Enzimas hepáticas: ALT, FA, GGT e o que elas contam

ALT, FA e GGT sem mistério: extravasamento x indução, diferenças entre cão e gato e por que enzima alta não é o mesmo que insuficiência hepática.

Por Equipe AjudaVet··6 min de leitura
Ilustração de um fígado estilizado liberando partículas de enzimas para um vaso sanguíneo, com analisador bioquímico, um cão e um gato

A bioquímica volta com a FA quatro vezes acima do limite e a ALT discretamente alta. O tutor pergunta: “o fígado dele está parando?”. Não necessariamente. As enzimas hepáticas contam lesão ou estímulo das células, não função. Entender essa diferença — e as particularidades do cão e do gato — é o que separa uma leitura correta de um susto desnecessário.

Extravasamento x indução: dois jeitos de subir

Extravasamento

  • Enzimas do citosol ou mitocôndrias do hepatócito
  • Sobem quando a membrana é lesada
  • Exemplos: ALT e AST
  • Aumento proporcional, grosso modo, ao número de células lesadas, não à gravidade clínica

Indução

  • Enzimas ligadas à membrana de hepatócitos e epitélio biliar
  • Sobem quando a célula sintetiza mais
  • Exemplos: FA e GGT
  • Gatilhos: colestase, corticoides, anticonvulsivantes como o fenobarbital

Uma analogia útil: o hepatócito é um balão cheio de ALT. Se você o fura (hipóxia, toxinas, inflamação, trauma), a ALT vaza para o sangue. Já a FA e a GGT são como produção sob encomenda: quando a bile fica estagnada ou quando há estímulo hormonal, a célula fabrica mais enzima e ela “transborda” para a circulação.

À esquerda, hepatócito lesado vazando enzimas como um balão furado; à direita, hepatócito íntegro produzindo enzimas extras como uma fábrica
Extravasamento (ALT, AST) indica lesão do hepatócito; indução (FA, GGT) indica que a célula está produzindo mais enzima.

ALT e AST: o marcador de lesão

A ALT (alanina aminotransferase) está no citosol dos hepatócitos e é considerada específica de fígado em cães e gatos. Lesões musculares graves podem elevá-la um pouco, por isso, se a CK também estiver muito alta, interprete com cuidado.

A AST (aspartato aminotransferase) existe no fígado, mas também nos músculos e nas hemácias: é menos específica. Hemólise da amostra e lesão muscular podem aumentá-la.

Pontos-chave sobre a ALT:

  • A magnitude reflete quantas células vazaram, não o prognóstico. Um aumento muito alto após uma lesão aguda pode ser totalmente reversível.
  • No cão, a meia-vida plasmática é de aproximadamente 2 a 3 dias; por isso a queda progressiva em exames seriados sugere recuperação.
  • Em cães, corticoides e fenobarbital podem causar aumento discreto da ALT, por indução.
  • Fígado em estágio final (cirrose) pode ter ALT normal: sobraram poucas células para vazar.

FA: colestase, corticoide e osso

A fosfatase alcalina (FA) existe em várias isoformas. As que mais importam na rotina:

Isoforma Origem Quando sobe
Hepática Membrana dos canalículos biliares Colestase intra ou extra-hepática
Induzida por corticoide Fígado, exclusiva do cão Hiperadrenocorticismo, corticoide exógeno, estresse crônico
Óssea Osteoblastos Animais em crescimento, lise óssea, osteossarcoma, hipertireoidismo felino

No cão, a FA é uma enzima “sensível, mas pouco específica”. Ela sobe com colestase, com corticoide (endógeno ou exógeno, inclusive tópico em alguns casos), com fenobarbital e em doenças sistêmicas que afetam secundariamente o fígado. Um aumento isolado e acentuado de FA em cão idoso com poliúria, polifagia e abdome abaulado faz pensar em hiperadrenocorticismo.

No gato, a história é outra. O fígado felino tem pouca FA, a meia-vida plasmática da enzima é curta (horas, contra alguns dias no cão) e não existe isoforma induzida por corticoide. Resultado: qualquer aumento de FA no gato merece investigação. Causas clássicas: lipidose hepática, colangite, obstrução biliar, hipertireoidismo e diabetes mellitus.

GGT: o parceiro da FA

A GGT (gama-glutamiltransferase) também é uma enzima de indução, concentrada no epitélio biliar. Ela costuma subir junto com a FA na colestase.

  • Cão: também é induzida por corticoide, mas é um pouco mais específica para doença hepatobiliar que a FA.
  • Gato: em geral, a GGT é mais sensível que a FA para colangite e obstrução biliar. A exceção famosa é a lipidose hepática, em que a FA sobe bastante e a GGT fica normal ou só levemente alta.
  • Grandes animais: em bovinos e equinos, a GGT é um dos principais marcadores de doença hepatobiliar.
  • Neonatos: filhotes que mamaram colostro podem ter GGT e FA altas sem doença.

Lesão x função: o que realmente mede o fígado

O fígado tem enorme reserva funcional. Sinais laboratoriais de insuficiência costumam aparecer quando boa parte da massa funcional já foi perdida, enquanto as enzimas podem subir com lesões pequenas.

Exame Por que muda na insuficiência hepática Cuidado na interpretação
Bilirrubina O fígado capta, conjuga e excreta Descarte hemólise (pré-hepática) e obstrução (pós-hepática)
Albumina Síntese exclusivamente hepática Também cai em perdas renais e intestinais e na inflamação
Ureia O ciclo da ureia é hepático Baixa também em dieta pobre em proteína e poliúria
Glicose Gliconeogênese e glicogênio Hipoglicemia aparece em insuficiência grave e no shunt
Colesterol Síntese hepática Baixo no shunt e na insuficiência; alto na colestase
Ácidos biliares Recirculação êntero-hepática Teste sensível de função; perde utilidade se já houver icterícia não hemolítica
Fatores de coagulação Síntese hepática TP e TTPa prolongam em insuficiência grave

Para revisar o caminho da bilirrubina, veja fisiologia hepática e bilirrubina. Para entender a albumina e as globulinas, siga para proteínas totais, albumina e globulinas.

Lendo o perfil hepático em 4 passos
  1. 1
    Padrão predominante

    ALT mais alta que FA sugere lesão hepatocelular; FA e GGT predominando sugerem colestase ou indução.

  2. 2
    Espécie e fármacos

    Cão em uso de corticoide ou fenobarbital? Gato com qualquer aumento de FA? Ajuste a interpretação.

  3. 3
    Função

    Confira bilirrubina, albumina, ureia, glicose, colesterol e, se necessário, ácidos biliares pré e pós-prandiais.

  4. 4
    Primária ou secundária

    Muitas doenças extra-hepáticas (endocrinopatias, pancreatite, sepse) alteram as enzimas. Imagem e histórico ajudam a separar.

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  1. Um cão em tratamento com prednisolona apresenta FA bem aumentada, GGT discretamente alta e função hepática normal. A explicação mais provável é:

  2. Em qual espécie um aumento moderado de FA é considerado mais significativo, por causa da meia-vida curta da enzima?

  3. Qual achado indica melhor PERDA DE FUNÇÃO hepática do que lesão?

  4. Um gato obeso, anoréxico há uma semana, ictérico, com FA muito alta e GGT normal. A principal suspeita é:

No próximo passo da trilha: proteínas totais, albumina e globulinas.

Referências

  1. Thrall, M. A. et al. Hematologia e Bioquímica Clínica Veterinária. 2. ed. Rio de Janeiro: Roca, 2015.
  2. Stockham, S. L.; Scott, M. A. Fundamentals of Veterinary Clinical Pathology. 2. ed. Ames: Blackwell, 2008.
  3. Kaneko, J. J.; Harvey, J. W.; Bruss, M. L. Clinical Biochemistry of Domestic Animals. 6. ed. San Diego: Academic Press, 2008.
  4. Nelson, R. W.; Couto, C. G. Medicina Interna de Pequenos Animais. 5. ed. Rio de Janeiro: Elsevier, 2015.
  5. Washabau, R. J.; Day, M. J. Canine and Feline Gastroenterology. St. Louis: Elsevier Saunders, 2013.

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