
Você diagnosticou doença renal crônica (DRC) num gato idoso. E agora: ela é leve ou avançada? Qual o prognóstico? Quando tratar proteinúria e hipertensão? O estadiamento IRIS (International Renal Interest Society) organiza essas respostas numa linguagem comum entre clínicos, laboratórios e especialistas. Neste artigo você entende como os estádios são definidos, onde entra o SDMA e por que o subestadiamento é tão importante quanto o estádio.
Antes de estadiar: o paciente certo, no momento certo
O erro mais comum é estadiar um paciente desidratado ou instável. A creatinina de um gato com DRC que chegou vomitando e desidratado inclui um componente pré-renal, que superestima o estádio. Revise a diferença em azotemia pré-renal, renal e pós-renal.
- 1Confirme que é doença renal crônica
Histórico, exame físico, densidade urinária, imagem renal e persistência das alterações por semanas a meses. Lesão renal aguda tem um sistema próprio de graduação.
- 2Estabilize e hidrate
Corrija desidratação e causas pré e pós-renais. Estadiar durante uma crise superestima a doença.
- 3Dose creatinina e SDMA em jejum
Use pelo menos duas dosagens, com o paciente estável, de preferência no mesmo laboratório.
- 4Atribua o estádio
Use a creatinina como base e considere o SDMA, principalmente em animais magros.
- 5Faça o subestadiamento
Meça a RPC com sedimento inativo e a pressão arterial sistólica em condições padronizadas, com medidas repetidas.
Os estádios IRIS por creatinina
Os valores abaixo são aproximados, baseados nas diretrizes IRIS vigentes no momento da redação. Eles podem ser revisados: confira sempre a versão atual em iris-kidney.com.
| Estádio | Cão: creatinina | Gato: creatinina | O que significa |
|---|---|---|---|
| 1 | Abaixo de 1,4 mg/dL (abaixo de 125 µmol/L) | Abaixo de 1,6 mg/dL (abaixo de 140 µmol/L) | Sem azotemia, mas com outra evidência de doença renal (urina pouco concentrada sem causa extrarrenal, alteração em imagem, proteinúria renal, SDMA persistentemente elevado) |
| 2 | 1,4 a 2,8 mg/dL (125 a 250 µmol/L) | 1,6 a 2,8 mg/dL (140 a 250 µmol/L) | Azotemia discreta; sinais clínicos ausentes ou leves |
| 3 | 2,9 a 5,0 mg/dL (251 a 440 µmol/L) | 2,9 a 5,0 mg/dL (251 a 440 µmol/L) | Azotemia moderada; sinais sistêmicos podem estar presentes |
| 4 | Acima de 5,0 mg/dL (acima de 440 µmol/L) | Acima de 5,0 mg/dL (acima de 440 µmol/L) | Risco crescente de sinais urêmicos e crises |
Note que a faixa de normalidade não é a mesma do intervalo de referência do laboratório, que varia por método e população. Um cão com creatinina de 1,5 mg/dL pode estar “dentro da referência” no laudo e, ainda assim, ser estádio 2 se tiver DRC confirmada.

O papel do SDMA
A dimetilarginina simétrica (SDMA) é um aminoácido metilado liberado na degradação de proteínas e eliminado quase todo pela filtração glomerular. Como vimos em taxa de filtração glomerular, ela tem duas vantagens sobre a creatinina:
Creatinina
- Depende da massa muscular
- Sobe de forma clara apenas após perda importante da função
- Base oficial do estadiamento IRIS
- Barata e amplamente disponível
SDMA
- Pouco influenciada pela massa muscular
- Tende a subir mais cedo na perda de TFG
- Usada para ajustar o estádio, não para substituí-lo sozinha
- Valores podem variar entre métodos e laboratórios
Como as diretrizes IRIS usam o SDMA, de forma geral:
- Estádio 1: SDMA persistentemente acima de cerca de 14 µg/dL com creatinina abaixo do corte sugere redução da TFG e reforça o diagnóstico de doença renal precoce.
- Estádio 2 com baixa condição corporal: SDMA de aproximadamente 25 µg/dL ou mais no gato ou 35 µg/dL ou mais no cão sugere que a creatinina subestima a perda de função; a IRIS recomenda considerar as condutas do estádio 3.
- Estádio 3 com baixa massa muscular: SDMA muito elevado (aproximadamente acima de 38 µg/dL no gato ou 54 µg/dL no cão) sugere tratar como estádio 4.
Nunca interprete o SDMA isolado. Um único valor alto num paciente sem outros achados pede repetição, avaliação da urina e investigação, não um diagnóstico imediato de DRC.
Subestadiamento: proteinúria e pressão arterial
Dois pacientes no mesmo estádio podem ter prognósticos bem diferentes. Proteinúria renal e hipertensão aceleram a progressão e respondem a tratamento, por isso todo paciente recebe dois subestádios.
Proteinúria (RPC, com sedimento inativo e após excluir causas pré e pós-renais)
| Subestádio | Cão | Gato |
|---|---|---|
| Não proteinúrico | RPC abaixo de 0,2 | RPC abaixo de 0,2 |
| Limítrofe | 0,2 a 0,5 | 0,2 a 0,4 |
| Proteinúrico | Acima de 0,5 | Acima de 0,4 |
A forma correta de chegar à RPC está em urinálise completa. Pacientes limítrofes devem ser reavaliados, porque a proteinúria pode progredir.
Pressão arterial sistólica (mmHg), com medidas repetidas e paciente adaptado ao ambiente
| Subestádio | Pressão sistólica | Risco de lesão em órgão-alvo |
|---|---|---|
| Normotenso | Abaixo de 140 | Mínimo |
| Pré-hipertenso | 140 a 159 | Baixo |
| Hipertenso | 160 a 179 | Moderado |
| Gravemente hipertenso | 180 ou mais | Alto |
Os órgãos-alvo da hipertensão são rins, olhos (descolamento de retina, hemorragias), cérebro e coração. A hipertensão do estresse (“efeito do jaleco branco”) é comum, principalmente em gatos, então a medida deve seguir protocolo: ambiente calmo, aclimatação, várias leituras.
Revise em 1 minuto
Um cão com DRC chega desidratado e vomitando, com creatinina de 6,0 mg/dL. Qual a conduta correta em relação ao estadiamento IRIS?
A desidratação acrescenta um componente pré-renal. O estádio deve ser definido no paciente estável e hidratado.
Um gato magro em estádio 2 pela creatinina tem SDMA persistentemente de 30 µg/dL. Segundo as diretrizes IRIS, deve-se:
Na baixa massa muscular a creatinina subestima a perda de TFG; SDMA de 25 µg/dL ou mais no gato em estádio 2 sugere tratar como estádio 3.
Um cão com DRC tem RPC de 0,8 e sedimento inativo. O subestádio por proteinúria é:
No cão, RPC acima de 0,5 com sedimento inativo e causas pré e pós-renais excluídas classifica o paciente como proteinúrico.
Qual afirmação sobre o estádio IRIS 1 está correta?
No estádio 1 a creatinina está abaixo do corte, mas há achados como urina pouco concentrada, alterações renais em imagem, proteinúria renal ou SDMA persistentemente elevado.
Para revisar a trilha renal desde o início, volte à taxa de filtração glomerular.
Referências
- Nelson, R. W.; Couto, C. G. Medicina Interna de Pequenos Animais. 6. ed. Rio de Janeiro: Elsevier, 2023.
- Ettinger, S. J.; Feldman, E. C.; Côté, E. Textbook of Veterinary Internal Medicine. 8. ed. St. Louis: Elsevier, 2017.
- Thrall, M. A. et al. Hematologia e Bioquímica Clínica Veterinária. 2. ed. São Paulo: Roca, 2015.
- Stockham, S. L.; Scott, M. A. Fundamentals of Veterinary Clinical Pathology. 2. ed. Ames: Blackwell Publishing, 2008.
Conteúdo educativo. Valores de referência variam entre laboratórios, equipamentos e literatura — sempre confira os intervalos do seu laboratório e a bibliografia oficial antes de aplicar na rotina.


