Displasia coxofemoral: fisiopatologia e avaliação radiográfica

Displasia coxofemoral em cães: frouxidão articular, teste de Ortolani, projeção ventrodorsal correta, ângulo de Norberg, sinais de artrose, OFA, FCI e PennHIP.

Por Equipe AjudaVet··6 min de leitura
Ilustração de um Labrador jovem sentado ao lado de um negatoscópio com radiografia ventrodorsal da pelve e quadris em destaque

Um Labrador de 7 meses levanta com dificuldade, corre “pulando de coelho” e cansa rápido no passeio. Um Pastor-Alemão de 9 anos tem os mesmos sinais, mas por motivos diferentes. Os dois podem ter displasia coxofemoral — e entender a doença como um processo, da frouxidão à artrose, é o que permite ler a radiografia e conversar com o tutor sem achismo.

Fisiopatologia: da frouxidão à artrose

Ao nascer, o quadril do cão displásico é normal. O problema surge durante o crescimento: se os tecidos moles (cápsula, ligamento da cabeça do fêmur, musculatura) não mantêm a cabeça femoral centrada, ela subluxa a cada passo.

O ciclo da displasia coxofemoral
  1. 1
    Frouxidão articular

    A cabeça femoral se desloca lateralmente no acetábulo durante a carga.

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    Carga concentrada

    O peso passa a se apoiar numa área pequena da borda dorsal do acetábulo, em vez de se distribuir pela superfície articular.

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    Lesão e remodelação

    Microfraturas, desgaste da cartilagem e sinovite. O acetábulo fica raso e a cabeça femoral se achata.

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    Osteoartrose

    O organismo tenta estabilizar a articulação com fibrose capsular e osteófitos. A frouxidão diminui, mas a dor crônica e a perda de função se instalam.

Genética e ambiente. A herança é poligênica e a herdabilidade é moderada: dois pais com quadril bom reduzem, mas não zeram, o risco. O ambiente modula a expressão: crescimento acelerado, dieta com excesso de energia (e de cálcio, em raças grandes), sobrepeso e manejo que favoreça impacto excessivo na fase de crescimento pioram o quadro. Estudos de longo prazo em Labradores mostraram que a restrição calórica reduz a gravidade e atrasa a osteoartrose.

Quem é mais afetado. Raças grandes e gigantes, como Labrador, Golden Retriever, Pastor-Alemão, Rottweiler, São Bernardo e Bernese. Gatos também podem ter displasia (por exemplo, Maine Coon), em geral com sinais mais discretos.

Cão jovem (meses)

  • Dor por frouxidão e microlesões da borda acetabular
  • Andar em salto de coelho, dificuldade para levantar, intolerância a exercício
  • Ortolani frequentemente positivo
  • Raio-X pode mostrar subluxação com pouca artrose

Cão adulto ou idoso

  • Dor por osteoartrose
  • Rigidez ao levantar, claudicação após repouso, atrofia muscular pélvica
  • Ortolani muitas vezes negativo (fibrose e acetábulo preenchido)
  • Raio-X com osteófitos, remodelação e esclerose

O teste de Ortolani

O teste de Ortolani avalia a frouxidão e é feito, de preferência, com o animal sedado, em decúbito lateral ou dorsal.

  • Com o joelho flexionado e o fêmur perpendicular à coluna, aplique pressão ao longo do eixo do fêmur, em direção dorsal, com o membro levemente aduzido: no quadril frouxo, a cabeça femoral subluxa.
  • Mantendo a pressão, abduza lentamente o membro. Se houver frouxidão, a cabeça femoral volta ao acetábulo com um estalo (“clunk”) palpável: Ortolani positivo.
  • O ângulo em que a redução ocorre (ângulo de redução) e o ângulo de nova luxação ajudam a estimar a gravidade e a indicar cirurgias preventivas no jovem.

Um Ortolani negativo não exclui displasia: em adultos com fibrose e remodelação, a articulação pode não subluxar mais.

Comparação entre um quadril normal, com a cabeça femoral bem assentada no acetábulo, e um quadril displásico, com subluxação, acetábulo raso e osteófitos
No quadril displásico a frouxidão deixa a cabeça femoral escapar lateralmente; com o tempo surgem acetábulo raso, cabeça achatada e osteófitos.

A radiografia ventrodorsal correta

A projeção padrão é a ventrodorsal com membros pélvicos estendidos. Para avaliação oficial, normalmente é feita com sedação ou anestesia, porque o relaxamento muscular evidencia a frouxidão e garante o posicionamento. Antes de avaliar o quadril, avalie a qualidade da imagem:

Checklist de posicionamento
  1. 1
    Pelve simétrica

    Forames obturadores com o mesmo tamanho e formato; asas do ílio simétricas. A rotação faz um quadril parecer pior que o outro.

  2. 2
    Fêmures paralelos

    Paralelos entre si e à coluna, totalmente estendidos.

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    Patelas centralizadas

    Rotação interna dos joelhos até as patelas ficarem sobre os sulcos trocleares.

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    Enquadramento completo

    Da asa do ílio até os joelhos, incluindo as articulações femorotibiopatelares.

Com a imagem adequada, avalie:

O que avaliar Normal Sugere displasia
Congruência Espaço articular uniforme, paralelo Espaço em cunha, mais largo medialmente
Cobertura Grande parte da cabeça femoral dentro do acetábulo (em geral mais da metade) Menos da metade coberta pela borda dorsal
Ângulo de Norberg Aproximadamente 105° ou mais Valores menores indicam subluxação
Cabeça femoral Arredondada Achatada, deformada
Acetábulo Profundo, borda cranial nítida Raso, borda cranial esclerótica ou remodelada

O ângulo de Norberg é formado pela linha que une os centros das duas cabeças femorais e a linha que vai do centro da cabeça femoral à borda craniolateral do acetábulo do mesmo lado. Ele mede, indiretamente, o quanto a cabeça está deslocada lateralmente. É uma referência útil, mas os critérios variam entre programas e raças.

Sinais de osteoartrose: osteófitos na borda acetabular e no colo femoral (a linha de Morgan, um osteófito curvilíneo na face caudolateral do colo, é um sinal precoce), espessamento do colo femoral, remodelação da cabeça, esclerose subcondral da borda cranial do acetábulo e entesófitos. Para revisar a sistemática de leitura, veja como ler uma radiografia.

Avaliação oficial: OFA, FCI e PennHIP

Sistema Ideia geral
OFA (EUA) Radiografia ventrodorsal estendida avaliada por radiologistas; classificação definitiva a partir de 24 meses, em categorias de excelente a displasia grave
FCI (Europa e muitos países, incluindo o Brasil) Graus de A (sem sinais) a E (displasia grave), com idade mínima em geral de 12 meses (mais em raças gigantes); usa o ângulo de Norberg entre os critérios
PennHIP Mede a frouxidão passiva com uma projeção em distração, além de compressão e ventrodorsal estendida; gera o índice de distração (quanto menor, menor a frouxidão). Pode ser feito a partir de cerca de 16 semanas, por avaliadores certificados

Os detalhes técnicos e as idades exigidas variam com o programa e o clube de raça: confira sempre as regras vigentes de cada um.

Manejo: o conceito, não a receita

O tratamento depende da idade, da dor e do grau de artrose.

  • Conservador: controle rigoroso do peso (o fator isolado mais eficaz), exercícios de baixo impacto, fisioterapia, hidroterapia e analgesia com anti-inflamatórios não esteroidais e outras classes, sempre prescritos individualmente.
  • Cirurgias preventivas no jovem: sinfisiodese púbica juvenil (filhotes muito jovens) e osteotomia pélvica dupla ou tripla (jovens com frouxidão e sem artrose relevante) reorientam o acetábulo para cobrir melhor a cabeça.
  • Cirurgias de salvamento: colocefalectomia (excisão da cabeça e colo femoral) e prótese total de quadril.

Revise em 1 minuto

Flashcards de revisão clique para virar
Teste seu conhecimento0/4
  1. Na radiografia ventrodorsal, o forame obturador esquerdo está bem maior que o direito. Qual a conduta?

  2. Por que um cão displásico de 10 anos pode ter Ortolani negativo?

  3. Qual fator ambiental tem maior impacto comprovado na expressão da displasia?

  4. Qual método se baseia em uma projeção em distração para quantificar a frouxidão?

No próximo passo da trilha, vamos para o joelho: ruptura do ligamento cruzado cranial.

Referências

  1. Thrall, D. E. Diagnóstico de Radiologia Veterinária. 7. ed. Rio de Janeiro: Elsevier, 2019.
  2. DeCamp, C. E. et al. Brinker, Piermattei and Flo’s Handbook of Small Animal Orthopedics and Fracture Repair. 5. ed. St. Louis: Elsevier, 2016.
  3. Fossum, T. W. Cirurgia de Pequenos Animais. 5. ed. Rio de Janeiro: Elsevier, 2021.
  4. Johnston, S. A.; Tobias, K. M. Veterinary Surgery: Small Animal. 2. ed. St. Louis: Elsevier, 2018.
  5. Kealy, J. K.; McAllister, H.; Graham, J. P. Radiologia e Ultrassonografia do Cão e do Gato. 5. ed. Rio de Janeiro: Elsevier, 2012.

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