Reabsorção, secreção e excreção tubular

Túbulo proximal, alça de Henle, distal e coletor: como o néfron reabsorve e secreta, o limiar renal de glicose, a aldosterona e a síndrome de Fanconi.

Por Equipe AjudaVet··6 min de leitura
Ilustração de um gato e um cão observando um túbulo renal sinuoso, com pequenas esferas sendo recuperadas para os vasos sanguíneos

Um gato estressado chega à consulta, você coleta urina e a fita mostra glicose positiva. Diabetes? Talvez não. Para responder, você precisa saber como o néfron decide o que reabsorver, o que secretar e o que deixar sair na urina. O glomérulo filtra uma quantidade enorme de plasma por dia; são os túbulos que transformam esse filtrado em urina, recuperando quase tudo que tem valor.

As três operações do néfron

Reabsorção

  • Do lúmen tubular de volta para o sangue
  • Exemplos: glicose, aminoácidos, Na⁺, bicarbonato, água
  • Pode ser ativa (bombas, cotransportadores) ou passiva
  • Saturável quando depende de transportadores

Secreção

  • Do sangue peritubular para o lúmen
  • Exemplos: H⁺, K⁺, amônio, ácidos e bases orgânicas
  • Muitos fármacos são secretados no túbulo proximal
  • Permite eliminar substâncias além do que é filtrado

A excreção é a soma final. Uma substância livremente filtrada e não reabsorvida (como a creatinina, em grande parte) serve para estimar a filtração, como vimos em taxa de filtração glomerular. Já a glicose é filtrada e quase totalmente reabsorvida, então normalmente não aparece na urina.

Túbulo proximal: o grande recuperador

O túbulo proximal tem células com borda em escova (muitas microvilosidades) e muitas mitocôndrias. Tudo isso serve a uma tarefa: reabsorver em massa.

O que o proximal faz Como
Reabsorve cerca de dois terços do Na⁺ e da água filtrados A Na⁺/K⁺-ATPase basolateral cria o gradiente que move o Na⁺ do lúmen; a água acompanha de forma isosmótica
Reabsorve praticamente toda a glicose Cotransportadores sódio-glicose (SGLT2 e SGLT1) na membrana apical e GLUT na basolateral
Reabsorve aminoácidos, fosfato e grande parte do bicarbonato Cotransportadores com Na⁺; a recuperação de bicarbonato depende da secreção de H⁺ e da anidrase carbônica
Secreta ácidos e bases orgânicos Inclui muitos fármacos e metabólitos

Transporte máximo e limiar renal de glicose

Os transportadores de glicose são proteínas em número finito. Quando a glicemia sobe, a carga filtrada aumenta até saturar os transportadores: esse ponto é o transporte máximo (Tm). A glicemia a partir da qual a glicose começa a aparecer na urina é o limiar renal.

Espécie Limiar renal aproximado de glicose
Cão Aproximadamente 180 a 220 mg/dL
Gato Mais alto, em torno de 250 a 300 mg/dL

São valores didáticos; a literatura e os laboratórios trazem faixas um pouco diferentes. O conceito é o que importa: glicosúria ocorre quando a glicemia ultrapassa o limiar ou quando o túbulo não reabsorve como deveria.

Metáfora visual de transportadores saturados: esferas de glicose em excesso passam direto e seguem para a urina
Os transportadores de glicose são finitos. Quando a carga filtrada ultrapassa o transporte máximo, o excesso escapa e surge a glicosúria.

Alça de Henle, distal e coletor: o ajuste fino

O filtrado percorrendo o restante do néfron
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    Ramo descendente da alça

    Permeável à água e pouco permeável a solutos. A água sai para o interstício medular hipertônico e o filtrado se concentra.

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    Ramo ascendente espesso

    Impermeável à água. Reabsorve Na⁺, K⁺ e Cl⁻ pelo cotransportador NKCC2, alvo da furosemida. Dilui o filtrado e mantém o gradiente medular.

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    Túbulo contorcido distal

    Reabsorve NaCl pelo cotransportador NCC, alvo dos tiazídicos, e reabsorve cálcio sob ação do PTH. Aqui fica a mácula densa.

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    Túbulo coletor e ducto coletor

    Células principais reabsorvem Na⁺ e secretam K⁺ sob ação da aldosterona; células intercaladas secretam H⁺ ou bicarbonato. O ADH insere aquaporinas e define a concentração final.

A concentração da urina pelo mecanismo de contracorrente e pelo ADH está detalhada em como o rim concentra a urina.

Aldosterona e a secreção de H⁺ e K⁺

A aldosterona é liberada pelo córtex adrenal em resposta à angiotensina II e à hipercalemia. No néfron distal, ela:

  • Aumenta os canais de Na⁺ (ENaC) e a atividade da Na⁺/K⁺-ATPase nas células principais: mais Na⁺ reabsorvido, e a água acompanha.
  • Cria um lúmen mais eletronegativo, que favorece a secreção de K⁺ pelos canais de potássio.
  • Estimula a secreção de H⁺ pelas células intercaladas.

As consequências clínicas são diretas. Sem aldosterona (hipoadrenocorticismo), o animal perde sódio e retém potássio e H⁺: hiponatremia, hipercalemia e tendência à acidose. Excesso de aldosterona tende a causar hipocalemia e alcalose metabólica. A secreção de H⁺, junto com a recuperação de bicarbonato e a excreção de amônio, é a contribuição renal ao equilíbrio ácido-base que você interpreta na hemogasometria.

Aplicação clínica: glicosúria de estresse e síndrome de Fanconi

Gato estressado. Gatos podem desenvolver hiperglicemia de estresse marcante, mediada por catecolaminas. Se a glicemia ultrapassar o limiar renal por tempo suficiente, aparece glicosúria, o que confunde com diabetes. Uma glicemia isolada não basta. Ajudam a diferenciar:

  • Frutosamina, que reflete a glicemia média das últimas semanas e tende a ficar normal na hiperglicemia transitória.
  • Repetir a urina coletada em casa, num momento sem estresse.
  • Quadro clínico compatível (poliúria, polidipsia, polifagia, perda de peso).

Síndrome de Fanconi. É uma disfunção generalizada do túbulo proximal. O animal perde na urina glicose, aminoácidos, fosfato, bicarbonato e eletrólitos, com glicemia normal. Pode ser hereditária (o exemplo clássico é o Basenji) ou adquirida, associada a toxinas e fármacos e a surtos ligados a petiscos de frango desidratado (jerky). O achado que chama a atenção é glicosúria com normoglicemia, às vezes com acidose metabólica por perda de bicarbonato.

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  1. Um gato muito agitado na consulta tem glicemia elevada e glicosúria, sem sinais clínicos de diabetes. O passo mais adequado é:

  2. Um Basenji tem glicosúria, glicemia normal e acidose metabólica. O segmento mais provavelmente afetado é:

  3. Um cão com hipoadrenocorticismo tende a apresentar:

  4. Qual diurético age no cotransportador NKCC2 do ramo ascendente espesso?

Próximo passo da trilha: como o rim concentra a urina e o que a densidade urinária revela.

Referências

  1. Klein, B. G. Cunningham — Tratado de Fisiologia Veterinária. 6. ed. Rio de Janeiro: Elsevier, 2021.
  2. Reece, W. O. Dukes — Fisiologia dos Animais Domésticos. 13. ed. Rio de Janeiro: Guanabara Koogan, 2017.
  3. Hall, J. E.; Hall, M. E. Guyton & Hall — Tratado de Fisiologia Médica. 14. ed. Rio de Janeiro: Elsevier, 2021.
  4. DiBartola, S. P. Fluid, Electrolyte, and Acid-Base Disorders in Small Animal Practice. 4. ed. St. Louis: Elsevier Saunders, 2012.
  5. Nelson, R. W.; Couto, C. G. Medicina Interna de Pequenos Animais. 6. ed. Rio de Janeiro: Elsevier, 2023.

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