince a pele dos dedos. Resposta: flexão de ombro, cotovelo e carpo. Envolve vários nervos (musculocutâneo, axilar, mediano, ulnar e radial) e os segmentos C6–T2. É o reflexo torácico mais útil.

Os reflexos bicipital (C6–C8) e tricipital (C7–T2) são difíceis de obter mesmo em cães normais. A ausência isolada deles tem pouco valor.

Reflexo perineal e reflexo cutâneo do tronco

Reflexo perineal. Toque ou pince levemente a pele do períneo. Resposta: contração do esfíncter anal e flexão da cauda. Testa o nervo pudendo e os segmentos S1–S3 (com os segmentos caudais para a cauda). Ausente junto com bexiga flácida e fácil de esvaziar: pense em lesão sacral ou de cauda equina.

Reflexo cutâneo do tronco (panículo). Belisque a pele de cada lado da coluna, de caudal para cranial, a partir da região lombar. Resposta: contração da pele do tronco. O estímulo entra na medula pelo segmento correspondente, sobe pela medula até C8–T1, de onde sai o nervo torácico lateral para o músculo cutâneo do tronco.

Armadilhas que confundem até quem já examinou muito

O que o reflexo de retirada É

  • Um arco segmentar: pele, nervo, medula, músculo
  • Funciona mesmo com a medula totalmente seccionada acima
  • Avalia o NMI do membro

O que ele NÃO É

  • Não prova que o animal sente dor
  • Não substitui o teste de nocicepção consciente
  • Não indica que a lesão é leve

Outras armadilhas frequentes:

  • Pseudo-hiper-reflexia patelar. Numa lesão do nervo isquiático ou dos segmentos L6–S1, os músculos flexores que se opõem ao quadríceps perdem tônus, e o patelar parece aumentado sem lesão de NMS.
  • Patelar diminuído no idoso. Cães idosos podem ter patelar reduzido bilateralmente sem doença neurológica relevante.
  • Animal tenso ou com dor. Aumenta ou mascara reflexos. Repita com o paciente relaxado.
  • Doença ortopédica. Ruptura de ligamento cruzado ou artrose podem limitar o movimento articular e imitar reflexo reduzido. Reações posturais normais, com claudicação, apontam para ortopedia.
  • Choque espinhal. Logo após uma lesão grave e aguda, os reflexos caudais podem ficar temporariamente deprimidos. É reconhecido como menos frequente e mais curto em cães e gatos do que em humanos, mas vale lembrar antes de concluir “NMI”.

Revise em 1 minuto

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Teste seu conhecimento0/4
  1. Um cão tem reflexo patelar ausente bilateralmente, com retirada pélvica e perineal normais. A lesão provável envolve:

  2. Um cão paraplégico retira o membro ao pinçamento do dígito, mas não vira a cabeça nem vocaliza. Isso indica:

  3. Por que uma lesão em C8–T1 pode abolir o reflexo cutâneo do tronco de um lado inteiro?

  4. Qual etapa deve ser feita por último no exame neurológico?

No próximo passo da trilha, junte todos esses achados em neurolocalização medular: C1–C5, C6–T2, T3–L3 e L4–S3.

Referências

  1. Dewey, C. W.; da Costa, R. C. Neurologia Canina e Felina: Guia Prático. São Paulo: Guará, 2017.
  2. de Lahunta, A.; Glass, E.; Kent, M. de Lahunta’s Veterinary Neuroanatomy and Clinical Neurology. 5. ed. St. Louis: Elsevier, 2021.
  3. Platt, S. R.; Olby, N. J. BSAVA Manual of Canine and Feline Neurology. 4. ed. Gloucester: BSAVA, 2013.
  4. Nelson, R. W.; Couto, C. G. Medicina Interna de Pequenos Animais. 6. ed. Rio de Janeiro: Guanabara Koogan, 2023.

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