Ciclo cardíaco: fases, bulhas, ECG e diagrama de Wiggers sem decoreba

Entenda o ciclo cardíaco fase a fase: valvas, bulhas B1 a B4, relação com o ECG, diagrama de Wiggers, fração de ejeção e aplicações clínicas em cães e gatos.

Por Equipe AjudaVet··8 min de leitura
Ilustração de um coração com valvas visíveis e uma linha de eletrocardiograma ao redor

Você coloca o estetoscópio no tórax de um cão e escuta o clássico “tum-tá”. Mas o que exatamente faz cada som? Por que um sopro “entre o tum e o tá” significa uma coisa e um sopro depois do “tá” significa outra? Tudo isso sai de um único conceito: o ciclo cardíaco — a sequência de eventos elétricos, mecânicos e sonoros que se repete a cada batimento.

A regra de ouro: pressão manda nas valvas

Antes de decorar fases, guarde uma regra só: o sangue anda do lado de maior pressão para o de menor pressão, e as valvas são portas de mão única que obedecem a essa diferença.

  • Valvas atrioventriculares (mitral à esquerda, tricúspide à direita): abrem quando a pressão do átrio supera a do ventrículo; fecham quando o ventrículo passa a ter pressão maior que o átrio.
  • Valvas semilunares (aórtica e pulmonar): abrem quando a pressão do ventrículo supera a da artéria; fecham quando a pressão ventricular cai abaixo da arterial.

Pense no ventrículo como uma sala com uma porta de entrada (AV) e uma de saída (semilunar). No coração normal, as duas nunca ficam abertas juntas — e há dois momentos em que ambas estão fechadas: as fases isovolumétricas.

Corte de um coração com quatro câmaras, valvas e setas mostrando o fluxo de sangue
As valvas abrem e fecham por diferença de pressão entre as câmaras — essa é a chave para entender todas as fases do ciclo.

As fases do ciclo cardíaco, uma a uma

Vamos seguir o ventrículo esquerdo, começando no fim da diástole.

Sequência do ciclo cardíaco (ventrículo esquerdo)
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    1. Sístole atrial

    Após a onda P, os átrios contraem e empurram o último volume de sangue para o ventrículo. É o 'chute atrial': complementa o enchimento, que já ocorreu em grande parte de forma passiva.

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    2. Contração isovolumétrica

    Logo após o QRS, o ventrículo começa a contrair. A pressão ventricular supera a atrial e a mitral fecha (B1). A aórtica ainda está fechada: a pressão sobe muito, mas o volume não muda.

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    3. Ejeção rápida

    Quando a pressão do ventrículo supera a da aorta, a valva aórtica abre e a maior parte do volume sistólico sai rapidamente.

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    4. Ejeção lenta

    O fluxo diminui à medida que o ventrículo começa a repolarizar (onda T). A pressão ventricular começa a cair.

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    5. Relaxamento isovolumétrico

    A pressão ventricular cai abaixo da aórtica e a valva aórtica fecha (B2). A mitral ainda não abriu: a pressão despenca com volume constante.

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    6. Enchimento rápido

    A pressão ventricular fica menor que a atrial, a mitral abre e o sangue acumulado no átrio entra de forma rápida e passiva. É o momento associado à B3.

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    7. Diástase

    Fase de enchimento lento, com pressões de átrio e ventrículo quase iguais. É a fase que mais encurta quando a frequência cardíaca aumenta.

Em repouso, a maior parte do enchimento ventricular é passiva. A sístole atrial contribui com uma fração menor (em geral citada em torno de 20 a 30%), mas ganha importância na taquicardia e no ventrículo rígido.

Bulhas cardíacas: o som das valvas fechando

As bulhas não são o som das valvas “batendo” como portas, e sim das vibrações do sangue, das valvas e das paredes quando o fluxo é bruscamente interrompido.

Bulha Quando ocorre Origem Em cães e gatos
B1 (“tum”) Início da sístole Fechamento das valvas AV (mitral e tricúspide) Normal, audível
B2 (“tá”) Início da diástole Fechamento das valvas semilunares (aórtica e pulmonar) Normal, audível
B3 Início da diástole, no enchimento rápido Desaceleração brusca do sangue em ventrículo dilatado/sobrecarregado Em geral anormal (galope)
B4 Fim da diástole, na sístole atrial Átrio contraindo contra ventrículo rígido Em geral anormal (galope)

Entre B1 e B2 está a sístole; entre B2 e a próxima B1 está a diástole. Em frequências normais, a diástole é mais longa, o que ajuda a identificar qual bulha é qual.

Em pessoas, especialmente jovens e atletas, uma B3 pode ser fisiológica. Já em cães e gatos, B3 ou B4 audíveis devem ser consideradas anormais até prova em contrário. Em grandes animais, como equinos, B3 e B4 podem ser detectadas em indivíduos saudáveis — mais um motivo para não transferir conceitos entre espécies sem cuidado.

ECG e ciclo mecânico: quem vem primeiro?

O evento elétrico sempre precede o mecânico. O ECG mostra a despolarização e a repolarização; a contração vem logo em seguida.

Evento no ECG O que representa Evento mecânico correspondente
Onda P Despolarização atrial Sístole atrial (logo depois)
Intervalo PR Condução pelo nó AV Atraso que permite ao átrio terminar de encher o ventrículo
Complexo QRS Despolarização ventricular Início da contração isovolumétrica, B1 logo após
Segmento ST Ventrículo despolarizado por completo Ejeção
Onda T Repolarização ventricular Fim da ejeção; B2 por volta do final da onda T

A repolarização atrial fica “escondida” no QRS. Distúrbios eletrolíticos como a hipercalemia alteram essas ondas — veja a hemogasometria passo a passo.

Diagrama de Wiggers em palavras

O diagrama de Wiggers empilha várias curvas no mesmo eixo de tempo. Ele mostra:

  1. Pressão aórtica — oscila entre diastólica e sistólica, com a incisura dicrótica quando a aórtica fecha.
  2. Pressão ventricular esquerda — baixa na diástole, sobe abruptamente na contração isovolumétrica, acompanha a aórtica na ejeção e despenca no relaxamento.
  3. Pressão atrial esquerda — ondas a (contração atrial), c (abaulamento da AV) e v (enchimento atrial com a AV fechada).
  4. Volume ventricular — máximo no fim da diástole, cai na ejeção, estável nas fases isovolumétricas.

Embaixo vêm o ECG e o fonocardiograma. O truque: onde as curvas de pressão se cruzam, uma valva abre ou fecha.

Cruzamento de curvas Evento valvar Marca
Pressão ventricular passa a atrial (subindo) Mitral fecha B1
Pressão ventricular passa a aórtica (subindo) Aórtica abre Início da ejeção
Pressão ventricular fica abaixo da aórtica Aórtica fecha B2, incisura dicrótica
Pressão ventricular fica abaixo da atrial Mitral abre Início do enchimento rápido

Volumes: VDF, VSF, volume sistólico e fração de ejeção

Do ciclo cardíaco saem os volumes que você vai usar na ecocardiografia e na clínica:

  • Volume diastólico final (VDF): volume no ventrículo ao fim da diástole, logo antes da contração. Reflete a pré-carga.
  • Volume sistólico final (VSF): o que sobra no ventrículo ao fim da ejeção. O ventrículo nunca se esvazia por completo.
  • Volume sistólico (VS): VS = VDF − VSF. É o volume ejetado a cada batimento.
  • Fração de ejeção (FE): FE = VS ÷ VDF. Em animais saudáveis costuma ficar, de forma aproximada, acima de 50%, com variação por espécie, método e laboratório de ecocardiografia.
  • Débito cardíaco: VS × frequência cardíaca.

No loop pressão-volume, esses valores formam um “retângulo” arredondado: os lados verticais são as fases isovolumétricas (pressão muda, volume não), o lado inferior é o enchimento e o superior é a ejeção. A largura do loop é o volume sistólico.

Sístole

  • Começa com B1 (AV fecham)
  • Contração isovolumétrica + ejeção rápida e lenta
  • No ECG: do QRS até o fim da onda T
  • Sopro aqui = sopro sistólico
  • Volume cai do VDF até o VSF

Diástole

  • Começa com B2 (semilunares fecham)
  • Relaxamento isovolumétrico + enchimento rápido + diástase + sístole atrial
  • Fase que mais encurta na taquicardia
  • Sopro aqui = sopro diastólico
  • Também é quando as coronárias do VE recebem mais fluxo

Relevância clínica: onde o ciclo aparece no paciente

Sopros sistólicos x diastólicos. Um sopro é o som de fluxo turbulento. Se ele ocorre entre B1 e B2, é sistólico — por exemplo, a regurgitação mitral na degeneração mixomatosa valvar em cães de raças pequenas, ou a estenose subaórtica e a estenose pulmonar. Se ocorre depois de B2, é diastólico — como na insuficiência aórtica, que é bem menos comum em cães e gatos. Há ainda sopros contínuos, como no ducto arterioso persistente, que atravessam B2.

Galope no gato com cardiomiopatia hipertrófica. Na cardiomiopatia hipertrófica felina, o ventrículo esquerdo fica espesso e rígido (disfunção diastólica). O átrio contrai com mais força para completar o enchimento, o que pode gerar B4; em frequências altas, B3 e B4 podem se fundir (galope de soma). Galope em gato justifica investigação cardiológica, mesmo sem sopro.

Taquicardia encurta a diástole. Quando a frequência aumenta, a sístole encurta pouco, mas a diástole encurta bastante — sobretudo a diástase. Resultado: menos enchimento (o VDF pode cair), mais dependência da contração atrial e menos perfusão coronariana do ventrículo esquerdo. Por isso perder o “chute atrial” (como na fibrilação atrial) pesa mais em corações rígidos.

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  1. Um sopro auscultado entre B1 e B2 é classificado como:

  2. Durante o relaxamento isovolumétrico do ventrículo esquerdo:

  3. Um gato com cardiomiopatia hipertrófica apresenta som extra no fim da diástole, logo antes de B1. A explicação mais provável é:

  4. Um ventrículo tem VDF de 40 mL e VSF de 16 mL. Qual é a fração de ejeção aproximada?

Referências

  1. Klein, B. G. Cunningham — Tratado de Fisiologia Veterinária. 6. ed. Rio de Janeiro: Elsevier, 2021.
  2. Reece, W. O. Dukes — Fisiologia dos Animais Domésticos. 13. ed. Rio de Janeiro: Guanabara Koogan, 2017.
  3. Ware, W. A. Medicina Cardiovascular de Pequenos Animais. São Paulo: MedVet, 2015.
  4. Guyton, A. C.; Hall, J. E. Tratado de Fisiologia Médica. 14. ed. Rio de Janeiro: Elsevier, 2021.

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