Taxa de filtração glomerular: forças de Starling no glomérulo

Entenda a taxa de filtração glomerular: forças de Starling, arteríolas aferente e eferente, autorregulação, AINEs, IECA e os marcadores creatinina e SDMA.

Por Equipe AjudaVet··7 min de leitura
Ilustração de um cão e um gato ao lado de um rim estilizado, com um glomérulo filtrando gotas de líquido

Toda vez que você olha a creatinina de um paciente, está tentando enxergar, de forma indireta, um único número: a taxa de filtração glomerular (TFG). Ela diz quanto plasma os rins conseguem filtrar por minuto e é o melhor indicador global da função renal. Para interpretar exames e evitar lesões causadas por fármacos, você precisa entender o que empurra (e o que segura) o líquido no glomérulo.

A barreira de filtração: um filtro em três camadas

O glomérulo é um novelo de capilares dentro da cápsula de Bowman. Entre o sangue e o espaço urinário existem três camadas, que funcionam juntas como uma peneira seletiva:

Camada Característica O que barra
Endotélio fenestrado Poros grandes Células do sangue
Membrana basal glomerular Rica em proteoglicanos com carga negativa Macromoléculas, sobretudo as aniônicas
Podócitos (fendas de filtração) Diafragma de fenda entre os pedicelos Proteínas de tamanho médio, como a albumina

A seleção depende de tamanho e carga. Água, eletrólitos, glicose, ureia e creatinina passam livremente. A albumina, por ser relativamente grande e negativa, é quase toda retida. Por isso, proteinúria glomerular é um sinal de lesão dessa barreira, tema que volta no estadiamento IRIS da DRC.

As forças de Starling no glomérulo

A filtração segue a mesma lógica de Starling de qualquer capilar, mas com uma diferença crucial: a pressão hidrostática no capilar glomerular é bem mais alta que em capilares comuns, porque o glomérulo fica entre duas arteríolas.

Força Direção Comentário
Pressão hidrostática glomerular (PHg) A favor da filtração É a principal variável regulada
Pressão oncótica do plasma (πg) Contra Aumenta ao longo do capilar, à medida que o líquido sai e as proteínas ficam
Pressão hidrostática na cápsula de Bowman (PHb) Contra Sobe muito na obstrução urinária
Pressão oncótica na cápsula A favor Praticamente zero, pois quase não há proteína no filtrado

Pressão efetiva de filtração = PHg − (πg + PHb)

E a TFG é o produto dessa pressão pelo coeficiente de filtração (Kf), que reflete a área disponível e a permeabilidade. Doenças que destroem glomérulos reduzem o Kf; obstruções uretrais elevam a PHb; desidratação grave reduz a PHg e pode concentrar as proteínas plasmáticas. Todas, por caminhos diferentes, reduzem a TFG.

Diagrama de um glomérulo entre as arteríolas aferente e eferente, com setas mostrando as forças a favor e contra a filtração
A pressão hidrostática glomerular empurra o líquido para a cápsula; a pressão oncótica e a pressão na cápsula de Bowman se opõem. O tônus das arteríolas aferente e eferente ajusta esse equilíbrio.

Arteríola aferente x eferente: quem controla o quê

Arteríola aferente

  • Vasoconstrição reduz o fluxo e a pressão glomerular: TFG cai
  • Vasodilatação aumenta a pressão glomerular: TFG sobe
  • Dilatada por prostaglandinas renais, especialmente em hipovolemia
  • Contraída por estímulo simpático intenso e pelo feedback tubuloglomerular

Arteríola eferente

  • Vasoconstrição moderada aumenta a pressão glomerular: TFG tende a ser mantida
  • Vasodilatação reduz a pressão glomerular: TFG cai
  • Contraída preferencialmente pela angiotensina II
  • Sua contração eleva a fração de filtração

Esse desenho explica dois dos efeitos farmacológicos mais cobrados na clínica:

  • AINEs bloqueiam a cicloxigenase e reduzem as prostaglandinas que mantêm a aferente dilatada. Num animal bem hidratado, o efeito costuma ser pequeno. Num paciente desidratado, hipotenso, anestesiado ou com doença renal, as prostaglandinas são essenciais, e o AINE pode precipitar lesão renal aguda.
  • IECA (como benazepril e enalapril) e bloqueadores do receptor de angiotensina reduzem a ação da angiotensina II na eferente. Isso diminui a pressão intraglomerular, o que é benéfico na proteinúria, mas pode reduzir a TFG e elevar discretamente a creatinina, sobretudo se o paciente estiver desidratado.

Associar AINE, IECA e diurético num paciente vulnerável remove ao mesmo tempo os principais mecanismos de proteção da TFG. Por isso essa combinação exige cautela e monitoramento.

Autorregulação: como a TFG fica estável

Se a TFG acompanhasse cada variação da pressão arterial, o rim perderia ou reteria água e sal de forma caótica. Dois mecanismos impedem isso, atuando numa faixa ampla de pressão arterial média (em geral citada como aproximadamente 80 a 180 mmHg):

Os dois mecanismos de autorregulação
  1. 1
    Reflexo miogênico

    Quando a pressão arterial sobe, a parede da arteríola aferente é estirada e responde contraindo. Quando a pressão cai, ela relaxa. É uma resposta intrínseca do músculo liso, rápida e independente de nervos.

  2. 2
    Feedback tubuloglomerular

    A mácula densa, no início do túbulo distal, percebe a carga de NaCl. Se a TFG sobe, chega mais NaCl; a mácula densa libera mediadores (como a adenosina) que contraem a aferente e trazem a TFG de volta.

  3. 3
    Sistema renina-angiotensina

    Com pouco NaCl na mácula densa, baixa pressão na aferente ou estímulo simpático, as células justaglomerulares liberam renina. A angiotensina II contrai a eferente e ajuda a sustentar a TFG.

  4. 4
    Quando a autorregulação falha

    Abaixo do limite inferior (choque, anestesia profunda, hemorragia), a TFG passa a cair junto com a pressão. Aqui surge a azotemia pré-renal.

A conexão com o controle sistêmico da pressão é direta: veja como o organismo defende a pressão em pressão arterial e barorreflexo.

Como medir a TFG na prática: creatinina, SDMA e depuração

Medir a TFG diretamente é trabalhoso, então usamos marcadores, substâncias filtradas livremente cujo nível no sangue sobe quando a filtração cai.

Marcador Vantagens Limitações
Creatinina sérica Barata, disponível, base do estadiamento IRIS Depende da massa muscular; costuma subir de forma clara só após perda de grande parte da função (frequentemente citada em torno de 75% dos néfrons); relação não linear com a TFG
SDMA Pouco influenciada pela massa muscular; tende a subir mais cedo Pode variar entre métodos e laboratórios; interpretar sempre junto com creatinina e urina
Ureia Barata Influenciada por dieta, sangramento gastrointestinal, catabolismo e função hepática
Depuração (clearance) de iohexol ou creatinina Estima a TFG de fato Exige coletas seriadas e protocolo; pouco usada na rotina

A relação entre creatinina e TFG é uma hipérbole: no início da perda de função, a TFG cai muito e a creatinina quase não muda; nas fases avançadas, pequenas quedas da TFG geram grandes aumentos de creatinina. Por isso uma creatinina “no limite superior” pode já representar perda importante de função, principalmente em animais magros.

Revise em 1 minuto

Flashcards de revisão clique para virar
Teste seu conhecimento0/4
  1. Um gato com obstrução uretral tem TFG reduzida. Qual força de Starling explica melhor isso?

  2. Qual efeito é esperado com um IECA sobre a hemodinâmica glomerular?

  3. O mecanismo miogênico de autorregulação consiste em:

  4. Um cão muito caquético tem creatinina dentro do intervalo de referência. A interpretação mais prudente é:

No próximo passo da trilha, veja o que acontece com o filtrado ao longo do néfron: reabsorção, secreção e excreção tubular.

Referências

  1. Klein, B. G. Cunningham — Tratado de Fisiologia Veterinária. 6. ed. Rio de Janeiro: Elsevier, 2021.
  2. Reece, W. O. Dukes — Fisiologia dos Animais Domésticos. 13. ed. Rio de Janeiro: Guanabara Koogan, 2017.
  3. Hall, J. E.; Hall, M. E. Guyton & Hall — Tratado de Fisiologia Médica. 14. ed. Rio de Janeiro: Elsevier, 2021.
  4. Stockham, S. L.; Scott, M. A. Fundamentals of Veterinary Clinical Pathology. 2. ed. Ames: Blackwell Publishing, 2008.

Conteúdo educativo. Valores de referência variam entre laboratórios, equipamentos e literatura — sempre confira os intervalos do seu laboratório e a bibliografia oficial antes de aplicar na rotina.

Continue estudando