Contração muscular: do cálcio ao sarcômero

Contração muscular passo a passo: junção neuromuscular, cálcio, troponina, pontes cruzadas e ATP, com hipertermia maligna, rabdomiólise, CK e AST na clínica.

Por Equipe AjudaVet··7 min de leitura
Ilustração de um cão correndo com a musculatura da coxa em transparência, mostrando fibras musculares estriadas e íons de cálcio brilhando

Um cavalo trava a garupa depois do treino, um porco entra em rigidez e febre durante a anestesia, um cão chega com urina cor de café após uma convulsão longa. Os três casos têm a mesma raiz: algo deu errado na contração muscular. Entender o caminho do cálcio ao sarcômero é o que transforma essas cenas em raciocínio clínico — e explica por que pedimos CK e AST.

A estrutura: o sarcômero é a unidade que encurta

A fibra muscular esquelética é uma célula longa, multinucleada, cheia de miofibrilas. Cada miofibrila é uma fileira de sarcômeros, delimitados pelas linhas Z.

Componente O que é Papel na contração
Actina (filamento fino) Preso à linha Z Trilho onde a miosina “puxa”
Miosina (filamento grosso) No centro do sarcômero (banda A) Motor: suas cabeças hidrolisam ATP
Tropomiosina Fio enrolado na actina Cobre os sítios de ligação da miosina no repouso
Troponina (C, I, T) Complexo preso à tropomiosina A troponina C é o sensor de cálcio
Túbulos T Invaginações do sarcolema Levam o potencial de ação para dentro da fibra
Retículo sarcoplasmático Reservatório intracelular de cálcio Libera cálcio pelo receptor de rianodina (RyR1) e recapta pela bomba SERCA

Na contração, os filamentos não encurtam: eles deslizam uns sobre os outros. As linhas Z se aproximam, a banda I e a zona H diminuem, e a banda A permanece com o mesmo comprimento. Essa é a teoria dos filamentos deslizantes.

Junção neuromuscular e acoplamento excitação-contração

Tudo começa no neurônio motor inferior. Se quiser revisar como o impulso chega até aqui, veja potencial de ação e sinapse.

Do impulso nervoso ao cálcio no citoplasma
  1. 1
    Potencial de ação chega ao terminal

    Canais de cálcio voltagem-dependentes abrem no terminal do axônio e o cálcio entra.

  2. 2
    Liberação de acetilcolina

    Vesículas se fundem e liberam acetilcolina (ACh) na fenda sináptica.

  3. 3
    Receptores nicotínicos na placa motora

    A ACh abre canais de cátions na placa motora, gerando o potencial de placa, que dispara um potencial de ação na fibra. A acetilcolinesterase degrada a ACh rapidamente.

  4. 4
    Túbulos T e receptor de di-hidropiridina

    O potencial desce pelos túbulos T. O receptor de di-hidropiridina (DHPR) muda de forma ao sentir a voltagem.

  5. 5
    Abertura do RyR1

    No músculo esquelético, o DHPR está acoplado mecanicamente ao RyR1 do retículo sarcoplasmático, que se abre e libera cálcio no citoplasma.

Esse elo entre o evento elétrico (potencial de ação) e o evento mecânico (contração) é o acoplamento excitação-contração. Doenças da junção, como a miastenia gravis (anticorpos contra receptores de ACh) ou intoxicações por organofosforados (inibição da acetilcolinesterase), atuam justamente nessa etapa.

Diagrama de um sarcômero com filamentos de actina e miosina, cabeças de miosina puxando os filamentos e esferas de cálcio liberando os sítios de ligação
O cálcio destrava a actina ao se ligar à troponina, a miosina puxa os filamentos finos e o ATP solta cada ponte cruzada para o ciclo recomeçar.

Troponina, tropomiosina e o ciclo das pontes cruzadas

Com o cálcio livre no citoplasma, ele se liga à troponina C. O complexo troponina muda de conformação e arrasta a tropomiosina, expondo os sítios de ligação na actina. A partir daí, a miosina trabalha em ciclos:

Ciclo das pontes cruzadas
  1. 1
    Cabeça engatilhada

    A cabeça da miosina já hidrolisou ATP e segura ADP + fosfato inorgânico, em posição de alta energia.

  2. 2
    Ligação à actina

    Com o sítio exposto pela tropomiosina, a miosina se liga à actina: forma-se a ponte cruzada.

  3. 3
    Golpe de força

    A saída do fosfato dispara a rotação da cabeça, que puxa o filamento fino em direção ao centro do sarcômero. Depois o ADP é liberado.

  4. 4
    Estado de rigor

    A miosina fica firmemente presa à actina, sem nucleotídeo ligado.

  5. 5
    ATP solta a ponte

    Uma nova molécula de ATP se liga à miosina e a desprende da actina. A hidrólise desse ATP reengatilha a cabeça e o ciclo recomeça enquanto houver cálcio.

O relaxamento também é ativo: a SERCA bombeia o cálcio de volta ao retículo sarcoplasmático gastando ATP, a troponina perde o cálcio e a tropomiosina volta a cobrir a actina.

Esquelético, cardíaco e liso: o mesmo cálcio, controles diferentes

Músculo esquelético

  • Contração voluntária, comandada pelo neurônio motor
  • DHPR acoplado mecanicamente ao RyR1
  • Cálcio quase todo do retículo sarcoplasmático
  • Força graduada pelo número de unidades motoras e pela frequência (somação e tetania)

Músculo cardíaco

  • Contração involuntária, com marca-passo próprio
  • Cálcio que entra pelo DHPR dispara o RyR2: liberação de cálcio induzida por cálcio
  • Depende também do cálcio extracelular
  • Período refratário longo: não entra em tetania

O músculo liso foge da lógica do sarcômero: não tem estriações nem troponina. O cálcio (que vem do meio extracelular e do retículo) se liga à calmodulina, que ativa a quinase da cadeia leve de miosina (MLCK). A miosina fosforilada interage com a actina. A contração é lenta, sustentada e econômica em ATP (o chamado estado de trava, ou latch), ideal para vasos, intestino e bexiga. Para aprofundar a contração do coração, veja o potencial de ação cardíaco.

Quando o mecanismo falha: aplicação clínica

Hipertermia maligna. Mutações no gene do RyR1 deixam o canal “solto”: em contato com anestésicos inalatórios halogenados (como halotano e isoflurano) ou com o bloqueador despolarizante succinilcolina, ocorre liberação descontrolada de cálcio. O resultado é contração sustentada, consumo enorme de ATP, produção de calor e CO₂, acidose, hipercalemia e rigidez. É clássica em suínos (síndrome do estresse suíno, ligada ao “gene do halotano”) e descrita em cães, cavalos e gatos. O tratamento envolve suspender o agente desencadeante, resfriar, corrigir a acidose e usar dantroleno, que bloqueia a liberação de cálcio pelo RyR1.

Rabdomiólise de esforço em equinos. Conhecida como “tying-up”, azotúria ou “doença da segunda-feira”, aparece como rigidez, sudorese, relutância em andar e dor muscular após exercício. Há formas esporádicas (exercício além do condicionamento, desequilíbrio eletrolítico) e crônicas, como a rabdomiólise recorrente de esforço (ligada a alteração na regulação do cálcio, comum em Puro-Sangue Inglês) e a miopatia por acúmulo de polissacarídeos (PSSM), frequente em Quarto de Milha. A mioglobina liberada escurece a urina e pode lesar os túbulos renais, por isso a função renal precisa ser acompanhada. Em cães, rabdomiólise aparece após exercício extenuante, convulsões prolongadas, insolação e trauma.

CK e AST: o laboratório do músculo.

Enzima Especificidade Cinética aproximada
CK (creatinoquinase) Alta para músculo Sobe em poucas horas, pico em torno de 6 a 12 h; meia-vida curta, tende a cair em 1 a 3 dias se a lesão cessar
AST Baixa: músculo e fígado Sobe mais devagar, pico em torno de 24 a 48 h e permanece elevada por vários dias

Os valores de referência e a cinética exata variam com espécie e laboratório, mas o raciocínio é útil: CK alta e AST normal sugere lesão recente; CK caindo com AST ainda alta sugere lesão que já parou; CK persistentemente alta sugere lesão em curso. Como a AST também vem do fígado, interprete-a junto com outras enzimas hepáticas.

Revise em 1 minuto

Flashcards de revisão clique para virar
Teste seu conhecimento0/4
  1. Na contração do músculo esquelético, qual estrutura mantém o mesmo comprimento?

  2. Um suíno desenvolve rigidez muscular, hipertermia e hipercapnia durante anestesia inalatória. O mecanismo é:

  3. No músculo liso, o cálcio inicia a contração ao se ligar a:

  4. Um cavalo com rabdomiólise tem CK em queda e AST ainda bem elevada três dias depois. A melhor interpretação é:

No próximo passo da trilha, vamos para o tecido que sustenta tudo isso: fisiologia óssea, cálcio e PTH.

Referências

  1. Klein, B. G. Cunningham — Tratado de Fisiologia Veterinária. 6. ed. Rio de Janeiro: GEN Guanabara Koogan, 2021.
  2. Reece, W. O. Dukes — Fisiologia dos Animais Domésticos. 13. ed. Rio de Janeiro: Guanabara Koogan, 2017.
  3. Hall, J. E. Guyton & Hall — Tratado de Fisiologia Médica. 14. ed. Rio de Janeiro: GEN Guanabara Koogan, 2021.
  4. Stockham, S. L.; Scott, M. A. Fundamentals of Veterinary Clinical Pathology. 2. ed. Ames: Blackwell Publishing, 2008.
  5. Reed, S. M.; Bayly, W. M.; Sellon, D. C. Equine Internal Medicine. 4. ed. St. Louis: Elsevier, 2018.

Conteúdo educativo. Valores de referência variam entre laboratórios, equipamentos e literatura — sempre confira os intervalos do seu laboratório e a bibliografia oficial antes de aplicar na rotina.

Continue estudando